sábado, 23 de dezembro de 2017

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Paul Auster: Invisível (trechos do livro)


Que mais eu vi naqueles primeiros instantes? Pele pálida, cabelo avermelhado e descuidado (mais curto que o cabelo da maioria dos homens na época), rosto largo e simpático, sem nada particularmente característico (um rosto genérico, de certo modo, um rosto que se tornaria invisível em qualquer multidão), e olhos castanhos e firmes, os olhos inquiridores de um homem que parecia não ter medo de nada. Nem magro nem pesado, nem alto nem baixo, mas apesar disso dava uma impressão de força física, talvez por causa da solidez das mãos. Quanto a Margot, ficou sentada sem mover nenhum músculo, fitando o vazio, como se a missão dela na vida fosse mostrar um ar entediado. Mas era atraente, profundamente atraente para os meus vinte anos de idade, com seus cabelos pretos, o suéter preto de gola rulê, minissaia preta, botas pretas de couro, e uma maquiagem pesada e preta em torno dos grandes olhos verdes. Não uma beleza, talvez, mas um simulacro de beleza, como se o estilo e a sofisticação de sua aparência corporificassem um ideal feminino daquele tempo. (p. 5).

Eu não tinha a mínima ideia de como interpretar suas palavras. Será que aquele homem estava me insultando, me perguntei, ou estaria de fato tentando mostrar alguma bondade para um jovem estranho e perdido? As palavras em si tinham um certo teor jocoso, que desarmava, mas o aspecto dos olhos de Born ao dizer aquelas palavras era frio e reservado, e não pude deixar de ter a sensação de que ele estava me testando, escarnecendo de mim, por razões que eu não conseguia nem de longe entender. (p. 5).

Por mais desconfiado que eu estivesse, também me sentia fascinado por aquele indivíduo peculiar, indecifrável, e o fato de ele parecer genuinamente feliz por ter topado comigo atiçava as chamas da minha vaidade — esse invisível caldeirão de autoestima e ambição que arde e borbulha dentro de todos nós. Quaisquer que fossem as reservas que eu tinha em relação a ele, quaisquer que fossem as dúvidas que eu nutria a respeito do seu caráter dúbio, não conseguia reprimir meu desejo de que ele gostasse de mim, de que ele achasse que eu era algo mais do que um universitário americano esforçado e comum, de que ele visse a promessa que eu esperava trazer dentro de mim mas da qual eu duvidava em nove de cada dez minutos da minha vida em vigília. (p. 11).

Impossível resgatar mais que uma fração do que ele disse, mas os temas centrais ainda estão na minha memória, em especial suas lembranças da guerra na Argélia, onde ele passou dois anos com o exército francês interrogando terroristas árabes nojentos e perdendo todo e qualquer vestígio da fé que tinha antes na ideia de justiça. Afirmações bombásticas, generalizações desvairadas, declarações amargas sobre a corrupção de todos os governos — passados, presentes e futuros; de esquerda, de direita e de centro —, e como a nossa chamada civilização nada mais era do que uma fina tela que mascarava um interminável ataque de barbárie e crueldade. Os seres humanos eram animais, disse ele, e estetas de espírito brando como eu eram iguais a crianças que se distraíam com filosofias da arte e da literatura repletas de infinitas sutilezas a fim de se esquivar do confronto com a verdade essencial do mundo. O poder era a única constante, e a lei da vida era matar ou ser morto, dominar ou tornar-se vítima da selvageria de monstros. (p. 28).

Enquanto eu o escutava tagarelar aquelas coisas, sentia uma crescente pena dele. Por mais horrenda que fosse sua visão do mundo, não pude deixar de sentir pena de um homem que havia declinado para um tamanho pessimismo, que evitava de forma tão tenaz a possibilidade de encontrar qualquer compaixão, bondade ou beleza em seus semelhantes. Born tinha só trinta e seis anos, mas já era uma alma exaurida, uma ruína de gente, e imaginei que devia ter sofrido terrivelmente no seu íntimo, vivendo em sofrimento constante, dilacerado pelas punhaladas do desespero, da repulsa e do autodesprezo. (p. 29).

Depois que desligamos, passei as nove horas seguintes numa expectativa torturante, sonhando acordado nas minhas aulas da tarde, meditando sobre os mistérios da atração carnal e tentando compreender o que é que havia em Margot capaz de desencadear em mim um grau tão alto de excitação. Minha primeira impressão dela não foi particularmente favorável. Pareceu-me uma criatura estranha e insípida, de coração compreensivo, talvez, intrigante de olhar, mas sem nenhuma eletricidade, uma mulher perdida em algum obscuro mundo interior que a tolhia de todo envolvimento genuíno com os outros, como se ela fosse uma visitante silenciosa vinda de outro planeta. Passados dois dias, topara com Born no bar West End, e, quando ele me falou sobre a reação de Margot ao nosso encontro na festa, meus sentimentos por ela começaram a mudar. Ao que parecia, ela gostava de mim e estava preocupada com meu bem-estar, e, quando a gente sabe que alguém gosta da gente, nossa reação instintiva é também gostar dessa pessoa. Depois veio o jantar. A languidez e a exatidão dos gestos de Margot quando cortou as flores e as colocou no vaso fizeram vibrar algo dentro de mim, e de repente o simples ato de vê-la se movimentar se tornou fascinante, hipnótico. Havia nela abismos de sensualidade, descobri, e a mulher insípida, desinteressante, que parecia não ter nenhuma ideia na cabeça, revelou-se muito mais astuta do que eu tinha imaginado. Defendeu-me de Born ao menos duas vezes durante o jantar, interveio nos momentos precisos, quando as coisas ameaçavam fugir ao controle. Calma, sempre calma, sua voz quase nunca mais alta do que um sussurro, mas suas palavras sempre produziam o efeito desejado. (p. 31).

Born parecia estar ficando cansado de Margot, disse ela, e ela por sua vez estava ficando cansada de si mesma. Deu de ombros ao dizer aquilo, e, quando notei uma expressão distante em seu rosto, tive a intuição terrível de que ela já se considerava meio morta. Depois disso parei de fazer pressão para ela se abrir comigo. Já bastava que estivéssemos juntos, e eu me retraía com medo de tocar acidentalmente em algo que pudesse causar dor em Margot.
Sem maquiagem, Margot era mais suave e mais concreta do que o chocante objeto feminino que apresentava em público. Margot sem roupa se revelou esguia, quase franzina, com seios pequenos e púberes, quadris delgados, e braços e pernas sinuosos. Boca de lábios fartos, barriga lisa com o umbigo ligeiramente saliente, mãos ternas, um ninho de pelos púbicos ásperos, nádegas rijas e a pele extremamente branca, com um tato mais liso que o de qualquer outra pele que eu já havia tocado. Os pormenores de um corpo, os detalhes irrelevantes, preciosos. No começo, fui hesitante com ela, sem saber o que esperar, um pouco atônito por me ver com uma mulher tão mais experiente do que eu, um iniciante nos braços de uma veterana, um desajeitado que sempre se sentia tímido e embaraçado quando ficava nu, que até então sempre havia feito amor no escuro, de preferência embaixo dos cobertores, com garotas que eram tão tímidas e desajeitadas quanto ele, mas Margot estava tão à vontade, tão senhora das artes das pequenas mordidas, lambidas e beijos, tão livre de hesitações para me explorar com suas mãos e com sua língua, para atacar, desfalecer, se entregar sem reserva nem vacilação, que em pouco tempo eu me soltei. Se dá uma* sensação boa, é bom, disse Margot a certa altura, e foi esse o presente que me deu no decurso daquelas cinco noites. Ensinou-me a não ter mais medo de mim mesmo.
Eu não queria que aquilo terminasse. Viver naquele paraíso estranho com a estranha e insondável Margot foi uma das coisas melhores, e mais implausíveis, que já haviam me acontecido, mas Born ia voltar de Paris na noite seguinte e não tínhamos outra opção a não ser interromper aquilo. Na ocasião, imaginei que fosse apenas um cessar-fogo temporário. Quando nos despedimos na última manhã, disse-lhe que não se preocupasse, que mais cedo ou mais tarde iríamos encontrar um jeito de continuar, mas, apesar de toda a minha presunção e confiança, Margot parecia embaraçada, e, na hora em que eu estava quase saindo do apartamento, seus olhos inesperadamente se encheram de lágrimas. (p. 32 e 33).

Foi um final desolador para algo que representou para mim uma ocasião extraordinária, e saí do apartamento com a sensação de estar despedaçado, perplexo e talvez também um pouco irritado. Nos dias seguintes, relembrei sem parar aquela última conversa, e, quanto mais a analisava, menos sentido ela fazia para mim. (p. 34).

Ele era um pouco tímido, recordo, um traço que parecia estranho numa pessoa de inteligência tão aguçada e que, por acaso, também era um dos jovens mais bonitos do campus — bonito que nem um astro de cinema, como disse certa vez uma namorada minha. Mas é melhor ser tímido do que arrogante, suponho, melhor se aproximar com delicadeza do que intimidar todo mundo com a própria intolerável perfeição humana. Era um tipo meio solitário na época, mas era cordial e engraçado quando saía da sua casca, com um senso de humor cortante, original, e o que me agradava especialmente nele era a amplitude de seus interesses, sua capacidade de falar sobre Cavalcanti, digamos, e John Donne, e em seguida, com a mesma agudeza de conhecimento, dar meia-volta e falar sobre beisebol, dizendo algo que nunca passara pela minha cabeça. No entanto, com relação à sua vida interior, eu não sabia nada. Além do fato de que ele tinha uma irmã mais velha (de uma beleza notável, aliás, o que levava a gente a desconfiar que todo o clã dos Walker fora abençoado com os genes dos anjos), eu não sabia nada acerca de sua família ou de sua formação, e sem dúvida não sabia nada acerca da morte de seu irmão mais velho. (p. 47).

Havia umas centelhas ocasionais, alguns poemas que me pareciam conter algum frescor e alguma premência, versos dos quais eu autenticamente me orgulhava, mas no geral os resultados eram medíocres, e a perspectiva de passar minha vida como uma mediocridade me assustou e me fez desistir. (p. 50).

Seria impossível exagerar a forma terrível como isso me atormentou, e continuou a me atormentar. Justiça traída. A raiva e a frustração não diminuíram, e, se é assim que me sinto, se* esse sentimento de justiça é o que arde com mais força dentro de mim, então tenho certeza de que escolhi o caminho correto para mim. (p. 50 e 51).

No cômputo geral, não acho que eu tenha feito muita coisa. Um certo número de vitórias satisfatórias, sim, mas este país não está menos cruel agora do que estava na época, talvez esteja mais cruel do que nunca, e, no entanto, para mim seria impossível não ter feito nada. Eu teria a impressão de que vivia uma relação fraudulenta comigo mesmo.
Será que estou começando a falar como um pedante metido a santo?
Espero que não. (p. 51).

Jogar com o sistema a fim de derrotar o sistema. Um belo e pequeno desvio de hipocrisia, suponho, mas todo mundo tem de pôr a comida na mesa, todo mundo precisa de um teto. Infelizmente as contas dos médicos causaram um grave dano às minhas economias nos últimos dois anos, mas acho que tenho o suficiente para aguentar até o fim — supondo que eu não dure muito tempo, o que não parece provável.
Quanto aos assuntos do coração, andei para lá e para cá, do meu jeito canhestro, lerdo, durante muitos anos, demasiados anos, subindo e descendo de diversas camas, me apaixonando por diversas mulheres e brigando com elas, mas nunca senti a menor tentação de me estabelecer e casar, até chegar aos trinta e seis anos, quando conheci a única pessoa que de fato era importante para mim, uma assistente social chamada Sandra Williams — sim, o mesmo sobrenome do rapaz assassinado, um nome de escravo, um* nome comum de escravo usado por centenas de milhares, se não por milhões, de afro-americanos —, e, embora um casamento inter-racial possa trazer inúmeros problemas sociais para o casal (de ambas as partes), nunca julguei que isso representasse um impedimento, pois a verdade era que eu amava Sandra, eu a amei desde o primeiro dia até o último. (p. 51 e 52).

Como o tempo muda de uma hora para outra. Um amigo à beira da morte reingressou em minha vida após uma ausência de quase quarenta anos, e de repente senti a obrigação de não deixá-lo na mão. Mas que tipo de ajuda eu poderia dar? Ele estava tendo dificuldades com seu livro e, por alguma razão inexplicável, havia abraçado a ilusão de que eu tinha a capacidade de dizer as palavras mágicas que o poriam de novo no caminho certo. Será que ele esperava que eu lhe prescrevesse uma pílula que curava autores em apuros de seus bloqueios criativos? Era só isso que ele queria de mim? Parecia tão mesquinho, tão penosamente irrelevante. Walker era um homem inteligente e, se seu livro precisava ser escrito, ele encontraria um meio de fazer isso. (p. 53).

Quanto à barreira com que ele havia topado, escrevi que todo mundo em algum momento dá de cara com barreiras desse tipo, e na maioria das vezes a condição para ficar com um bloqueio provém de alguma falha no pensamento do escritor — isto é, ele não compreende plenamente o que está tentando dizer ou, de modo mais sutil, abordou seu assunto por um ângulo errado. A título de exemplo, contei-lhe os problemas que enfrentei ao escrever um de meus primeiros livros — também de memórias (mais ou menos), que era dividido em duas partes. (p. 53).

A interrupção durou vários meses (meses difíceis, meses de angústia), e então, certa noite, a solução me ocorreu. Meu ângulo estava errado, me dei conta. Ao escrever sobre mim mesmo na primeira pessoa, eu havia abafado a mim mesmo, havia me tornado invisível, e tornei impossível, para mim, encontrar aquilo que estava procurando. Eu precisava me separar de mim mesmo, dar um passo para trás e abrir um espaço entre mim e o meu tema (que era eu mesmo), e portanto voltei ao início da Parte Dois e comecei a escrever na terceira pessoa. Eu virou ele, e a distância criada por essa pequena mudança permitiu que eu terminasse o livro. Talvez ele (Walker) estivesse com o mesmo problema, sugeri. Talvez ele estivesse perto demais do seu tema. Talvez o material fosse demasiadamente pessoal e aflitivo para que ele pudesse escrever na primeira pessoa com a objetividade necessária. O que ele achava? Existia alguma chance de que um novo ângulo pusesse as engrenagens para rodar outra vez? (p. 54).

Haviam se passado anos desde nossa última conversa, mas reconheci sua voz na mesma hora — e, no entanto (como exprimir isso?), não era nem de longe a voz de que eu me lembrava, ou então era a mesma voz mas com algo acrescentado ou subtraído, a mesma voz num registro ligeiramente distinto: Walker apartado do mundo e ao mesmo tempo apartado de si mesmo, incapacitado, doente, de fala suave, lenta, com uma palpitação quase imperceptível embutida em cada palavra que escapava de sua boca, como se estivesse reunindo todas as suas forças para conseguir fazer o ar subir pela traqueia e chegar ao telefone. (p. 54).

