sexta-feira, 4 de abril de 2014

Escrever para se vingar da vida, Jeferson Tenório


“Ora, Fernando, pra agüentar com um destino desses, antes de mais nada, é preciso de ter uma ambição enorme, uma paciência enraivecida, um desejo de se vingar da vida.”

Organizando os livros aqui em casa dei com esta frase marcada a lápis no livro “Cartas ao jovem escritor”, do Mario de Andrade dirigida ao então Jovem aspirante a escritor Fernando Sabino. O livro está repleto de reflexões sobre criação literária. Não é raro encontrarmos escritores mais experientes escrevendo cartas aos novatos.
Esse tom professoral talvez seja a tentativa de tornar a caminhada de quem escreve menos árdua. Revelar o caminho das pedras também está presente em outros livros: “Cartas a um jovem poeta”, do Raine Maria Rilke, “Cartas a um jovem escritor”, do Mario Vargas Llosa, “O escritor e seus fantasmas”, do Ernesto Sábato, A “preparação do escritor”, do Raimundo Carrero e, mais recentemente, o livro “Do que eu falo quando falo de corrida”, do Haruki Murakami. Há outros exemplos, certamente, mas o que todos parecem querer dizer é que é preciso encontrar um motivo muito forte pra quem gastar a vida escrevendo.
Creio que encontrar tal motivo se torna ainda mais dramático quando se vive num país como o nosso. Acho que toda essa ideia de dedicação à escrita e de que ela nos salva do abismo é muito bonita e verdadeira, mas não esqueçamos que estamos no Brasil. Dedicar-se à escrita integralmente é quase uma falta de respeito dentro da nossa cultura capitalista e utilitária. Quem se propõe a levar a cabo essa história de escrever sabe bem o custo disso.
A grande maioria de escritores exercem a escrita em concomitância com outra profissão. Mas sinceramente, para mim é difícil imaginar um professor que tenha uma dura jornada de 30 ou 40 horas de aula produzir algo em literatura ou em qualquer outra área artística. E é por isso que tenho uma inveja danada de dois escritores: Murakami, que um dia acordou e disse pra si mesmo “vou largar tudo e ser romancista”, (e virou mesmo, e ainda deve ganhar o Nobel daqui há uns 15 anos, raiva!) e do poeta Manoel de barros que disse ter comprado seu oficio para ser vagabundo de profissão. Por outro lado, alguém disse certa vez, que aquele que for esperar as condições perfeitas para escrever, vai acabar não fazendo é nada. Porque o verdadeiro artista é aquele que ergue sua obra em meio à devastação, como diria o nosso amigo russo Dostô.
Mesmo com toda esta chateação de não podermos ser vagabundos e termos de nos virar para escrever do jeito que dá, o livro de Mario vale apena porque revela uma coisa importante sobre a escrita: a seriedade. Mario de Andrade tem, a todo o momento, a preocupação em demonstrar ao iniciante Fernando Sabino que escrever só vale se houver devoção e desejo, insistindo que a escrita nunca é fácil, e que é necessário desconfiar sempre daquilo que se escreve: “Sendo a arte um produto direto da insatisfação humana, o artista, para se preservar em sua integridade, tem que renegar toda e qualquer facilidade que lhe a aparecer”.
Para o Mario, é necessário preservar o ímpeto moral de um artista diante da vida, além disso, propõe aceitação da aridez de estímulo para quem começa. E adverte que a publicação não pode ser o estímulo principal. Justamente porque é preciso que o artista carregue nos olhos esta insatisfação de quem não concorda com a vida e de que, às vezes, é preciso dizer isso a ela, isto é, como se a literatura servisse pra encostar a vida na parede e lhe pedisse satisfações. No entanto, nós sabemos que talvez não seja bem assim, pois desconfio que a vida tem mais o que fazer do que nos dar satisfações.
O fato é que a história dos artistas tem mostrado que o escritor é, antes de tudo, um inconformado e que, nas palavras do próprio Mário: “o homem encontra cotidianamente em seu caminho, o conformismo. Ela principia já por ser fisiológica, é a lei da estabilização, a lei que eu chamo da “preguiça”, nós vivemos morrendo, quando o principio moral verdadeiro, é justo o contrário: nós devemos viver sempre nascendo”. Mas até que isso aconteça, o caminho é lento e penoso dos que resolvem escrever.
Já Murakami deixa claro que o escritor é aquele tem que de saber lidar com a derrota, pois “Ninguém vence o tempo todo”, escreve ele. Admite que a vida é uma causa perdida e, é por isso mesmo, que vale apena escrever. A escrita como um modo de vencer mesmo na derrota.
Mario de Andrade também bate nessa tecla num dos trechos mais belos e maduros dessa carta “Não será talvez preferível e mais profundamente egoísta você não sacrificar nada, nem facilidades, nem amor, nem gozo, nem inimigos, nem incompreensões, mas viver tudo junto, em tudo procurando apurar o que é você e buscando se superar em você? Pra que imaginar se o outro lado do túnel faz dia ou faz noite? Só tem um jeito de saber; ir até lá. O perigo não é encontrar a noite lá, mas encontrar a noite e imaginar que é dia. Talvez o melhor segredo da dignidade de ser homem é ter a força e dizer: “perdi”. Porque, Fernando, nós perdemos. Nós perdemos sempre… o indivíduo humano será sempre essa “região amaldiçoada!” em que não é exatamente que ninguém consigo penetrar, mas em que toda exploração é imperfeita, incompleta.”
Ernesto Sábato no “Escritor e seus fantasmas” afirma que só se escreve com fanatismo: “O fanatismo. Tem de ter uma obsessão, nada deve antepor-se à criação, deve se sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer.” Comentário que tem a ver com o de Raimundo Carrero em “A preparação do escritor” ao dizer que não há trégua para quem escreve. O exercício constante e sistemático faz parte do ofício.
A devoção à escrita é talvez a única saída para quem pretende em algo literatura, no entanto, creio que quem consegue fazer isto, tendo uma ou duas jornadas de trabalho em escritórios ou salas de aulas, está mais próximo do super-homem de Hollywood do que do super-homem do Nietzsche.
Na verdade, todos que escrevem sejam eles experientes ou novatos “Vagabundos” ou operários, inventam seus motivos para acreditar que diante daquela tela fria do monitor ou daquela folha opaca saíra algo que valha apena. E assim, todos, de alguma forma, acabam se tornando um Dom Quixote amotinado, tendo de criar um moinho por dia.
Jeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS.

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