segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Eliane Tonello e seus troféus


Eu e Eliane Tonello, minha querida colega de escrita. Destaque nos troféus e medalhas conquistados ao longo dos nossos trabalhos de oficina. Parabéns pelas conquistas. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

José Saramago: Caim (trechos)


Quando a caravana chegou à povoação donde havia saído semanas antes para fazer comércio emprestaram-lhes uma tenda e umas esteiras onde dormissem, e foi graças a essa e outras temporadas de estabilidade de vida que adão pôde, enfim, aprender a cavar e a lavrar a terra, a lançar sementes ao rego, até chegar à sublime arte da poda, essa que nenhum senhor, nenhum deus havia sido capaz de inventar. Começou por trabalhar com ferramentas que lhe emprestavam, depois foi juntando os seus próprios aprestos e ao cabo de uns poucos anos já era considerado pelos vizinhos como um bom agricultor. Os tempos do jardim do éden e da caverna no deserto, os espinhos e os cardos, o riacho de águas turvas, foram-se esfumando na memória até aparecerem algumas vezes como gratuitos inventos não vividos, nem sequer sonhados, mas intuídos como algo que teria sido outra vida, outro ser, outro diferente destino. É certo que nas recordações de eva havia um lugar reservado para azael, o querubim que tinha infringido as ordens do senhor para salvar de morte certa as suas obras, mas esse era um segredo seu, a ninguém confiado. E houve o dia em que adão pôde comprar um pedaço de terra, chamar-lhe sua e levantar, encostada a uma colina, uma casa de toscos adobes, aí onde já poderiam nascer os seus três filhos, Caim, Abel e set, todos eles, no momento próprio das suas vidas, gatinhando entre a cozinha e o salão. E também entre a cozinha e o campo, porque os dois mais velhos, quando já cresciditos, com a ingénua astúcia da sua pouca idade, usavam de todos os pretextos válidos e menos válidos para que o pai os levasse consigo, montados no burro da família, para o seu local de trabalho. Cedo se viu que as vocações dos dois pequenos não coincidiam. Enquanto Abel preferia a companhia das ovelhas e dos cordeiros, as alegrias de Caim iam todas para as enxadas, as forquilhas e as gadanhas, um, fadado para abrir caminho na pecuária, outro, para singrar na agricultura. Há que reconhecer que a distribuição da mão-de-obra doméstica era absolutamente satisfatória, uma vez que cobria por inteiro os dois mais importantes sectores da economia da época. Era voz unânime, entre os vizinhos, que aquela família tinha futuro. E ia tê-lo, como em pouco tempo se haveria de ver, com a sempre indispensável ajuda do senhor, que para isso está. (p. 17).

Não teve sonhos nem pesadelos, dormiu como se supõe que deverá dormir uma pedra, sem consciência, sem responsabilidade, sem culpa, porém, ao acordar, à primeira luz da manhã, as suas palavras foram, Matei o meu irmão. Se os tempos fossem outros, talvez tivesse chorado, talvez se tivesse desesperado, talvez tivesse dado punhadas no peito e na cabeça, mas sendo as coisas o que são, praticamente o mundo só agora foi inaugurado, faltam-nos ainda muitas palavras para que comecemos a tentar dizer quem somos e nem sempre daremos com as que melhor o expliquem, contentou-se com repetir as que havia dito até que deixaram de significar e não foram mais que uma série de sons inconexos, uns balbuceios sem sentido. Foi então que percebeu que afinal havia sonhado, não um sonho precisamente, mas uma imagem, a sua, regressando a casa e encontrando o irmão no vão da porta, à sua espera. Assim o recordará durante toda a vida como se tivesse feito as pazes com o seu crime e não houvesse mais remorso que sofrer. Saiu da barraca e aspirou profundamente o ar frio. (p. 22).