Espero que sim. Ingredientes um tanto brutais, eu receio. Coisas feias que, durante anos, não tive ânimo ou força de vontade para examinar, mas agora já ultrapassei essa fase e estou planejando furiosamente o terceiro capítulo. (p. 55).

Só depois que desliguei o telefone percebi como aquela conversa havia me deixado abalado. Para encurtar a história, eu tinha certeza de que Walker estava mentindo a respeito do seu estado de saúde — que não era bom, nada bom, e sem dúvida estava piorando a cada minuto — e, embora fosse perfeitamente compreensível que ele quisesse esconder de mim a verdade, desviar qualquer impulso de minha parte para sentir pena dele, e rechaçasse isso com um muro de falsa jovialidade estoica (Não podiam andar melhor!), eu, entretanto, sentia (e isso* é uma espécie de paradoxo) um tom de autopiedade percorrendo suas palavras, como se desde o início até o fim de nossa conversa ele estivesse contendo as lágrimas, num esforço para não perder o controle e começar a chorar no telefone. Seu estado de saúde já era um motivo de grave preocupação, mas agora eu estava igualmente preocupado com seu estado mental. A certa altura de nossa conversa, ele me pareceu um homem à beira de um colapso nervoso, um homem que a duras penas conseguia manter as ideias no lugar, graças a uns edaços de cordão puído e de arame. Como era possível que escrever o capítulo novo de seu livro o havia esgotado a tal ponto? Ou aquele foi apenas um elemento entre vários, entre muitos? Walker estava morrendo, afinal, e talvez o simples fato de sua morte iminente, o horror corrosivo daquela morte iminente, fosse mais do que ele conseguia encarar então. No entanto, o toque trêmulo e choroso em sua voz poderia muito bem ter sido provocado por uma reação adversa de algum medicamento que estava tomando, um efeito colateral de algum remédio que o ajudava a manter-se vivo. Eu não sabia. Não sabia nada, mas depois do retrato lúcido e franco de si mesmo na primeira parte de seu livro, junto com as duas cartas articuladas e corajosas que me enviara, me vi um pouco desconcertado ao descobrir como ele parecia diferente, falando no telefone. Tentei imaginar como seria passar uma noite em sua companhia, fechado no mundo particular de seu ser definhante, devastado, e, pela primeira vez desde que havia aceitado seu convite, comecei a ter pavor de nosso encontro. (p. 55 e 56).

Como ela acabou de conhecê-lo e não consegue saber de jeito nenhum quem você é, você imagina que ela seja desconfiada com todo mundo que é jovem — por uma questão de princípio — e assim o que ela vê quando olha para você não é você mesmo, mas apenas mais um guerrilheiro numa guerra contra a autoridade, mais um rebelde amotinado que não tem nada de vir meter o nariz no recinto sagrado da sua biblioteca e pedir emprego ali. (p. 58).

Todos os diversos andares são idênticos: um enorme espaço sem janelas repleto de fileiras e mais fileiras de grandiosas estantes de metal cinzentas, todas abarrotadas de livros até a capacidade máxima, milhares de livros, dezenas de milhares de livros, centenas de milhares de livros, um milhão de livros, e às vezes até você, que ama os livros o máximo que se pode imaginar, até você fica estupefato, aflito e mesmo nauseado quando pensa em quantos bilhões de palavras, quantos trilhões de palavras aqueles livros contêm. Você fica isolado do mundo por horas todos os dias, habitando aquilo que passa a representar como uma bolha sem ar, mesmo que deva existir ar ali pois você está respirando, mas é um ar morto, um ar que há séculos não se agita, e nesse ambiente sufocante você muitas vezes fica sonolento, narcotizado até a semi-inconsciência, e precisa lutar* para resistir à vontade de deitar no chão e dormir. (p. 59 e 60).

À primeira vista, não tem nada de mais. O que poderia ser mais simples ou menos desafiador do que colocar livros num elevadorzinho e apertar um botão? Depois da faina de devolver os livros às prateleiras, era de imaginar que as tarefas atrás de uma escrivaninha seriam recebidas com alívio. Contanto que não haja livros para serem apanhados (e há muitos dias em que o tubo pneumático é dirigido a você apenas três ou quatro vezes em várias horas), você pode ficar fazendo o que bem entender. Pode ler ou escrever, por exemplo, pode passear pelo andar e xeretar volumes muito antigos, pode fazer desenhos, pode tirar um cochilo eventual. De vez em quando, consegue fazer todas essas coisas, ou tenta fazer isso, mas a atmosfera entre as estantes é tão opressiva, que você acha difícil concentrar a atenção por um tempo um pouco maior no livro que está lendo ou no poema que está tentando escrever. Tem a sensação de que está aprisionado numa incubadora e, pouco a pouco, vai compreendendo que a biblioteca é boa para uma coisa só e mais nada: entregar-se a fantasias sexuais. Você não sabe por que isso acontece, porém, quanto mais tempo você passa naquele ar irrespirável, mais sua cabeça fica cheia de imagens de mulheres nuas, lindas mulheres nuas, e a única coisa que você consegue pensar (se é que pensamento é a palavra* adequada nesse contexto) é em trepar com lindas mulheres nuas. Não num boudoir ornamentado de modo sensual, não numa serena campina arcádica, mas ali mesmo, no chão da biblioteca, rolando num relaxamento suado, enquanto a poeira de um milhão de livros paira no ar à sua volta. Você trepa com Hedy Lamarr. Você trepa com Ingrid Bergman. Você trepa com Gene Tierney. Você copula com morenas e louras, com negras e chinesas, com todas as mulheres a quem desejou, uma a uma, duas a duas, três ao mesmo tempo. As horas custam a passar, e, enquanto você fica sentado atrás da sua escrivaninha no quarto andar da biblioteca Butler, sente o pau ficar duro. Agora ele está duro o tempo todo, sempre duro com o maior tesão do mundo, e há ocasiões em que a pressão fica tão grande que você até sai da escrivaninha, dispara pelo corredor rumo ao banheiro masculino e entra feito uma bala no compartimento da privada. Tem nojo de si mesmo. Fica estarrecido ao ver como cede rapidamente aos seus desejos. Na hora em que fecha o zíper, jura que nunca mais vai acontecer, exatamente a mesma coisa que disse vinte e quatro horas antes. A vergonha está à sua espreita quando você volta para a escrivaninha, e você senta pensando que talvez haja algo de grave em você. Conclui que nunca esteve tão solitário, que é a pessoa mais solitária do mundo. Acha que pode estar no caminho de um colapso nervoso. (p. 62 e 63).

Agora você se dá conta de que começou a fugir de casa e dos pais muito antes do que imaginava. Se não fosse a morte de Andy, você na certa teria continuado a ser um filho dócil, bem-comportado, até a hora de sair de casa, mas, como a casa começou a desmoronar — com sua mãe se retraindo num estado de luto permanente, assolada pela culpa, e com seu pai quase nunca presente —, você tinha de procurar em outro lugar algum tipo de existência sustentável. No mundo circunscrito da infância, esse outro lugar era a escola e os campos onde você jogava beisebol com os amigos. Você queria se sobressair em tudo, e, como teve a sorte de ser dotado de uma inteligência razoável e de um corpo vigoroso, suas notas estavam sempre próximas dos primeiros lugares da sua turma e você se destacava em diversos esportes. Você nunca parou para pensar a fundo em nenhuma dessas coisas (era jovem demais para isso), mas tais sucessos ajudavam a neutralizar uma parte das amarguras que o cercavam em casa, e, quanto mais sucesso você obtinha, mais garantia sua independência da sua mãe e do seu pai. Eles tinham afeição por você, é claro, não agiam sistematicamente contra você, mas chegou o momento (você devia ter uns onze anos) em que você passou a almejar a admiração dos seus amigos tanto quanto desejava o amor dos seus pais. (p. 66).

Sem Gwyn, você nunca teria chegado a tal ponto. Por mais que quisesse forjar uma vida para si fora do alcance de sua família, era na casa da família que você morava, e, sem Gwyn para protegê-lo naquela casa, você teria sido sufocado, aniquilado, levado à beira da loucura. Lembranças dos primeiros tempos não existem, mas a primeira coisa que você vê é sua irmã aos cinco anos de idade quando vocês dois estão nus dentro da banheira, sua mãe está lavando o cabelo de Gwyn, o xampu espuma em brancos cachos borbulhantes e em ondulações* bizarras quando sua irmã sacode a cabeça para trás, rindo, e você olha para ela num enlevo maravilhado. Você já a amava mais que a qualquer outra pessoa no mundo e, até os seis ou sete anos de idade, achava que ia morar a vida toda junto com ela, que vocês iam acabar vivendo como marido e mulher. Nem é preciso dizer que às vezes vocês brigavam e faziam brincadeiras maldosas um com o outro, mas essas brigas não eram habituais, não chegavam nem à metade das que costumam acontecer com a maioria dos irmãos. Vocês se pareciam tanto um com o outro, o cabelo preto e os olhos cinzentos e esverdeados, o corpo esguio e a boca pequena, eram tão parecidos que poderiam passar pelas versões masculina e feminina da mesma pessoa, e depois entrou em cena de repente o Andy, de pele muito branca, de cachinhos louros e corpo baixote e rechonchudo, e desde o início vocês dois acharam Andy um personagem cômico, um anão esperto, metido em fraldas molhadas, que havia se unido à família com o único propósito de distrair vocês. No primeiro ano da vida dele, você o tratou como a um brinquedo ou um cachorrinho de estimação, mas depois ele começou a falar, e você, com relutância, concluiu que ele devia ser um ser humano. Uma pessoa de verdade, portanto, mas ao contrário de você e de sua irmã, que tendiam a ser contidos e ter boas maneiras, seu irmãozinho era um dervixe de humores flutuantes, ora turbulento ora amuado, propenso a repentinos e incontroláveis ataques de choro e longos acessos de risadas loucas e desvairadas. Para ele, não devia ser nada fácil tentar penetrar naquele círculo fechado, tentar se igualar à irmã e ao irmão mais velhos — mas o abismo se estreitava à medida que ele crescia, as frustrações pouco a pouco diminuíam, e perto do fim o chorão estava virando um bom menino — às vezes meio maluco (Tou no lago), mas mesmo assim um bom menino.
Pouco antes de Andy nascer, seus pais passaram você e sua irmã para quartos contíguos, no terceiro andar. Era um reino à parte, lá no alto, sob os beirais do telhado, um pequeno principado separado do resto da casa, e depois da catástrofe no lago Echo em agosto de 1957 o lugar se transformou no seu refúgio, o único ponto naquela floresta de dor em que você e sua irmã conseguiam escapar dos pais amargurados. Você também sofria, é claro, mas, como fazem as crianças, de um jeito mais egoísta, talvez mais solene, e durante vários meses você e sua irmã torturaram a si mesmos recapitulando todas as coisas nem um pouco gentis que tinham feito com o Andy — os insultos, os comentários mordazes, os tapas e empurrões, os socos fortes demais —, como se um sombrio sentimento de culpa os impelisse a fazer penitência, a rastejar na sua própria maldade, reconstituindo interminavelmente o monte de pequenos delitos que vocês haviam cometido ao longo dos anos. (p. 67).

Sentiam-se como órfãos, naquela ocasião, com os fantasmas dos seus pais assombrando o andar de baixo, e dormir juntos tornou-se um reflexo natural, um consolo permanente, um meio de evitar os tremores e as lágrimas que acudiam tantas vezes nos meses seguintes à morte de Andy.
Intimidades desse tipo eram o terreno inquestionável de suas relações com Gwyn. Isso remontava aos primórdios, ao ponto inicial da memória consciente, e você não consegue recordar nem um momento sequer em que tenha sentido timidez ou medo na presença da sua irmã. Tomava banho com ela quando eram pequenos, exploravam avidamente o corpo um do outro em brincadeiras de “médico”, e em tardes de chuvarada, quando se viam confinados em casa, a atividade predileta de Gwyn era ficarem os dois pulando na cama completamente nus. Não era só pelo prazer de pular, como ela dizia, mas porque ela gostava de ver o seu pênis balançando para cima e para baixo, e, por diminuto que pudesse ser o órgão àquela altura de sua vida, você fazia o que ela pedia, pois isso sempre a fazia rir e nada deixava você mais feliz do que ver sua irmã rir. Que idade você tinha na época? Quatro anos? Cinco anos? Com o tempo, as crianças começam a se afastar do nudismo anárquico, calibânico, dos primeiros anos de vida, e, quando chegam aos seis ou sete anos de idade, as barreiras do pudor já se ergueram. (p. 68).

Então veio a noite da grande experiência. Seus pais iam passar o fim de semana fora, e resolveram que você e sua irmã já estavam bastante crescidos para cuidar de si mesmos sem a supervisão deles. Gwyn tinha quinze anos, e você catorze. Ela era quase uma mulher, e você estava só saindo da infância, mas vocês dois eram reféns das agruras desesperadoras da primeira adolescência, pensavam em sexo desde a manhã até a noite, se masturbavam sem parar, enlouquecidos de desejo, os corpos ardiam com fantasias luxuriosas, cheios de vontade de que alguém os tocasse, de que alguém os beijasse, vorazes e insatisfeitos, excitados e sozinhos, marcados por uma maldição. (p. 69).
Depois, Gwyn começou a correr as mãos pelas suas costas e em seguida levou a boca até o seu rosto e o beijou, beijou com força, com uma agressividade que você não esperava, e, quando a língua dela entrou ligeiro em sua boca, você entendeu que não existia nada melhor no mundo do que ser beijado da maneira como ela estava beijando você, que aquilo era, de forma indiscutível, a mais importante justificativa para estar vivo. Vocês continuaram se beijando por bastante tempo, vocês dois ronronando e manuseando um ao outro, enquanto as línguas palpitavam e a saliva escorria dos lábios. Afinal, você tomou coragem e pôs as mãos nos peitos dela, seus peitos pequenos, ainda não plenamente desenvolvidos, e pela primeira vez na vida você disse consigo: Estou tocando nos peitos nus de uma garota. Depois de ficar passando as mãos neles por um tempo, você começou a beijar os locais onde havia tocado, a esfregar a língua de leve em volta dos mamilos, a chupar os mamilos, e se surpreendeu quando eles ficaram mais duros e mais eretos, firmes e eretos como estava o seu pênis desde o instante em que tinha ficado em cima de sua irmã nua. Era demais para você aguentar, aquela iniciação nas glórias da anatomia feminina impeliram você além de seus limites, e sem nenhum estímulo de Gwyn você teve de repente sua primeira ejaculação naquela noite, um espasmo furioso que contraiu todo o seu abdômen. Felizmente, o constrangimento que você sentiu foi efêmero, pois, na mesma hora em que as secreções estavam jorrando de você, Gwyn começou a rir e, a título de brinde ao seu feito, esfregou alegremente a mão sobre a barriga.
Durou horas. Vocês eram tão jovens e inexperientes, os dois estavam tão inebriados e infatigáveis, os dois tão enlouquecidos em sua fome um do outro, e, como haviam prometido que seria aquela a única vez, nenhum dos dois queria que acabasse. Então você continuou. Com a força e a perseverança de seus catorze anos, rapidamente se refez de sua descarga acidental e, quando sua irmã pôs delicadamente a mão em torno do seu pênis revitalizado (transe sublime, alegria inexprimível), você deu mais um passo na sua lição de anatomia percorrendo com as mãos e a boca outras áreas do corpo de Gwyn. Descobriu as deliciosas regiões macias da nuca e da parte interna da coxa, os prazeres indeléveis da região lombar e das nádegas, o deleite quase insuportável da orelha lambida. O êxtase tátil, mas também o cheiro do perfume que Gwyn tinha passado para aquela ocasião, o toque cada vez mais escorregadio de seus corpos suados e a pequena sinfonia de sons que os dois emitiam na noite, individualmente e juntos: os gemidos e os lamentos, os suspiros e os uivos, e depois, quando Gwyn gozou pela primeira vez (esfregando seu clitóris com o dedo médio da mão esquerda), o som do ar que entrava e saía com força pelas narinas, a velocidade cada vez maior daquela respiração, o soluço triunfante no final. A primeira vez, seguida por* mais duas vezes, talvez até por uma terceira. No seu próprio caso, depois do primeiro tropeço solo, a mão de sua irmã envolveu seu pênis, a mão se mexeu para cima e para baixo enquanto você estava deitado numa névoa de excitação crescente, e então veio a boca de Gwyn, também se mexendo para cima e para baixo, a boca em volta do seu pênis duro outra vez, e a intimidade profunda que os dois sentiram quando você gozou dentro daquela boca — o fluido de um corpo passando para dentro de outro corpo, a fusão de uma pessoa com outra, os espíritos integrados. Então sua irmã tombou de costas na cama, abriu as pernas e disse para você tocar nela. Aí não, disse ela, aqui, pegou sua mão e guiou você até o local onde ela queria, o lugar onde você nunca havia estado, e você, que não sabia de nada antes daquela noite, começou lentamente sua educação como um ser humano. (p. 70 e 71).

Dali a mais ou menos uma hora você vai jantar num restaurante chinês barato — mais pelo ar-refrigerado do que pela comida —, mas por ora você se contenta em ficar sentado sem fazer nada, em refazer-se após mais um dia maçante na biblioteca, que você começou a chamar de Castelo dos Bocejos. Depois do seu comentário de que não queria ir para Nova Jersey, você não tem nenhuma dúvida de que Gwyn vai começar a falar sobre seus pais. Você está preparado para isso e vai conversar sobre o assunto, se for preciso, mas no fundo torce para que a conversa não dure muito. O capítulo Nove Milhões da saga de Marge e Bud. Quando foi que você e sua irmã passaram a chamar seus pais pelos prenomes? Não consegue lembrar exatamente, mas foi mais ou menos na ocasião em que Gwyn saiu de casa para cursar a faculdade. Eles ainda são mamãe e papai quando vocês estão com eles, mas são Marge e Bud quando você e sua irmã estão sozinhos. Uma ligeira afetação, talvez, mas ajuda a separá-los de vocês em sua mente, ajuda a criar uma ilusão de distância, e é disso que você precisa, você diz consigo, é disso que você precisa, mais que de qualquer outra coisa. (p. 71).

Não entendo, diz-lhe sua irmã. Você nunca quer ir para lá.
Eu gostaria de querer, responde você, dando de ombros num gesto defensivo, mas, toda vez que ponho os pés naquela casa, me sinto sugado de volta para o passado.
E isso é tão terrível assim? Não vá me dizer que todas as suas recordações são ruins. Seria ridículo. Ridículo e falso.
Não, não, não são todas ruins. São boas e ruins ao mesmo tempo. Mas o estranho é que, sempre que estou lá, são as ruins que me vêm à cabeça. Quando não estou lá, penso muito mais nas recordações boas. (p. 72).

São os olhos deles, Gwyn, a expressão no rosto deles quando olham para mim. Num momento, tenho a sensação de que estão me recriminando. Por que você?, parece que estão me perguntando. Por que você continua vivo, enquanto seu irmão não está mais vivo? E no momento seguinte os olhos deles me afogam em ternura, num amor preocupado, nauseante, superprotetor. Dá vontade de abrir um buraco e me enterrar no chão.
Você está exagerando. Não há nenhuma recriminação, Adam. Eles têm muito orgulho de você, devia ouvir como ficam falando quando você não está lá. Louvores intermináveis ao rapaz formidável que eles criaram, o príncipe coroado da dinastia dos Walker. (p. 72).

Não quero ofendê-la. A piedade é uma emoção tão horrível, inútil — é melhor a gente pôr dentro de uma garrafa, arrolhar bem e guardar. No instante em que a gente tenta exprimir essa emoção, vê que isso só serve para piorar ainda mais as coisas.
Sua irmã sorri para você, de um jeito um pouco inadequado, você tem a sensação, mas, quando observa melhor o rosto dela e vê o olhar sério e pensativo nos seus olhos, compreende que Gwyn estava torcendo para que você dissesse algo assim, que ela está aliviada por saber que você não está tão fechado e com o coração tão frio quanto dá a impressão de estar, por saber que, afinal de contas, existe alguma compaixão em você. (p. 73).

É exatamente isso que você é: impossível. No instante em que a palavra escapa da boca de sua irmã, você se arrepende da sua piada boba e indecente, e, durante o resto da noite e até o meio do dia seguinte, aquela palavra fica presa em você feito uma maldição, feito uma condenação implacável da pessoa e daquilo que você é. Sim, você é impossível. Você e sua vida são impossíveis, e você fica admirado de como conseguiu abrir caminho para tocar sua vida adiante em meio a esse beco sem saída, cheio de desespero e autodesprezo. Será Born o único responsável pelo que aconteceu com você? Poderia um único lapso de coragem momentâneo ter causado tamanho dano à sua fé em si mesmo que você não consegue mais acreditar no seu próprio futuro? Poucos meses antes, você ia pôr o mundo em chamas com sua inteligência, e agora você acha que é um burro e um incapaz, uma máquina imbecil de masturbação, aprisionado no ar morto de um emprego odioso, um zé-ninguém. Se não fosse por Gwyn, você podia até pensar em se internar num hospital. Ela é a única pessoa com quem você consegue conversar, a única pessoa que faz você se sentir vivo. E, no entanto, por mais feliz que esteja de estar com ela outra vez, você sabe que não deve sobrecarregar sua* irmã com seus problemas, que não pode esperar que ela se transforme na cirurgiã divina que vai abrir seu peito e remendar seu coração enfermo. Você tem de cuidar de si mesmo. Se alguma coisa se partiu dentro de você, tem de colar as partes de novo com as próprias mãos. (p. 78 e 79).

Após vinte e quatro horas de uma introspecção desoladora, a angústia esmorece lentamente. (p. 79).

Só sete anos neste mundo, mas todo ano você e Gwyn chegam à mesma conclusão: a lista é inesgotável. E, no entanto, todo ano, não podem deixar de ter a sensação de que um pouco mais do irmão de vocês desapareceu, de que apesar de seus mais zelosos esforços cada vez menos de Andy retorna à memória de vocês, que vocês não são capazes de impedir que ele desapareça de todo.
Segundo Passo: vocês falam sobre ele no presente. Imaginam que tipo de pessoa ele teria se tornado se ainda estivesse vivo agora. Há dez anos que ele vive essa existência de sombra dentro de vocês, um ser fantasma que cresceu em outra dimensão, invisível mas respirando, respirando e pensando, pensando e sentindo, e vocês o acompanharam desde os oito anos de idade, morto há mais anos do que conseguiu viver, e, agora que ele está com dezessete anos, o abismo entre vocês se tornou ainda menor, menos significativo ainda, e vocês ficam chocados com isso, você e sua irmã ficam chocados simultaneamente ao se dar conta de que aos dezessete anos ele, na certa, não é mais virgem, que ele fumou maconha e se embriagou, que ele faz a barba e se masturba, sabe dirigir, lê livros difíceis, está pensando que faculdade vai fazer e está prestes a se tornar uma pessoa igual a vocês. Gwyn começa a chorar, diz que não consegue mais suportar, que quer parar, mas você lhe diz para aguentar só mais alguns minutos, que vocês dois nunca mais terão de fazer isso outra vez, que essa vai ser a última festa de aniversário de sua vida, mas, pelo Andy, vocês precisam levar isso até o fim dessa vez.
Terceiro Passo: vocês falam sobre o futuro, sobre o que vai acontecer com o Andy entre agora e o próximo aniversário. Sempre foi a parte mais fácil, a mais prazerosa, e nos últimos anos você e Gwyn fizeram seus lances no jogo das previsões sempre com imenso entusiasmo e audácia. Mas não nesse ano. Antes* que possam começar a terceira e última parte da conversa, sua irmã, abalada demais, aperta a mão com força por cima da boca, se levanta e corre para a cozinha. (p. 82 e 83).

Você sente como são finos os seus ombros trêmulos, os ossos delicados por baixo da pele, as costelas arquejantes de encontro às suas próprias costelas, o quadril de Gwyn junto ao seu quadril, a perna dela contra a sua. Em todos os anos que você a conhece, acha que nunca a viu tão infeliz, tão esmagada pela tristeza.
Não adianta, diz ela afinal, com os olhos voltados para baixo, dirigindo suas palavras para o chão. Perdi o contato com ele. Agora ele foi embora e nunca mais vamos encontrá-lo. Daqui a duas semanas vai fazer dez anos. É metade da sua vida, Adam. Ano que vem, vai ser metade da minha. É tempo demasiado. O espaço continua aumentando. O tempo continua aumentando, e a cada minuto ele se afasta mais, vai para mais longe de nós. Adeus, Andy. Mande um cartão-postal um dia, está bem?
Você não diz nada. Fica ali sentado com o braço em volta da sua irmã e deixa que ela continue chorando, ciente de que não adianta nada interferir, que deve deixar a explosão seguir seu curso. Quanto tempo dura? Você não faz a menor ideia, mas por fim chega o momento em que você percebe que as lágrimas cessaram. Com a mão esquerda, a mão livre que não está em volta dos ombros de Gwyn, você segura seu queixo e vira seu rosto para você. Os olhos dela estão muito inchados. Riachos de maquiagem escorreram pelas bochechas. O muco está gotejando do nariz. Você recua a mão esquerda, põe no bolso de trás da calça e apanha um lenço. Começa a enxugar o rosto da sua irmã com o pano. Pouco a pouco, enxuga as lágrimas, o muco e a maquiagem preta, e durante esse procedimento meticuloso e demorado sua irmã não se mexe. Fitando você atentamente, os olhos lavados e limpos de qualquer emoção que se possa discernir, ela fica numa imobilidade absoluta, enquanto você repara o dano causado pela tormenta. Quando o trabalho termina, você se levanta e diz a ela: Hora de tomar um drinque, srta. Walker. Vou pegar o uísque.
Você parte para a cozinha. Um minuto depois, quando você volta para a sala com uma garrafa de Cutty Sark, dois copos e um jarro de cubos de gelo, ela está exatamente onde estava quando você saiu — sentada no sofá, a cabeça encostada no espaldar, os olhos fechados, a respiração normal outra vez, purgada. Você põe a garrafa e os copos sobre um dos três engradados de leite, feitos de madeira, que estão na frente do sofá, os caixotes maltratados, virados de cabeça para baixo, que você e seu antigo parceiro de aluguel apanharam na rua um dia e que agora fazem o papel de mesinha de centro. Gwyn abre os olhos e dirige a você um* sorriso abatido, esgotado, como se lhe pedisse para perdoar seu descontrole, mas não há nada para perdoar, nada para dizer, nada que você pudesse dizer contra ela, e, quando começa a servir a bebida e colocar gelo nos copos, sente-se aliviado por aquela história com o Andy ter chegado ao fim, aliviado porque não vai mais haver nenhuma comemoração de aniversário para seu irmão ausente, sente-se aliviado por você e sua irmã terem afinal deixado para trás aquela coisa infantil.
Você entrega a Gwyn sua bebida e depois senta ao lado dela no sofá. Durante alguns minutos, nenhum dos dois diz nada. Tomando pequenos goles do uísque e olhando para a frente, na direção da parede diante de ambos, vocês sabem o que vai acontecer nessa noite, sentem isso como uma certeza que está no seu sangue, mas também sabem que têm de ser pacientes e dar ao álcool o tempo necessário para fazer o seu trabalho. (p. 83 e 84).
Você mesmo o encontrou algumas vezes e entendeu o que Gwyn via nele, concordava que Krale era um homem bonito e inteligente, mas também sentia que havia uma certa secura naquele homem, um alheamento dos outros que tornava difícil criar uma relação calorosa com ele. Você não ficou surpreso quando Gwyn recusou seu pedido de casamento e deu fim ao namoro. Ela disse a Krale que se sentia jovem demais, que não estava pronta para se comprometer a longo prazo, mas essa não era a razão verdadeira, sua irmã lhe explica agora, ela o deixou porque ele não era um amante gentil o bastante. Sim, sim, diz Gwyn, ela sabe que Krale a amava, a amava o máximo que podia amar alguém, mas ela o achava egoísta na cama, desatento, excessivamente guiado pelas próprias necessidades, e ela não conseguia se imaginar suportando um homem assim pelo resto da vida. Agora ela se volta para você e, com um olhar da maior seriedade e convicção, apresenta sua definição de amor e quer saber se você compartilha sua opinião ou não. Amor verdadeiro, diz ela, é quando a gente obtém tanto prazer em proporcionar prazer quanto sente em receber prazer. O que você acha, Adam? Estou certa ou errada? Você lhe diz que ela está certa. Diz que é uma das coisas mais perspicazes que ela já disse. Quando isso começa? Quando é que a ideia que está rodando na cabeça de ambos se manifesta como ação no mundo concreto? (p. 84).

Você está um pouco embriagado, é claro, mas não completamente, não está tão alto que tenha perdido a noção das coisas, e compreende perfeitamente o alcance do que está prestes a fazer. Você e sua irmã não são mais os filhotinhos tateantes e ignorantes que eram na noite da grande experiência, e o que estão propondo agora é uma transgressão monumental, uma coisa sombria e iníqua à luz das leis dos homens e de Deus. Mas você não liga. Esta é a mais pura verdade: você não tem vergonha do que sente. Você ama sua irmã. Mais do que a qualquer outra pessoa que já conheceu ou vai conhecer em toda a face deste mundo infeliz, e, como você vai deixar o país mais ou menos dentro de um mês e vai ficar fora durante um ano inteiro, esta é sua única chance, a única chance de ambos, pois é simplesmente inevitável que um novo Timothy Krale entre na vida de Gwyn enquanto você estiver fora. Não, você não esqueceu o juramento que fez quando tinha doze anos, a promessa que fez a si mesmo de que viveria como um ser humano ético. Você quer ser uma pessoa boa e todo dia luta para seguir o juramento que fez em memória de seu irmão morto, mas sentado no sofá, olhando sua irmã pôr o copo sobre a mesa, você diz a si mesmo que o amor não é uma questão moral, o desejo não é uma questão moral, e, contanto que não cause mal nenhum ao outro, você não vai quebrar seu juramento.
Um instante depois, você também põe seu copo sobre a mesa. Vocês dois se recostam no sofá, e Gwyn segura sua mão, entrelaçando os dedos com os seus. Pergunta: Está com medo? Você lhe diz que não, não está com medo, está extremamente feliz. Eu também, diz ela, e então lhe dá um beijo no rosto, com muita delicadeza, nada mais que um ligeiro toque, um levíssimo contato da boca na sua pele. Você entende que tudo deve caminhar lentamente, tudo deve se desenvolver com os incrementos mais sutis, que por um longo tempo será uma dança tateante, descontínua, de sim e não, e você prefere que seja assim, pois, se um dos dois mudar de ideia, haverá tempo para voltar atrás e cancelar tudo. Na maioria das vezes, aquilo que agita a imaginação fica mais bem guardado na imaginação, e Gwyn tem consciência disso, ela é sensata o bastante para saber que a distância entre o pensamento e os fatos pode ser enorme, um abismo do tamanho do próprio mundo. Assim vocês vão tateando o terreno com todo o cuidado, um passinho de bebê depois do outro, roçam a boca no pescoço um do outro, roçam os lábios nos lábios um do outro, mas durante vários minutos não abrem a boca, e, embora tenham fechado os braços em volta um do outro num abraço bem apertado, suas mãos não se mexem. Uma boa meia hora se passa, nenhum dos dois demonstra a menor inclinação para parar. É aí que sua irmã* abre a boca. É aí que você abre a boca, e juntos mergulham de cabeça na noite. (p. 85 e 86).

Não existem mais regras. A grande experiência foi um evento único, mas, agora que ambos já passaram dos vinte anos de idade, as restrições da sua travessura de adolescentes já não se sustentam, e vocês continuam a fazer sexo um com o outro todo dia durante os trinta e quatro dias seguintes, até o dia em que você parte para Paris. Sua irmã toma pílula, há cremes e pomadas espermicidas na gaveta da mesinha de cabeceira dela, você tem acesso a preservativos, os dois sabem que estão protegidos, que o inominável nunca acontecerá, e assim podem fazer tudo e qualquer coisa um com o outro sem o temor de destruir suas vidas. Vocês não discutem a questão. Exceto pela breve troca de palavras na noite do aniversário de seu irmão (Está com medo? Não, não estou com medo), vocês nunca dizem nenhuma palavra sobre o que está acontecendo, se recusam a explorar as ramificações do seu caso de um mês, do seu casamento de um mês, pois afinal é disso que se trata, agora vocês formam um jovem casal, um par de recém-casados, nas garras da luxúria incessante, avassaladora — feras do sexo, amantes, melhores amigos: as últimas duas pessoas que restaram no universo.
Exteriormente, suas vidas prosseguem como antes. Cinco dias por semana, o despertador acorda vocês de manhã cedo, e, após um desjejum mínimo, de suco de laranja, café e torradas com manteiga, os dois saem depressa do apartamento e seguem para seus empregos, Gwyn para seu escritório no vigésimo andar de uma torre de vidro no coração de Manhattan, e você para seu posto desolador de funcionário do Palácio da Nulidade. Você preferia ter sua irmã ao alcance dos olhos o tempo todo, ficaria absolutamente satisfeito se ela nunca se distanciasse de você nem por um minuto, mas, se essas separações inevitáveis provocam uma certa dor em você, também aumentam seu desejo por ela, e talvez isso não seja ruim, você conclui, pois passa os dias dominado por uma ansiedade sufocante, agitado e alerta, contando as horas que faltam para vê-la e abraçá-la de novo. Intenso. Essa é a palavra que usa para definir a si mesmo agora. Você é intenso. Seus sentimentos são intensos. Sua vida tornou-se cada vez mais intensa.
No trabalho, você não fica mais sentado atrás de sua escrivaninha elaborando fantasias com Ingrid Bergman e Hedy Lamarr. De vez em quando, uma ereção ainda ameaça romper sua calça, mas você não precisa mais tocar em sua ereção, e parou de dar suas corridas para o banheiro masculino no final do corredor. Isso é a biblioteca, afinal, e pensamentos sobre mulheres nuas são uma parte indissociável do trabalho na biblioteca, mas o único corpo nu em que você pensa agora pertence à sua irmã, o corpo real da mulher real com quem você divide as noites, e não alguma quimera que só existe no seu cérebro. Não há a menor dúvida de que Gwyn é tão linda quanto Hedy Lamarr, talvez ainda mais* linda — por certo, mais linda. Isso é um fato objetivo, e você passou os últimos sete anos vendo homens pararem de repente em plena rua a fim de olhar para ela enquanto passa, testemunhou uma incrível quantidade de viradas de cabeça rápidas, espantadas, uma incrível quantidade de olhares dissimulados no metrô, nos restaurantes, nos cinemas — centenas e centenas de homens, e todos eles com o mesmo olhar malicioso, difuso, pasmo. Sim, é esse o rosto que desencadeou mil esperanças, o rosto que engendrou mil sonhos eróticos, e, enquanto você espera na sua escrivaninha que o próximo cilindro com um pedido suba chacoalhando do segundo andar pelo tubo pneumático, você vê em sua mente aquele rosto, fica olhando para os olhos grandes, animados e verde-acinzentados de Gwyn, e, enquanto aqueles olhos fitam os seus, você a vê abrir as costas do seu vestido branco de verão que desliza e cai ao longo do seu corpo alto e esguio.
Vocês ficam juntos na banheira. Essa é a nova rotina depois do trabalho e, em vez de passar uma hora na cozinha como fizeram na festa de aniversário do seu irmão, agora pegam suas cervejas e soltam baforadas de seus cigarros enquanto ficam de molho numa banheira de água morna. Isso não só proporciona um repouso para o dia de calor sufocante como também lhes dá uma chance a mais de olharem para o corpo nu um do outro, o que vocês, pelo visto, nunca se cansam de fazer. Vezes sem conta você diz à sua irmã como adora olhar para ela, diz que adora cada centímetro da sua pele palpitante, luminosa, e que, além dos locais francamente femininos em que todos os homens pensam, adora seus cotovelos e joelhos, seus pulsos e canelas, as costas das mãos e os dedos compridos e finos (você jamais conseguiu sentir atração por uma mulher com polegares pequenos, conta para ela um dia — uma declaração absurda mas completamente sincera), e você se sente completamente assombrado e encantado ao ver como um corpo delicado como o dela pode ser tão forte, que ela seja ao mesmo tempo um cisne e um tigre, um ser mitológico. Ela fica fascinada com os pelos que cresceram no seu peito (uma novidade surgida nos últimos doze meses) e tem um interesse incessante pelas mutações do seu pênis: do membro flácido, oscilante, retratado nos livros didáticos de biologia, até o titã fálico plenamente desabrochado no auge da excitação, e o bonequinho encolhido, esgotado, no retraimento do pós-coito. Ela chama seu pau de um espetáculo de variedades. Diz que ele tem múltiplas personalidades. Afirma que quer adotá-lo. Agora que você está vivendo com ela em tamanha intimidade, Gwyn surgiu como uma pessoa ligeiramente diferente daquela que você conheceu a vida toda. É ao mesmo tempo mais engraçada e mais maliciosa do que você imaginava, mais vulgar e idiossincrática, mais apaixonada, mais divertida, e você fica espantado ao ver como ela se empolga com o linguajar indecente e com as gírias bizarras do sexo. Gwyn raramente dizia palavrões diante de você. (p. 86 e 87).

As palavras excitam e divertem Gwyn, e você, depois que se refaz do choque inicial, fica excitado e também acha graça. Sob as garras do orgasmo que se avizinha, porém, ela tende a retroceder para os padrões usuais, retorna aos termos mais simples, mais rudes no léxico inglês a fim de exprimir seus sentimentos. Boceta, xoxota, trepar. Trepe comigo, Adam. De novo e de novo. Trepe comigo, Adam. Durante um mês inteiro, você é o cativo daquela palavra, o prisioneiro voluntário daquela palavra, a personificação daquela palavra. Você habita o país da carne, e seu cálice transbordou. Certamente a bondade e a misericórdia seguirão você por todos os dias de sua vida. Todavia, você e sua irmã nunca falam a respeito do que estão fazendo. Não têm sequer uma conversa para discutir por que não falam sobre isso. Estão vivendo nos confins de um segredo compartilhado, e as paredes desse recinto são erguidas pelo silêncio, um silêncio louco que só pode ser rompido sob o risco de fazer essas paredes desabarem em cima das suas cabeças. (p. 88).

Chega o último dia. Há setenta e duas horas, vocês vivem num estado de agitação constante, de pavor crescente. Você não quer ir. Quer cancelar a viagem e ficar em Nova York com sua irmã, mas ao mesmo tempo compreende que isso está fora de questão, que o mês que viveu com ela num matrimônio profano só foi* possível pelo fato de ser por um mês, de que havia um prazo para o seu furor incestuoso, e, como você não suporta encarar a verdade de que agora acabou, sente-se abatido e espoliado, entorpecido pelo desgosto. (p. 88 e 89).

Sua mãe nervosa e entupida de remédios fala pouco durante a refeição, mas seu pai demonstra um bom humor fora do comum naquele dia. Trata você de filho a todo instante, em vez de dizer seu nome, e, apesar de você saber que ele não faz nada disso por mal, acha esse tique verbal incômodo, pois parece privá-lo de sua personalidade e transformá-lo num objeto, numa coisa. Não Adam, mas Filho, como em meu filho, minha criação, meu herdeiro. Bud diz que inveja você pela aventura que o aguarda em Paris, entendendo Paris como a capital das mulheres fáceis e das farras da madrugada (ha, ha, piscadas de olho), e, embora ele mesmo jamais tenha tido uma oportunidade dessas, jamais sequer tenha tido dinheiro para pagar uma faculdade, muito menos para passar um ano estudando num país estrangeiro, está claramente orgulhoso de si por ter se saído bem o bastante no terreno do dinheiro para poder bancar a viagem do seu rebento para a Europa, símbolo da boa vida, da vida dos ricos, um emblema do sucesso da classe média americana, da qual ele é um dos exemplos fulgurantes em Westfield, Nova Jersey. Você fica constrangido e suporta, luta para não perder a paciência, gostaria de estar sozinho com Gwyn. Como sempre, sua irmã está calma e contida, atenta às tensões subjacentes à ocasião, mas fingindo obstinadamente que não percebe nada. (p. 89).

No portão de embarque, sua mãe passa o braço em volta de você e começa a chorar. Não consegue suportar a ideia de não ver você por um ano inteiro, diz, vai sentir saudade, vai ficar preocupada com você dia e noite, e, por favor, não se esqueça de comer direito, mande cartas, telefone se sentir saudade de casa, vou estar sempre pronta a atender você. Você a abraça com força e pensa: minha pobre mãe, minha pobre e infeliz mãe, e lhe diz que tudo vai correr bem, mas você não tem a menor certeza disso e suas palavras carecem de convicção, pode ouvir a própria voz tremendo enquanto fala. Por cima do ombro da sua mãe, você vê seu pai observando você com aquele olhar distante, em suspenso, e você sabe que ele não tem a menor ideia do que você é, que você sempre foi um mistério para seu pai, uma pessoa além da compreensão, mas agora, uma vez na vida,* você se sente de acordo com ele, pois a verdade é que você também não tem a menor ideia do que você é e, sim, até para você mesmo, você é uma pessoa além da compreensão. (p. 89 e 90).

Um último olhar para Gwyn. Há lágrimas nos olhos de sua irmã, mas você não sabe se são por sua causa ou por causa de sua mãe, se são uma expressão de sofrimento íntimo ou de compaixão pela mulher extenuada que estava chorando nos braços do filho. Agora que o fim chegou, você quer que Gwyn sofra tanto quanto você está sofrendo. A dor é a única coisa que mantém vocês juntos agora, e, a não ser que a dor dela seja tão grande quanto a sua, não restará nada do universo pequeno e perfeito que vocês habitaram durante o último mês. É impossível saber o que ela está pensando, e, como seus pais estão a menos de um metro de vocês, você não pode perguntar. Você abraça sua irmã e sussurra: Não quero ir. Você diz de novo: Não quero ir. E então você recua, se afasta dela, baixa a cabeça e vai embora. (p. 90).

Uma semana depois de ler o texto de Verão, eu estava em Oakland, Califórnia, tocando a campainha da casa de Walker. Eu não tinha escrito nem telefonado para lhe dizer o que havia achado da segunda parte do seu livro, nem ele tinha escrito para me perguntar. Achei que era melhor evitar fazer comentários até estar com ele em pessoa, e, como o dia marcado para o jantar já estivesse se avizinhando no horizonte imediato, muito em breve eu teria a minha oportunidade. Não sabia explicar por que aquilo era tão importante para mim, mas queria que ele estivesse me olhando nos olhos quando eu dissesse que não tinha sentido nojo do que ele escrevera, que não achava brutal ou feio (para citar as palavras que ele mesmo usara) e que minha mulher, que agora já havia lido a primeira e a segunda parte do livro, achava a mesma coisa que eu. Foi esse o pequeno discurso que ensaiei na minha cabeça enquanto o táxi me levava pela ponte de San Francisco para Oakland, mas jamais consegui dizer o que eu queria dizer. Aconteceu que Walker tinha morrido vinte e quatro horas depois de me enviar seu manuscrito, e, na hora em que cheguei à porta da sua casa, suas cinzas já estavam debaixo da terra fazia três dias. (p. 92).

Quando Rebecca pronunciou as palavras Meu pai faleceu há seis dias, me senti tão abalado, tão relutante em aceitar o caráter definitivo da sua frase, que uma repentina onda de tonteira subiu à minha cabeça e tive de perguntar a ela se eu podia sentar. Ela me conduziu a uma cadeira na sala, depois foi à cozinha pegar um copo de água. Quando voltou, pediu desculpas pela sua burrice, muito embora não houvesse nada que desculpar e ela não tivesse nada de burra. (p. 92 e 93).

Vou ser espoliado de minha velhice. Tento não ficar amargurado por causa disso, mas às vezes não consigo evitar. A vida é uma merda, eu sei, mas a única coisa que quero é mais vida, mais anos desta Terra desolada. (p. 96).

Ler aquela carta me encheu de uma tristeza imensa, incalculável. Horas antes, Rebecca havia me abalado com a notícia de que Walker morrera, e agora lá estava ele falando comigo outra vez, um morto que falava comigo, e eu tinha a sensação de que, contanto que eu segurasse a carta em minha mão, contanto que as palavras da carta continuassem diante dos meus olhos, seria como se ele tivesse ressuscitado, como se tivesse voltado à vida momentaneamente, nas palavras que escrevera para mim. Uma reação estranha, talvez, sem dúvida uma reação embaraçosamente tola, mas eu estava perturbado demais para censurar as emoções que me atravessavam e assim li a carta mais seis ou sete vezes, dez vezes, doze vezes, o número de vezes suficiente para aprender de cor todas as palavras, antes de tomar coragem para jogar a carta fora. (p. 96).

Telegráfico. Nenhuma frase completa. Do início ao fim, escrito desse modo. Vai à loja. Pega no sono. Acende um cigarro. Dessa vez, na terceira pessoa. Terceira pessoa, tempo presente, e assim resolvi seguir sua orientação e apresentar seu relato exatamente dessa forma — terceira pessoa, tempo presente. Quanto às páginas anexas, faça com elas o que bem entender. Ele me deu sua autorização, e não creio que transformar em períodos plenamente desenvolvidos suas anotações cifradas em código Morse constitua algum tipo de traição. Apesar de meu envolvimento editorial com o texto, no sentido mais profundo e mais verdadeiro do que significa contar uma história, todas as palavras de Outono foram escritas pelo próprio Walker. (p. 97).

Ele duvida que ela tenha o menor interesse em renovar as relações físicas com ele, mas, se Margot tiver interesse, ele vai receber muito bem a oportunidade de dormir com ela outra vez. Afinal, foi a afoita e impetuosa Margot que desencadeou dentro dele o redemoinho erótico que o levou ao furor do último verão. Ele está seguro dessa relação. Sem a influência de Margot, sem o corpo de Margot para instruí-lo nas intricadas engrenagens do seu próprio coração, a história com Gwyn jamais seria possível. Margot, a destemida, Margot, a silenciosa, Margot, o enigma. Sim, ele quer muito voltar a vê-la, mesmo que só para uma inocente xícara de café. (p. 99).

Os dois percorrem a corriqueira litania de perguntas e respostas. Mas que diabo ele está fazendo em Paris? Como vão as coisas? Foi por acaso que ela atendeu o telefone ou tinha ido morar com os pais? O que ela está fazendo agora? Tem tempo para ir com ele tomar uma xícara de café? Ela hesita por um momento e depois o surpreende, respondendo: Por que não? Combinam de se encontrar no La Palette dali a uma hora. (p. 99).

Margot sorri, depois muda de assunto, pedindo um cigarro. Quando acende o Gauloise para ela, Walker olha para Margot e de súbito compreende que jamais vai conseguir separá-la de Born em sua mente. É uma descoberta grotesca, que esmaga totalmente o tom sedutor e divertido que estava tentando adotar. Foi tolice telefonar para Margot, diz Walker consigo, foi tolice achar que poderia convencer Margot a ir para a cama de novo com ele agindo como se os horrores da primavera nunca tivessem acontecido. Mesmo que Margot não faça mais parte da vida de Born, está presa a Born na memória de Walker, e olhar para ela não é nada diferente de olhar para o próprio Born. Incapaz de se segurar, Walker começa logo contando para ela a caminhada pela Riverside Drive naquela noite de maio, depois que ela havia partido de Nova York. Descreve-lhe a facada. Conta à queima-roupa que Born é, sem a menor dúvida, o assassino de Cedric Williams.
Ele observa com atenção o rosto de Margot enquanto reconta os detalhes horripilantes daquela noite e dos dias que se seguiram, e por um momento ela lhe parece um ser humano normal, uma criatura viva e irmã, com uma consciência e uma capacidade de sentir dor, e, apesar de sua afeição por Margot, Walker descobre que gosta de golpeá-la desse modo, de feri-la desse modo, destruindo sua fé no homem com quem viveu durante dois anos, um homem a quem supostamente ela amou. Margot agora está chorando. Walker se pergunta se está fazendo isso por causa da maneira como ela o tratou em Nova York. Será essa a sua vingança por ter sido dispensado sem aviso logo no início do seu relacionamento? Não, ele acha que não. Está falando com ela porque compreende que não consegue mais olhar para ela sem ver Born, e assim essa é a última vez que vai ver Margot, e Walker quer que ela saiba a verdade, antes que cada um siga seu caminho. Quando ele termina de contar a história, ela se levanta da mesa e corre na direção do banheiro. (p. 100).

Margot demora menos de dez minutos. Quando ela senta em sua cadeira outra vez, Walker percebe o inchaço em torno das pálpebras, o brilho vidrado nos olhos, mas sua maquiagem está intacta e suas faces não estão mais borradas de rímel. Ele pensa: o rímel de Gwyn na noite do aniversário de Andy; o rímel de Margot numa tarde de setembro em Paris; o rímel do choro da morte. (p. 101).

Mas há violência dentro dele. Por baixo de todo o charme e das tiradas espirituosas, existe uma fúria real, uma violência real. Detesto ter de admitir isso agora, mas acho que isso me excitava. Nunca saber se podia confiar nele ou não, nunca saber o que ele ia fazer em seguida. Só me bateu uma vez, mas se meteu em algumas brigas durante o tempo em que estivemos juntos, brigas com outros homens. Você viu como ele se enfurece. Sabe como ele fica quando se embriaga. Acho que isso remonta aos seus tempos de serviço militar, da guerra, as coisas terríveis que fez durante a guerra. Torturar prisioneiros. Uma vez ele me confessou que torturou prisioneiros na Argélia. Negou isso no dia seguinte, mas não acreditei, embora tenha fingido acreditar. A primeira versão era a verdadeira, sei disso. (p. 101).

Quem sabe quais são os desejos secretos de uma pessoa? A menos que a pessoa aja conforme seus desejos ou fale sobre seus desejos, a gente não pode ter nenhuma pista. (p. 102).

Sim, eu sei. Sei tudo sobre o assunto. Foi o meu visto de saída do caso. Adeus à prostituta traidora Margot, saudações à angélica Hélène Juin. (p. 102).

Certo. Mas qual é a lei que diz que não se pode amar um louco?
Os dois ficam em silêncio depois disso, sem encontrar outras palavras para dizer, outros pensamentos. Margot olha para o relógio de pulso, e Walker imagina que ela vai dizer que está atrasada para outro compromisso, que tem de ir embora depressa. Em vez disso, pergunta se ele tem planos para o jantar nessa noite e, se não tiver, se ele não gostaria de ir a um restaurante com ela? Margot conhece um bom restaurante na Rue des Grands Augustins e terá prazer de pagar a conta, no caso de ele estar curto de grana. Walker quer dizer a ela que não vai ser possível, que ele acha que não pode mais vê-la, que acredita que eles têm de pôr fim em sua amizade, mas não consegue ter força para dizer essas palavras. Também está solitário demais para recusar o convite, mentalmente enfraquecido demais para dar as costas para a única pessoa que conhece em Paris. (p. 103).

A princípio, as coisas não funcionam direito. Margot não diz nada sobre o quarto, porque é educada demais, ou indiferente demais, para se dar o trabalho de tocar no assunto, mas Walker não pode deixar de ver aquilo nos olhos dela e fica dominado pelo constrangimento, consternado consigo mesmo por ter arrastado Margot para um lugar tão cafona, tão deprimente. Isso o deixa num estado de ânimo abatido, e, quando os dois sentam na cama e começam a se beijar, ele se sente ausente, assustadoramente alheio. Margot recua e pergunta se há algo errado. Não fique cheio de esquisitices comigo, Adam, diz. Isto aqui é para ser uma coisa divertida, lembra? (p. 104).

Margot lhe dá um tempo, e no fim ele começa a sair do seu estupor melancólico, talvez não completamente, mas o bastante para sentir-se excitado quando ela se desfaz de seu vestido e ele põe os braços em volta de sua pele nua, o bastante para fazer amor com ela, o bastante para fazer amor com ela duas vezes, e na pausa entre as cópulas, enquanto bebem vinho tinto no gargalo da garrafa que ele trouxe para o quarto mais cedo nesse mesmo dia, Margot o excita mais ainda com histórias minuciosas de seus encontros sexuais com outras mulheres, sua paixão por tocar e beijar peitos grandes (porque os dela são muito pequenos), por lamber e acariciar o púbis das mulheres, por enfiar a língua bem fundo no cu das mulheres, e, embora Walker não possa dizer se tais histórias são verdadeiras ou apenas uma invenção para deixá-lo de pau duro de novo para eles transarem pela segunda vez, ele curte ficar ouvindo essas histórias de sacanagem, assim como curtia ouvir as sacanagens que Gwyn dizia no apartamento na rua 107 Oeste. Ele se pergunta se as palavras não são um elemento essencial do sexo, se falar não é afinal um modo mais sutil de tocar, e se as imagens que dançam em nossas cabeças não são tão importantes quanto os corpos que seguramos em nossos braços. Margot lhe diz que o sexo é a única coisa que conta na vida para ela, que, se não pudesse fazer sexo, ela na certa iria se matar para fugir ao tédio e à monotonia de ficar aprisionada dentro da própria pele. Walker não diz nada, mas, quando goza dentro dela pela segunda vez, se dá conta de que tem a mesma opinião. É louco por sexo. Mesmo sob as garras do desespero mais esmagador, ele é louco por sexo. O sexo é o senhor e o redentor, a única salvação na Terra. (p. 105).

São seis horas da tarde, fim de mais um dia de trabalho, e, agora que Walker começou a entrar no ritmo de Paris, ele compreende que essa é provavelmente a hora mais inspiradora da cidade, a transição do trabalho para casa, as ruas repletas de homens e mulheres que voltam correndo para suas famílias, seus amigos, suas vidas solitárias, e ele curte ficar ao ar livre com elas, rodeado pela vasta respiração coletiva que enche o ar. (p. 105).

Por um rápido momento, Walker fica tentado a rasgar o cartão e jogar os pedacinhos no chão — da mesma forma que rasgou o cheque em Nova York na primavera anterior —, mas resolve que não vai fazer isso, não quer se rebaixar com um insulto tão vulgar e rasteiro. Enfia o cartão no bolso e dá adeus. Born faz um aceno de cabeça, mas não diz nada. Enquanto Walker vai embora, o sol dispara no céu e explode em cem mil estilhaços de luz derretida. A torre Eiffel desaba. Todos os prédios de Paris irrompem em chamas. Fim do Primeiro Ato. Cortina. (p. 108).

Ele se colocou numa posição insustentável. Enquanto ignorava o paradeiro de* Born, podia viver com a incerteza de um encontro potencial, ao mesmo tempo que se iludia acreditando que a sorte ia ficar do seu lado e o momento aterrador jamais chegaria, ou então chegaria bem mais tarde, tão tarde que sua temporada em Paris não seria destruída por temores de outro encontro, de outros encontros. Agora que já aconteceu, e aconteceu cedo, muito mais cedo do que ele jamais imaginou ser possível, descobre que é insuportável ter o endereço de Born no bolso e não poder ir à polícia e pedir que ele seja preso. Nada o deixaria mais feliz do que ver o assassino de Cedric Williams ser levado a julgamento. Ainda que o deixassem livre, Born teria de sofrer com as despesas e a humilhação de um processo judicial e, mesmo que nunca fosse levado a julgamento, teria de suportar o desprazer de ser interrogado pela polícia, teria de aguentar os rigores de uma investigação meticulosa. Mas, afora raptar Born e levá-lo de volta para Nova York, o que Walker poderia fazer? Pondera a situação durante o resto do dia e até tarde da noite, e então lhe ocorre uma ideia, uma ideia diabólica, uma ideia tão cruel e ardilosa que ele fica atônito com o mero fato de ser capaz de imaginar algo assim. Não vai levar Born para a cadeia, infelizmente, mas vai tornar sua vida extremamente desconfortável e, se Walker conseguir executar seu plano com sucesso, vai privar o futuro marido de Hélène Juin do objeto que ele mais cobiça no mundo. Walker fica ao mesmo tempo impressionado e enojado de si mesmo. Nunca foi uma pessoa vingativa, nunca procurou ativamente ferir ninguém, mas Born é uma categoria diferente, Born é um assassino, Born merece ser castigado, e pela primeira vez na vida Walker está com sede de sangue.
O plano requer um mentiroso experiente, um acrobata social habilidoso na refinada arte da duplicidade, e, como Walker não é nenhuma dessas coisas, sabe que é a pior pessoa para a missão que atribuiu a si mesmo. Desde o início, será forçado a agir contra sua própria natureza, vezes e mais vezes vai escorregar e cair, enquanto peleja para ganhar firmeza no campo de batalha que traçou em sua mente, e, no entanto, apesar de seus receios, marcha rumo ao Café Conti na manhã seguinte para enfiar outro jeton no telefone público e pôr seu plano em ação. Está espantado com sua coragem, sua determinação. Quando Born atende no terceiro toque, a surpresa na voz do homem é palpável. (p. 108 e 109).

Suas descobertas iniciais são inconclusivas. Por temperamento ou circunstância, mãe e filha se mostram discretas e reservadas, pouco afeitas a aproximações ou a conversas descontraídas, e, como Born domina os primeiros movimentos com as apresentações, as explicações e diversos comentários, pouca coisa é dita por qualquer uma delas. Quando Walker faz um breve relato de seus primeiros dias em Paris, Hélène elogia seu francês; em outro momento, Cécile pergunta discretamente se ele está gostando de morar num hotel. A mãe é alta, loura e bem-vestida, nem de longe uma beldade (tem o rosto comprido demais, pensa Walker, meio semelhante ao de um cavalo), mas, a exemplo de tantas francesas de classe média de uma certa idade, se impõe com um porte e uma segurança consideráveis — uma questão de estilo, talvez, ou então o produto de alguma arcana sabedoria gaulesa relativa à natureza da feminilidade. A filha, que acabou de fazer dezoito anos, é estudante no Lycée Fénelon, na Rue de l’Éperon, que fica a menos de cinco minutos a pé do Hôtel du Sud. É uma criatura mais baixa e menos imponente que a mãe, de cabelo castanho curto, pulsos finos e ombros estreitos, e olhos alertas e penetrantes. Walker nota que aqueles olhos têm uma tendência ao estrabismo, e lhe ocorre (corretamente, como depois se verá) que Cécile normalmente usa óculos e resolveu experimentar viver sem eles durante o tempo do jantar. Não, não é uma garota bonita, na verdade tem quase o jeito de um camundongo, mas mesmo assim tem um rosto interessante de olhar: queixo miúdo, nariz comprido, faces arredondadas, boca expressiva. De vez em quando, a boca é repuxada para baixo com uma espécie de diversão clandestina, bem longe de irromper num sorriso, mas apesar disso demonstrando um senso de humor desenvolto, uma pessoa atenta às possibilidades cômicas de qualquer momento determinado. Não há dúvida de que é extremamente inteligente (nos últimos quatro minutos, Born esteve dizendo maravilhas a Walker sobre as notas incríveis que ela tirou em literatura e filosofia, sua paixão pelo piano, seu domínio do grego antigo), porém, por mais que Cécile se esforce em seu próprio favor, Walker tem de admitir com tristeza que não sente atração por ela, pelo menos não do jeito que esperava. Ela não faz seu tipo, diz Walker consigo, retomando essa expressão vaga e surrada, que faz as vezes das infinitas complexidades do desejo físico. Mas qual é seu tipo?, ele se pergunta. Sua irmã? A Margot faminta de sexo, que é dez anos mais velha do que ele? Seja o que for que ele deseja, não é Cécile Juin. Olha para ela e vê uma criança, uma obra em andamento, uma pessoa ainda não plenamente formada, e a essa altura de sua vida ela está inibida e retraída demais para emitir qualquer um dos sinais eróticos capazes de instigar um homem a ir atrás dela. Isso não quer dizer que ele não vá fazer o melhor possível para cultivar uma amizade com ela, mas não haverá beijos nem toques, nenhum envolvimento romântico, nenhuma tentativa de aliciá-la para a cama.
Ele se despreza por ter tais pensamentos, por olhar para a inocente Cécile como se ela não passasse de um objeto sexual, uma vítima em potencial de suas faculdades sedutoras (supondo que tenha alguma), mas ao mesmo tempo ele está travando uma guerra, uma guerra de guerrilha subterrânea, e o jantar é a primeira batalha daquela guerra, e, se ele puder vencer a batalha seduzindo a futura enteada de seu inimigo, não hesitará em fazer isso. No entanto, a jovem Cécile não é uma candidata à sedução, e assim Walker terá de elaborar táticas mais sutis a fim de alcançar seu intuito, trocando um ataque frontal à filha por uma ofensiva em duas frentes contra a filha e a mãe ao mesmo tempo — numa tentativa de ganhar as boas graças de ambas e, no final, atraí-las para o seu lado. Tudo isso tem de ser executado sob o olhar vigilante de Born, na presença intolerável e sufocante de um homem para quem ele mal consegue ter ânimo de olhar. O cético e sarcástico Born está obviamente desconfiado daquele Walker de duas caras, e quem sabe Born apenas fingiu aceitar as desculpas de Walker para descobrir qual é a tramoia que o garoto está armando? Há um espinho cravado na voz de Born, por trás do tagarelar simpático e da fingida boa vontade, um toque de ansiedade, de tensão, que parece sugerir que ele está em guarda. Não será sensato vê-lo outra vez, diz Walker consigo, o que torna ainda mais imperativo estabelecer sua paz em separado com as duas Juin esta noite, antes que o jantar chegue ao fim. (p. 111 e 112).

Mas como pode haver felicidade para uma mulher na posição de Hélène, para alguém que viveu os últimos seis ou sete anos num estado de luto e animação suspensa, enquanto o marido meio morto definha num hospital? Ela imagina o comatoso Juin estirado numa cama, seu corpo enganchado em incontáveis aparelhos e num emaranhado de tubos respiratórios, o único paciente numa enfermaria grande, deserta, vivo mas sem viver, morto mas sem morrer, e de repente Walker se lembra do filme que viu com Gwyn há dois meses, Ordet, o filme de Carl Dreyer, sentado ao lado da sua irmã no balcão do cinema New Yorker, e a mulher do lavrador morto deitada no caixão, e suas próprias lágrimas quando a morta se levantou, sentou-se no caixão e voltou à vida, mas não, diz ele consigo, aquilo era só uma história, uma história de faz de conta num mundo de faz de conta, e isto não é aquele mundo e não haverá nenhuma ressurreição milagrosa para Juin, o marido de Hélène nunca vai se levantar e voltar à vida. (p. 113).

Walker sorri para Cécile numa tentativa de dissipar a imagem e, quando ela sorri de volta para ele — um pouco intrigada mas aparentemente satisfeita com a atenção —, ele se pergunta se aquele tipo de devassidão não explica por que Born está tão entusiasmado com a ideia de casar com Hélène. Born está lutando para dar as costas para si mesmo, para resistir a seus impulsos sórdidos e malévolos, e ela representa para ele a respeitabilidade, uma muralha contra sua própria loucura. Walker nota como ele se comporta de maneira decorosa com Hélène, se dirige a ela com o formal pronome vous, em vez de usar o mais íntimo e familiar tu. Essa é a linguagem dos condes e condessas, a linguagem do casamento nos mais elevados estratos da classe alta, e cria uma distância tanto do indivíduo quanto do mundo e serve como uma forma de proteção. Não é amor o que Born está procurando, mas segurança. A libidinosa Margot despertou nele o que havia de pior. A serena e reprimida Hélène vai transformá-lo num novo homem? Nem em sonho, diz Walker consigo. Uma pessoa com a inteligência de Born não devia nem pensar numa coisa dessas. (p. 113).

Quando nos vemos afundando num mar de problemas, o trabalho duro pode se tornar a tábua de salvação que nos mantém na superfície. Walker enxerga isso nos olhos dela, fica impressionado ao ver como se tornaram brilhantes, agora que Born mencionou o assunto, e de repente surge uma possível oportunidade, uma chance de entabular um diálogo pertinente com Hélène. A verdade é que Walker está autenticamente interessado no que ela faz. Ele leu os estudos de Jakobson e Merleau-Ponty sobre afasia e aquisição da linguagem, refletiu a fundo sobre esses assuntos por causa de sua militância com as palavras, e assim não se sente um fraudador ou um trapaceiro quando começa a cobri-la de perguntas. (p. 114).

Há diversas formas de afasia, Walker fica sabendo, conforme a parte do cérebro afetada — a afasia de Broca, a afasia de Wernicke, a afasia de condução, a afasia sensorial transcortical, a afasia anômica etc. —, e não é intrigante, diz Hélène, sorrindo pela primeira vez desde que entrou no restaurante, sorrindo de verdade afinal, não é intrigante que o pensamento não possa existir sem a linguagem e, como a linguagem é uma função do cérebro, temos de afirmar que essa linguagem — a capacidade de experimentar o mundo por meio de símbolos — é, em alguma medida, uma faculdade física dos seres humanos, o que prova que a velha dualidade mente/corpo é um despropósito, não é? Adieu, Descartes. A mente e o corpo são um só. (p. 114).

Walker está descobrindo que a melhor maneira de conhecê-las é se manter de fora, fazer perguntas em vez de dar respostas, levá-las a falar a respeito delas mesmas. Mas Walker não é adepto desse tipo de manipulação interpessoal e cai num silêncio incômodo quando Born intervém com alguns comentários incisivamente negativos acerca da recusa do exército de Israel em se retirar do Sinai e da Margem Ocidental. Walker percebe que ele está tentando incitá-lo a uma discussão, mas o fato é que concorda com a posição de Born sobre aquele assunto e, em vez de deixar que ele saiba disso, não diz nada, espera que a ladainha complete o seu percurso, enquanto observa a boca de Cécile, que de novo está repuxada para baixo, em reação a algum júbilo secreto interior. (p. 114).

Ficam falando sobre literatura grega por um tempo, e, não demora muito, Cécile começa a contar para ele seu projeto de verão — um plano maluco, francamente ambicioso, que redundou em três meses de frustração e arrependimento. (p. 115).

O poema trata de Cassandra, prossegue Cécile, a filha de Príamo, último rei de Troia — pobre Cassandra, que teve a desgraça de ser amada por Apolo.Este lhe concedeu o dom da profecia, mas só se Cassandra, em troca, aceitasse sacrificar sua virgindade a ele. De início ela disse que sim, depois disse que não, e o rejeitado Apolo vingou-se envenenando a sua dádiva, certificando-se de que nenhuma das profecias de Cassandra recebesse crédito de ninguém. O poema de Licofron se passa durante a Guerra de Troia, e Cassandra está na cadeia, já louca, prestes a ser assassinada junto com Agamenon, despejando intermináveis delírios e visões do futuro numa linguagem tão complexa, tão atulhada de metáforas e alusões, que é quase ininteligível. É um poema de berros e uivos, diz-lhe Cécile, um grande poema na sua opinião, um poema desvairado e totalmente moderno, mas tão intimidador e esquivo, tão além dos seus poderes de compreensão, que depois de horas e mais horas de trabalho ela conseguiu traduzir apenas cento e cinquenta versos. (p. 115).

E assim, de uma hora para outra, sem nenhum aviso, sem nenhuma manobra de despistamento da parte de Walker, ele se vê marcando um encontro na tarde do dia seguinte, às quatro horas, para dar uma olhada no manuscrito dela. Uma vitória pequena, talvez, mas de forma completamente inesperada ele conseguiu realizar tudo o que havia planejado naquela noite. Haverá outro contato com as Juin, e Born não estará presente. (p. 116).

Sem nenhum aviso, um verso esquecido do Eclesiastes invade sua consciência aos brados. E eu daria meu coração para alcançar a sabedoria e saber reconhecer a loucura e a insensatez... Quando anota às pressas as palavras na margem direita de seu poema, se pergunta se não será aquilo a coisa mais verdadeira que já escreveu sobre si mesmo nos últimos meses. As palavras podem não ser dele, mas sente que pertencem a ele.
Dez e meia, onze horas. O brilho amarelado da lâmpada elétrica irradia do abajur feito de uma garrafa de vinho que está sobre a escrivaninha. A torneira que pinga, o papel de parede descascado, o atrito da ponta da caneta no papel. Walker ouve o barulho de passos na escada. Alguém se aproxima, sobe devagar a escada circular na direção do seu andar, o último andar, e a princípio ele imagina que seja Maurice, o gerente meio embriagado do hotel, que vem entregar um telegrama ou o correio da manhã, o gentil sr. Maurice Petillon, homem de mil histórias sobre nada, mas não, na verdade não é Maurice, pois agora Walker* detecta o estalido de saltos altos e portanto deve ser alguma mulher, e, se é uma mulher, quem mais seria se não Margot? Walker fica alegre, extraordinariamente alegre, positivamente bobo de alegria, ante a perspectiva de ver Margot outra vez. Ele pula de sua cadeira e corre para abrir a porta antes que ela tenha tempo de bater. (p. 116 e 117).

Ela está preocupada com ele, preocupada por ele, e a aflição e a preocupação que Walker vê nos olhos de Margot são reconfortantes (a questão da confiança não é mais objeto de dúvida) e ao mesmo tempo um tanto embaraçosas. Ela ficou mais próxima dele, sua afeição se tornou mais manifesta, mais sincera, e, no entanto, há algo de maternal naquela aflição, uma impressão de sensatez madura, que observa de sobrancelhas franzidas os erros da juventude, e, pela primeira vez em todos os meses que a conhece, Walker pode sentir a diferença de idade que existe entre os dois. Ele só espera que isso não se torne um problema. Agora precisa de Margot. É sua única aliada em Paris, e estar com ela é o único remédio capaz de evitar que ele fique remoendo sua saudade de Gwyn. Não, ele não está infeliz por Margot ter visto por acaso seu encontro no restaurante, ontem à noite, com Born e as Juin. Nem está infeliz por ter acabado de pôr sua alma a nu diante dela. A reação de Margot mostrou que ele significa algo para ela, que ele representa mais que só mais um corpo que ela leva para a cama, mas Walker sabe que não deve abusar da amizade de Margot, pois ela não está inteiramente comprometida e só tem a oferecer uma certa parcela de si mesma. Se Walker pedir demais, ela pode se ofender, talvez até vá embora. (p. 120).

Certa vez, Margot lhe contou que seu pai trabalhava num banco, mas deixou de acrescentar que ele era o diretor do banco, e, agora que ela está oferecendo a Walker um breve tour pelos cômodos, com seus espessos tapetes persas e espelhos com molduras douradas, com seus candelabros de cristal e móveis de antiquário, ele sente que está tendo uma nova visão da esquiva e rebelde Margot. É uma pessoa em desacordo com o meio em que nasceu, em desacordo mas não numa revolta frontal (pois aqui está ela, temporariamente de volta à casa dos pais, enquanto procura um lugar para morar), porém que frustração deve ser para os pais o fato de a filha ainda estar solteira aos trinta anos, sem contar que suas tentativas de tornar-se pintora não devem pegar lá muito bem neste reino da respeitabilidade burguesa. A ambígua Margot, com seu amor pela culinária e seu amor pelo sexo, ainda em luta para achar um lugar para si, ainda não completamente livre. (p. 121).

É um quarto espartano, menos de um terço do quarto de Walker no hotel. Espaço para uma escrivaninha pequena e uma cadeira, uma pia pequena e uma cama pequena, com gavetões embaixo do colchão. Severo em seu despojamento, nenhum enfeite em parte alguma — como se tivessem entrado na cela de uma freira noviça. Só um livro à vista, caído no chão, ao lado da cama: uma coletânea de poemas de Paul Éluard, Capitale de la douleur. Alguns cadernos de desenho empilhados na escrivaninha junto a um copo cheio de canetas e lápis; algumas telas no chão, apoiadas na parede, viradas de costas. Walker adoraria desvirar as telas, adoraria abrir os cadernos de desenho, mas Margot não se oferece para mostrá-los e ele não se atreve a tocar em nada sem a permissão dela. Está pasmo com a simplicidade do quarto, pasmo com essa incrível visão de relance do mundo íntimo de Margot. Quantas pessoas já tiveram a permissão dela para entrar ali?, ele se pergunta. (p. 121).

Ele fica intrigado com aquele gesto de ajuda. Algumas horas antes, ela se mostrou ferrenhamente contrária ao seu plano, e agora parece agir como sua cúmplice. Será que voltou atrás em sua posição, Walker se pergunta, ou está apenas zombando dele, de alguma forma, testando para ver se ele de fato é tolo o bastante para marchar direto para a armadilha que Margot acha que ele próprio preparou para si? Walker desconfia que a última interpretação é a correta, mas mesmo assim ele agradece a ela por ter se lembrado do seu encontro e depois, na hora em que vai abrir a porta e sair do quartinho, diz a Margot, de modo temerário, que a ama.
Não ama, não, diz ela, balançando a cabeça e sorrindo. Mas estou contente por você achar que me ama. Você é um garoto maluco, Adam, e, cada vez que vejo você, está mais maluco do que na vez anterior. Não demora muito, vai estar tão maluco quanto eu. (p. 122).

Embaraçado, sem fôlego por ter vindo correndo, suas roupas desarrumadas, seu corpo decerto cheirando a sexo, e com a palavra maluco ainda ecoando na cabeça, Walker se aproxima da mesa, já balbuciando um monte de desculpas, enquanto Cécile ergue os olhos para ele e sorri — um sorriso de perdão completamente imerecido. (p. 122).

Walker pede um café, o sexto ou sétimo do dia, e então, com seu característico repuxar da boca para baixo, Cécile aponta para o livro que estava lendo quando ele entrou — um volume pequeno, de capa vermelha, sem sobrecapa, pelo visto bem velho, um objeto surrado e enxovalhado que mais parece algo resgatado de uma lixeira. (p. 123).

Meu inglês não é muito bom, mas me parece empolada e pedante, muito antiquada, eu receio. O pior é que é uma tradução literal em prosa, e assim toda a poesia desapareceu. Mas ao menos dá uma ideia da coisa — e do motivo por que me deu tanto trabalho. (p. 123).

É como tentar traduzir Finnegans Wake para o mandarim. Eu sei. É por isso que estou tão enjoada do livro. As férias de verão terminam na semana que vem, mas meu projeto de verão já foi para o espaço. (p. 124).

Assim começa a amizade entre Walker e Cécile Juin. Ele descobre que, em vários aspectos, Cécile é uma criatura absolutamente impossível. Ela treme e se mexe irrequieta, rói as unhas, não fuma nem bebe, é vegetariana militante, faz muitas exigências a si mesma (por exemplo, a tradução destruída) e às vezes é chocantemente imatura (por exemplo, a história boba sobre não poder contar para ele onde achou o livro, sua fixação infantil em secrets). De outro lado, sem sombra de dúvida, ela é uma das pessoas mais inteligentes que ele já conheceu. Sua mente é um instrumento prodigioso, e seu pensamento pode ficar dando voltas e mais voltas ao redor de Walker, a respeito de qualquer assunto imaginável, deixando-o assombrado com seu conhecimento de literatura e arte, música e história, política e ciência. Ela também não é uma mera máquina de memorização, um desses protótipos de melhor aluno com uma incrível capacidade de ingerir uma quantidade enorme de informações sem filtrar nada. Cécile é perspicaz e sensível, suas opiniões são infalivelmente originais, e, embora tímida e nervosa, se aferra obstinadamente à sua tese em qualquer discussão. Por seis dias seguidos, Walker a encontra para almoçar na lanchonete dos estudantes na Rue Mazet. Passam as tardes juntos vagando pelas livrarias, indo ao cinema, visitando galerias de arte, sentados em bancos à beira do Sena. Walker fica aliviado por não se sentir fisicamente atraído por ela, por poder confinar seus pensamentos sobre sexo em Margot (que durante esse período passa uma noite com ele, em seu hotel) e na ausente Gwyn, que nunca está longe dele. Em suma, apesar das idiossincrasias malucas de Cécile, ele aprecia a companhia de sua mente mais que o bastante para abster-se de quaisquer pensamentos sobre seu corpo e, com satisfação, mantém as mãos longe dela. (p. 125).

Quando ele diz a palavra formidável (formidable), o rosto de Cécile se ilumina com uma expressão de alegria entusiasmada e desinibida. Naquele instante, Walker de repente compreende que o convite não veio de Hélène, mas de Cécile, que ela induziu sua mãe a convidá-lo para ir ao seu apartamento e, com toda a probabilidade, há dias que está insistindo com ela para realizar seu projeto. Até agora, Cécile se mostrou bem cautelosa em sua presença, evitando qualquer rasgo de emoção mais espontâneo, e essa expressão de alegria que se alastra em seu rosto é um sinal profundamente preocupante. A última coisa que ele quer é que Cécile comece a sentir alguma paixão por ele.
Elas moram na Rue de Verneuil, no vii Arrondissement, uma rua paralela à Rue de l’Université, mas, ao contrário da residência palaciana da família de Margot, o apartamento das Juin é pequeno e mobiliado com simplicidade, sem dúvida um reflexo da reduzida receita financeira de Hélène após o acidente do marido. Mas a casa é extremamente bem cuidada, Walker repara, tudo está em seu devido lugar, imaculado, arrumado, preservado, desde a mesinha de centro de vidro sem mancha nenhuma até o assoalho encerado e lustroso, como se essa exigência de ordem fosse uma tentativa de manter o caos e a imprevisibilidade do mundo a uma distância segura. Quem pode criticar Hélène por esse zelo fanático?, pensa Walker. Ela está tentando se manter em pé, inteira, a ela e também a Cécile, e, com o pesado fardo que tem de suportar, quem sabe não é por isso que ela planeja se divorciar do marido e casar com Born: a fim de sair de sua situação difícil e poder respirar outra vez.
Com Born fora da equação, Walker descobre em Hélène uma pessoa um pouco mais suave e mais amigável do que a mulher que conheceu no restaurante alguns dias atrás. Ainda é reservada, ainda envolta num ar de retidão e decoro,* mas, quando ele a cumprimenta na porta e aperta sua mão, fica surpreso ao ver como ela fita seus olhos de modo caloroso, como se estivesse autenticamente feliz por ter vindo. Talvez Walker estivesse enganado ao supor que Cécile havia pressionado a mãe de todo jeito para convidá-lo a visitar a casa delas. (p. 126 e 127).

Cécile parece mais calada do que o habitual, pensa Walker, mais composta e controlada, mas ele não sabe se isso acontece porque está fazendo um esforço consciente para agir de certa maneira ou porque se sente mais inibida diante da mãe. (p. 127).

Ela toca bem, ataca as notas da peça com uma precisão tenaz, sua dinâmica é firme, e, se seu fraseado é um pouco mecânico, se ela não alcança a fluência de um profissional maduro, quem pode criticá-la por não ser outra coisa além daquilo que ela é? Cécile não é uma profissional. É uma aluna do ensino médio de dezoito anos de idade que toca piano para seu próprio prazer e executa a peça de Bach com eficiência, destreza e com muito sentimento. Walker recorda suas próprias tentativas desajeitadas de aprender a tocar piano quando era garoto e como ficou decepcionado ao descobrir que não tinha a menor queda para aquilo. Assim ele aplaude o desempenho de Cécile com grande entusiasmo, elogia sua aplicação e lhe diz que a acha muito boa. Não sou muito boa, na verdade, diz ela, com sua modéstia irritante. Sou mais ou menos. Mas, mesmo quando denigre a si própria, Walker pode ver que sua boca está repuxada para baixo, pode ver que Cécile se esforça para reprimir um sorriso, e ele percebe o valor que seus elogios* têm para ela. (p. 127 e 128).

O terror se concretizou. Inocência se transformou em culpa, e esperança é uma palavra que rima com desespero. Em toda parte de Paris, as pessoas estão saltando das janelas. O metrô está inundado de excremento humano. Os mortos saem rastejando de suas sepulturas. Fim do Segundo Ato. Cortina. (p. 128).

No fundo, ele já desconfiava e, agora que as desconfianças se confirmaram, compreende que terá de elaborar uma estratégia nova. Para começar, não haverá mais passeios diários com Cécile. Por mais afeiçoado que tenha ficado a ela, Walker tem de tomar cuidado (sim, Hélène tem razão), tem de tomar muito cuidado para não fazer nada que possa magoá-la. Mas o que significa tomar cuidado? Cortar relações com ela lhe parece desnecessariamente cruel, e, no entanto, se continuar a ver Cécile, a jovem não vai interpretar seu interesse contínuo por ela como um sinal de encorajamento? Não existe uma solução simples para esse dilema. Pois o fato é que ele tem de ver Cécile, talvez não com a mesma frequência de antes, talvez não durante tantas horas seguidas, mas tem de ver Cécile, porque ela é a pessoa que ele decidiu que vai ouvir seu desabafo, aquela que vai ouvir a história do assassinato de Cedric Williams. Cécile vai acreditar na história. Se Walker, em troca, procurar a mãe dela, há uma grande chance de que Hélène não acredite. Mas, se Cécile acreditar na história, então suas chances com Hélène vão aumentar, pois é mais do que provável que ela vai acreditar no que a filha lhe disser. (p. 128).

Estou contente, retruca Walker. Isso significa que estávamos pensando um no outro no mesmo momento. Telepatia é a melhor indicação de um forte vínculo entre as pessoas. (p. 129).

Durante os três dias seguintes, ele se aferra com tenacidade a esse regime de silêncio. Não vê ninguém, não fala com ninguém e aos poucos começa a sentir-se um pouco mais forte em sua solidão, como se os rigores que impôs a si mesmo o tivessem enobrecido de certa maneira, levando-o a recuperar o contato com a pessoa que ele antes imaginava ser. (p. 130).

Cécile está na sua frente. Está tensa, mordendo o lábio inferior, e está tremendo, como se pequenas correntes elétricas percorressem seu corpo, como* se ela estivesse prestes a erguer-se no ar e levitar. (p. 130 e 131).

[Depois da palavra vida, há uma interrupção no manuscrito de Walker, e a conversa chega ao fim de forma abrupta. Até esse ponto, as anotações foram contínuas, uma sequência ininterrupta de parágrafos cerrados, em espaço simples, mas agora há um intervalo em branco que recobre cerca de um quarto de uma página e, quando o texto recomeça abaixo desse retângulo branco, o tom da escrita é diferente. Não restou muita coisa para contar (estamos na página 28* a essa altura, o que significa que só faltam três páginas para terminar), mas
Walker abandona o enfoque meticuloso, passo a passo, que adotou até então e rapidamente sintetiza os acontecimentos finais da narrativa. Só posso supor que ele estava no meio da conversa com Hélène quando parou de escrever, dando po  terminada a tarefa do dia, e, quando acordou na manhã seguinte (se é que dormiu), seu estado de saúde tinha se agravado seriamente. Eram os últimos dias de sua vida, lembrem-se, e ele deve ter se sentido desolado demais, esgotado demais, fraco demais para prosseguir como antes. Ainda mais cedo, ao longo das primeiras vinte e oito páginas, eu havia percebido um lento mas inelutável definhamento das forças, uma perda de atenção para o detalhe, mas agora ele está incapacitado demais para escrever qualquer coisa além do estritamente essencial. Ele começa Outono com uma descrição razoavelmente elaborada do Hôtel du Sud, menciona o que Born está vestindo em seu primeiro encontro no café, mas pouco a pouco suas descrições passam a ter menos a ver com o mundo físico do que com estados de ânimo. Ele para de falar sobre roupas (Margot, Cécile, Hélène — nem uma palavra sobre como se vestem) e, só quando parece indispensável aos seus propósitos, ele se dá, de fato, o trabalho de retratar seu ambiente (algumas frases sobre a atmosfera na Vagenende, algumas frases sobre o apartamento de Juin), mas a maior parte da história consiste em pensamentos e diálogos, o que as pessoas estão pensando e o que estão dizendo. Nas últimas três páginas, o ocaso é quase total. Walker está desaparecendo do mundo, pode sentir como a vida escoa do seu corpo e, no entanto, ele avança da melhor maneira que pode, senta diante do computador uma última vez a fim de levar a história até o fim.] (p. 135 e 136).

Rosto duro. Nada de lágrimas, agora, nada de autopiedade. Furiosa em seu sentimento de superioridade. (p. 137).

Noite de segunda-feira. A prostituta volumosa, mascando chiclete, na Rue Saint-Denis. É sua primeira experiência com uma prostituta. O quarto tem cheiro de inseticida, suor e vestígios de vômito. (p. 138).

Ele nunca mais vai voltar lá, e nunca mais vai ver nenhum deles outra vez.
Adeus, Margot. Adeus, Cécile. Adeus, Hélène.
Quarenta anos depois, eles têm a mesma consistência que os fantasmas.
Todos são fantasmas agora, e W. logo caminhará entre eles. (p. 140).

Isso foi o fim. Umas bolas na trave, uns chutes para fora, e o jogo terminou. O mundo se fez em pedaços, o mundo se recompôs outra vez, e eu fui tocando o barco do jeito que pude. Para minha imensa sorte, vivo com a mesma mulher já faz quase trinta anos. Não consigo imaginar minha vida sem ela e, no entanto, toda vez que Gwyn passa pelo meu pensamento, confesso que ainda sinto uma pequena pontada. Ela foi a impossível, a inatingível, aquela que nunca aconteceu — um espectro da Terra do Se. (p. 143).

Telefonei para ela às dez horas da manhã seguinte. Queria escrever uma carta a fim de exprimir meus sentimentos no papel, dar a ela algo mais que os clichês vazios que tagarelamos nessas ocasiões, mas sua mensagem me pareceu urgente, havia um assunto importante que ela precisava discutir comigo, e assim liguei para Gwyn e acabou que nunca escrevi a carta.
Sua voz estava igual, exatamente a mesma que havia me hipnotizado quarenta anos antes. Uma sobriedade cadenciada, enunciação cristalina, o discretíssimo traço do sotaque do litoral do Meio Atlântico de sua infância. A voz era a mesma, porém Gwyn não era mais a mesma, e, enquanto a conversa prosseguia, eu projetava em minha cabeça diversos retratos dela, imaginando como seu lindo rosto teria resistido, bem ou mal, à passagem do tempo. Agora ela estava com sessenta e um anos, e de repente me ocorreu que eu não tinha nenhum desejo de encontrá-la outra vez. Isso só poderia gerar frustração, e eu não queria que minhas nebulosas lembranças do passado fossem pelos ares por causa dos fatos brutos do presente.
Trocamos os clichês de costume, divagamos por alguns minutos sobre Adam e sua morte, sobre como era difícil para nós aceitar o que havia acontecido, sobre os rudes golpes que a vida nos infligira. Depois deixamos de lado o passado por alguns momentos, falamos sobre nossos casamentos, nossos filhos e nosso trabalho — um agradável bate-papo, muito amistoso de parte a parte, tanto que até me vi com coragem de lhe perguntar se ainda se lembrava daquele dia no Riverside Park em que eu tinha tentado beijá-la. Claro que lembrava, disse ela, rindo pela primeira vez, mas como é que ela ia saber que aquele esquelético Jim que era aluno da graduação da faculdade iria se tornar James Freeman quando crescesse? Eu nunca cresci, disse eu. Ainda sou só o Jim. Não sou mais esquelético, mas ainda sou só o Jim.
Sim, foi tudo muito amável, e, apesar de nós dois termos sumido da vida um do outro décadas antes, Gwyn falava como se tivesse passado pouco tempo, ou tempo nenhum, como se aquelas décadas redundassem em nada mais que um ou dois meses. A familiaridade de seu tom de voz me acalmava e me induzia a uma espécie de franqueza sonolenta, e, como minhas defesas estavam reduzidas,* quando ela afinal entrou no assunto que interessava, isto é, quando afinal explicou por que tinha me telefonado, dei uma tremenda mancada. Contei para ela a verdade, quando devia ter dito uma mentira. (p. 144 e 145).

Sei que não acredita em mim. Sei que acha que estou tentando me proteger, que não quero admitir que aquelas coisas possam ter acontecido entre nós. Mas não foi assim, eu juro. Nas últimas vinte e quatro horas, fiquei pensando sobre isso, e a única resposta que encontrei é que essas páginas são uma fantasia de um homem moribundo, um sonho daquilo que ele gostaria que tivesse acontecido mas nunca aconteceu. (p. 147).

É aí que você entra na história. Se não estiver interessado em ajudar, vamos deixar o assunto de lado e nunca mais falamos do caso. Mas, se você quer mesmo ajudar, então minha proposta é a seguinte. Você pega as anotações da terceira parte e dá a elas uma forma adequada. Não vai ser nada difícil para você. Eu mesma jamais conseguiria fazer isso, mas você é o escritor, vai saber como lidar com isso. Depois, o mais importante, você refaz o manuscrito e troca todos os nomes. Lembra aquele programa antigo de televisão, da década de 50? Os nomes foram trocados a fim de proteger pessoas inocentes. Você troca os nomes das pessoas e dos lugares, acrescenta ou subtrai qualquer informação que ache adequada, e depois publica o livro sob seu nome.
Mas aí não vai ser mais o livro de Adam. De certo modo, parece desonesto. Como roubar... como uma estranha forma de plágio.
Não se você trabalhar de maneira correta. Se der a Adam o crédito pelas páginas que ele escreveu — ao Adam verdadeiro sob o nome falso que você vai inventar para ele —, aí você não vai roubar nada dele, vai prestar um tributo a ele. Mas ninguém vai saber que é de Adam. (p. 148).

Alguns meses se passaram, e nesse período quase não pensei na sugestão de Gwyn. Eu estava concentrado no trabalho com o meu livro, entrando nos últimos estágios de um romance que já havia consumido alguns anos de minha vida, e Walker e sua irmã começaram a se apagar, se dissolver, transformando-se em dois vultos no distante horizonte da consciência. Toda vez que acontecia de o livro de Adam surgir em meu pensamento, eu tinha certeza absoluta de que não queria me envolver com ele, de que o episódio estava encerrado. Depois, aconteceram duas coisas que me levaram a pensar o contrário. Cheguei ao fim do livro que estava escrevendo, o que significa que fiquei livre para voltar minha atenção para outras coisas, e esbarrei em certas informações novas ligadas à história de Walker, um epílogo, por assim dizer, um pequeno capítulo final que deu ao projeto um significado novo para mim — e, com esse significado, um impulso para começar. (p. 149).

Uma mulher de cinquenta e oito anos não é uma velha, é claro, e eu duvidava que houvesse em Cécile Juin qualquer coisa que pudesse ser classificada de tola. Seu senso de humor estava aparentemente intacto, então, e, por mais bem-sucedida que ela fosse no estreito mundo da pesquisa universitária, devia perceber como era peculiar a vida que havia escolhido para si: sequestrada em saletas de bibliotecas e em câmaras subterrâneas, perscrutando manuscritos de mortos, uma carreira consumida num insondável reino de poeira. Num ps em sua carta, ela revelava a maneira sarcástica como encarava seu trabalho. Conhecia meu nome, disse, e, se eu era o James Freeman que ela estava pensando, queria saber se não estaria disposto a participar de uma pesquisa que sua equipe estava fazendo sobre métodos de composição de escritores contemporâneos. Computador ou máquina de escrever, lápis ou caneta, caderno ou folhas soltas, quantos rascunhos para concluir um livro. Sim, eu sei, acrescentou, coisas muito chatas. Mas é este o nosso trabalho no cnrs: tornar o mundo o mais chato possível.
Havia certa autozombaria em sua carta, mas havia também sofrimento, e fiquei um tanto surpreso ao saber que ela se recordava de Walker de modo tão nítido. Só o conhecera por duas semanas, nos tempos remotos de sua mocidade, e, no entanto, a amizade entre os dois deve ter aberto algo importante para ela, que modificou a forma como percebia a si mesma e que, pela primeira vez, a tinha impelido para um confronto direto com as profundezas do próprio coração. (p. 151).

Cécile Juin apareceu às quatro horas da tarde seguinte, entrou no bar do hotel andando a passos largos com uma pastinha de couro enfiada debaixo do braço esquerdo. A julgar pelas descrições feitas por Walker nas notas para Outono, seu corpo se expandira de forma dramática desde 1967. A menina de dezoito anos, magra e de ombros estreitos, agora era uma mulher de cinquenta e oito anos, redonda e cheia, com o cabelo castanho curto (tingido; algumas raízes grisalhas, visíveis quando ela apertou minha mão e sentou de frente para mim), um rosto ligeiramente enrugado, uma papada ligeiramente flácida, e os mesmos olhos alertas e penetrantes que Walker havia notado quando se encontraram pela primeira vez. Tinha um jeito talvez um pouco arisco, mas não era mais o feixe de nervos que tremia e roía as unhas o tempo todo, e que no passado deixava a mãe tão cheia de preocupações. Era uma mulher com total controle de si mesma, uma mulher que tinha percorrido uma distância muito grande ao longo dos anos, desde que Walker a conhecera. Alguns segundos depois que sentou, fiquei um pouco surpreso ao vê-la tirar um maço de cigarros e em seguida, à medida que os minutos iam passando, fiquei duplamente surpreso ao saber que ela fumava sem parar, tinha uma tosse profunda e surda, e a voz rascante de contralto de um veterano do tabaco. Quando o garçom chegou à nossa mesa e nos perguntou o que queríamos, ela pediu um uísque. Puro. Pedi o mesmo para mim.
Eu havia me preparado para uma mulher de ar professoral, excêntrica e afetada. Cécile podia ter lá suas excentricidades, mas a mulher que conheci naquele dia era simples, engraçada, simpática. Vestia-se de maneira simples mas elegante (um sinal de confiança, achei, um sinal de autorrespeito) e, embora não* fosse alguém que desse muita bola para batom ou esmalte de unhas, tinha um ar perfeitamente feminino, em seu conjuntinho cinzento de lã — com pulseiras de prata e uma echarpe vistosa, multicolorida, enrolada no pescoço. No decorrer de nossa longa conversa de duas horas, descobri que ela fizera quinze anos de psicanálise (dos vinte aos trinta e cinco anos de idade), casara e se divorciara, casara de novo com um homem vinte anos mais velho do que ela (o marido morreu em 1999) e que não tinha filhos. Sobre esse último ponto, comentou: Alguns remorsos, sim, mas a verdade é que provavelmente eu teria sido uma mãe horrível. Sem aptidão, entende? (p. 152 e 153).

Conforme prometido, ela se emocionou e desatou a chorar. Fiquei comovido ao ver que Cécile compreendia a si própria o bastante para ser capaz de prever aquelas lágrimas, mas, embora ela soubesse que as lágrimas estavam para vir, não houve nada de forçado ou premeditado. Eram lágrimas genuínas, espontâneas, e, ainda que eu mesmo já as esperasse, sinceramente senti pena dela. (p. 153).

Quais são meus sentimentos em relação a esse homem? São complicados, ambíguos, misturam compaixão e indiferença, amizade e cautela, admiração e perplexidade. R. B. tem muitas qualidades excelentes. Inteligência elevada, boas maneiras, riso fácil, generosidade. Depois do acidente com papai, ele entrou em cena e se tornou nosso principal apoio moral, a pedra sobre a qual nos amparamos durante muitos anos. Foi um santo com mamãe, um companheiro cavalheiresco, solícito e prestativo, sempre presente nos momentos de dificuldade.
Quanto a mim, que não tinha nem doze anos quando nosso mundo desmoronou, quantas vezes ele me tirou dos períodos de apatia com seus incentivos e elogios, com seu orgulho por minhas minguadas realizações, com sua atitude indulgente* em relação aos meus sofrimentos de adolescente? Tantos atributos positivos, tanta coisa para eu me sentir grata, e, no entanto, continuo a resistir a ele. Será que tem algo a ver com as nossas brigas amargas de maio de 68, aquelas semanas frenéticas de maio quando estávamos em guerra perpétua um contra o outro, abrindo entre nós um fosso que nunca mais foi preenchido? Talvez. Mas gosto de pensar em mim mesma como uma pessoa que não guarda rancor, que é capaz de perdoar os outros — e, bem lá no fundo, acredito que ele foi perdoado muitos anos atrás. Perdoado porque rio quando penso agora naquele tempo e não sinto a menor raiva. Em vez disso, o que sinto é dúvida, e isso foi uma coisa que começou a tomar conta de mim muitos meses antes — ainda no outono, quando me apaixonei por Adam Walker. (p. 159).

São comentários batidos e convencionais, talvez, mas sinto que ele tem boa intenção, e quem sou eu para desdenhar gestos bem-intencionados de simpatia sincera? A verdade é que estou comovida. (p. 160).

Não, não se trata de não poder mais ter filhos. Agora estou velha demais para isso, mesmo que eu quisesse engravidar. Tem mais a ver com a perda do meu lugar como mulher, com sentir-me excluída da classe da feminilidade. Durante quarenta anos, tive orgulho de sangrar. Suportei a maldição com a consciência feliz de que estava compartilhando uma experiência com todas as mulheres do planeta. Agora fui largada à deriva, castrada. Dá a sensação de ser o início do fim. Uma mulher na pós-menopausa hoje, uma coroa encarquilhada amanhã, e depois a sepultura. Estou abalada demais até para chorar. (p. 161).

Fiquei totalmente humilhada com minha inépcia, com o suor que porejou de mim e encharcou minhas roupas, com os enxames de mosquitos que dançavam ao redor de minha cabeça, por meus frequentes apelos para parar e descansar, pela sola escorregadia de minhas sandálias, que me fez cair não uma vez nem duas, mas muitas vezes seguidas. Mas ainda pior, muito pior do que minhas triviais agruras físicas, era a vergonha de ver Samuel à minha frente, a vergonha de ver Samuel levar minha mala em cima da cabeça, minha mala pesadíssima, sobrecarregada com o peso de livros a mais e desnecessários, e como não enxergar, naquela imagem de um negro carregando os pertences de uma mulher branca em cima da cabeça, os horrores do passado colonial, as atrocidades do Congo e da África francesa, os séculos de aflição... (p. 164).

Apesar de meus esforços, pude ver a decepção em seus olhos quando entrei na sala uma hora depois — o primeiro olhar após tantos anos e o triste reconhecimento de que a jovem de muito tempo antes se transformara numa desmazelada mulher no fim da meia-idade, em sua pós-menopausa e nem um pouco atraente.
*Infelizmente — não, acho que quero dizer felizmente — a decepção foi recíproca. No passado, eu o achava uma figura sedutora, bonita, de um modo meio bruto, algo próximo de uma encarnação ideal da confiança e do poder masculinos. R. B. nunca foi um homem magro, mas, desde a última vez que eu o vi, anos atrás, ele ganhou uma considerável quantidade de peso, um caminhão de quilos excedentes, e, quando se levantou para me cumprimentar (vestindo calção, sem camisa, sem sapato e sem meia), fiquei espantada de ver como sua barriga havia aumentado. Agora ele tem uma barriga igual a uma bola grande para fisioterapia, e, como a maior parte dos cabelos dele se foram, seu crânio me fez lembrar uma bola de vôlei. Uma imagem ridícula, eu sei, mas a cabeça da gente vive engendrando seus absurdos peculiares, e, quando ele se levantou e se aproximou de mim, o que vi foi isto: um homem formado por duas esferas, uma bola grande para fisioterapia e uma bola de vôlei. Portanto, ele está muito maior, mas não parece uma baleia, não é balofo nem cheio de pelancas — só grande. A pele ao redor da barriga, na verdade, é bastante firme, e, a não ser pelas pregas carnudas em torno dos joelhos e do pescoço, ele parece em forma, para um homem de sua idade.
Um instante depois que vi isso, o olhar desalentado desapareceu de seus olhos. Com todo o autocontrole de um diplomata experiente, R. B. abriu um sorriso, abriu os braços e me abraçou. É um milagre, disse ele. (p. 164 e 165).

Eu já estava em pé àquela altura, já estava atravessando a sala, já estava chorando. Na hora em que ia chegar ao corredor, me virei para dar uma última olhada no homem com quem minha mãe quase havia casado, o homem que havia me pedido para ser sua mulher, e lá estava ele, sentado de costas para mim, debruçado sobre seu prato, enfiando garfadas de comida na boca. Indiferença total. Eu nem tinha saído da casa e já tinha sido banida de sua mente. (p. 176).
Um campo desolado se estendia à minha frente, um campo árido e poeirento, coalhado de pedras cinzentas de diversos formatos e tamanhos, e, espalhados entre as pedras naquele campo, havia cinquenta ou sessenta homens e mulheres, cada um com um martelo numa das mãos e uma talhadeira na outra, que batiam nas pedras até que elas se partissem em duas, em seguida batiam nas pedras menores até que elas também se partissem em duas, e depois batiam nas pedras menores ainda até que elas ficassem reduzidas a cascalho. Cinquenta ou sessenta homens e mulheres agachados naquele campo, com martelos e talhadeiras nas mãos, batendo nas pedras enquanto o sol batia em seus corpos, sem nenhuma sombra em parte alguma, e o suor rebrilhava em todos os rostos.

Fiquei parada olhando para eles durante um bom tempo. Fiquei olhando e ouvindo e me perguntei se já tinha visto algo assim. Era o tipo de trabalho que em geral associamos a prisioneiros, pessoas acorrentadas, mas aquelas pessoas não estavam acorrentadas. Estavam trabalhando, estavam ganhando dinheiro, estavam se mantendo vivas. A música das pedras era requintada e inacreditável, a música de cinquenta ou sessenta martelos estalando, cada um se movendo na sua velocidade própria, cada um encerrado na sua própria cadência, e juntos formavam uma harmonia rebelde, altiva, um som que penetrou em meu corpo e que ali permaneceu por muito tempo depois que fui embora, e até agora, sentada no avião, cruzando o oceano, ainda posso ouvir os estalidos daqueles martelos* dentro da minha cabeça. Aquele som estará sempre comigo. Pelo resto da vida, não importa onde eu esteja, não importa o que eu faça, estará sempre comigo. (p. 177 e 178).