Por baixo das palavras que dizes percebo que há outras que calas, Sim, por exemplo, essa tua marca não é de nascença, não a fizeste a ti próprio, nada do que disseste aqui é verdadeiro, Pode ser que a minha verdade seja para ti mentira, Pode ser, sim, a dúvida é o privilégio de quem viveu muito, será por isso que não conseguiste convencer-me a aceitar como certezas o que para mim mais se parece a falsidades, Quem és tu, perguntou Caim, Cuidado, rapaz, se me perguntas quem sou estarás a reconhecer o meu direito a querer saber quem és, Nada me obrigará a dizê-lo, Vais entrar nesta cidade, vais ficar aqui, mais cedo ou mais tarde tudo se saberá, Só quando tenha de ser e não por mim, Diz-me, ao menos, como te chamas, Abel é o meu nome, disse Caim.  Enquanto o falso Abelvai andando em direcção à praça onde, no dizer do velho, se encontrará com o seu destino, atendamos à pertinentíssima observação de alguns leitores vigilantes, dos sempre atentos, que consideram que o diálogo que acabámos de registar como acontecido não seria historicamente nem culturalmente possível, que um lavrador de poucas e já nenhumas terras, e um velho de quem não se conhecem ofício nem benefício, nunca poderiam pensar e falar assim. Têm razão esses leitores, porém, a questão não estará tanto em dispor ou não dispor de ideias e vocabulário suficiente para as expressar, mas sim na nossa própria capacidade de admitir, que mais não seja por simples empatia humana e generosidade intelectual, que um camponês das primeiras eras do mundo e um velho com duas ovelhas atadas a um baraço, apenas com o seu limitado saber e uma linguagem que ainda estaria a dar os primeiros passos, fossem impelidos pela necessidade a provar maneiras de expressar premonições e intuições aparentemente fora do seu alcance. Que eles não disseram aquelas palavras, é mais do* que óbvio, mas as dúvidas, as suspeitas, as perplexidades, os avanços e recuos da argumentação, estiveram lá. O que fizemos foi simplesmente passar ao português corrente o duplo e para nós irresolúvel mistério da linguagem e do pensamento daquele tempo. Se o resultado é coerente agora, também o seria na altura porque, ao final, almocreves somos e pela estrada andamos. Todos, tanto os sábios como os ignorantes. (p. 24 e 25).

Retirou-se o enviado para ir dar parte de que o pisador de barro Abeljá se encontrava ali e ao cuidado das escravas. Conduzido por elas a um quarto separado, Caim foi despido e logo lavado dos pés à cabeça com água tépida. O contacto insistente e minucioso das mãos das mulheres provocou-lhe uma erecção que não pôde reprimir, supondo que tal proeza seria possível. Elas riram e, em resposta,redobraram de atenções para com o órgão erecto, a que, entre novas risadas, chamavam flauta muda, o qual de repente havia saltado nas suas mãos com a elasticidade de uma cobra. O resultado, vistas as circunstâncias, era mais do que previsível, o homem ejaculou de repente, em jorros sucessivos que, ajoelhadas como estavam, as escravas receberam na cara e na boca. Um súbito relâmpago de lucidez iluminou o cérebro de Caim, para isto o tinham ido buscar à pisa do barro, mas não para dar gosto a simples escravas que outras satisfações próprias da sua condição deveriam ter. O aviso prudente do olheiro dos alvenéis caíra em cesto roto, Caim assentara o pé na armadilha para onde a dona do palácio o viera empurrando suavemente, sem precipitações, quase sem dar por tal, como se estivesse distraída por uma nuvem que passava, a pensar noutra coisa. A demora do golpe final fora propositada para dar tempo a que a semente lançada à terra como por acaso pudesse germinar por si mesma e florescer. Quanto ao fruto, estava claro que já não teria de esperar muito para ser colhido. As escravas pareciam não ter pressa, concentradas agora em extrair as últimas gotas do pénis de Caim que levavam à boca na ponta de um dedo, uma após a outra, com delícia. Tudo acaba, porém, tudo tem o seu termo, uma túnica lavada cobriu a nudez do homem, é hora, palavra sobre todas anacrónica nesta bíblica história, de ser conduzido à presença da dona do palácio, que lhe dará destino. O enviado esperava no vestíbulo, um simples olhar bastou-lhe para adivinhar o que se havia passado durante o banho, mas não se escandalizou, é que os enviados, por razões de ofício, vêem muito mundo, não há nada que os surpreenda. Além disso, como já nesta época era sabido, a carne é supinamente fraca, e não tanto por sua culpa, pois o espírito, cujo dever, em princípio, seria levantar uma barreira contra todas as tentações, é sempre o primeiro a ceder, a içar a bandeira branca da rendição. O enviado sabia aonde estava levando o pisador de barro Abel, aonde e para quê, mas não o invejava, ao contrário do episódio lúbrico das escravas, que, esse sim, lhe perturbava a circulação do sangue. (p. 29).

As escravas, livres de freios morais, haviam rido de puro contentamento, quase com inocência, enquanto se divertiam a manipular o corpo do homem, haviam participado num jogo erótico de que conheciam todos os preceitos e infracções, ao passo que aqui, nesta antecâmara onde nenhum som exterior penetra, lilith e caim parecem dois esgrimistas que apuram as espadas para um duelo de morte. (p. 30).

Também caim se pergunta se não será hora de fugir daqui antes que seja demasiado tarde, mas a pergunta é ociosa, de mais sabe ele que não fugirá, dentro daquele quarto há uma mulher que parece desfrutar lançando-lhe sucessivas negaças, mas que um dia destes lhe dirá, Entra, e ele entrará, e, entrando, passará de uma prisão a outra. Não nasci para isto, pensa caim. Também não havia nascido para matar o seu próprio irmão, e apesar disso tinha-o deixado cadáver no meio do campo com os olhos e a boca cobertos de moscas, a ele, Abel, que também para isso não nascera. Caim dá voltas à vida na sua cabeça e não lhe encontra explicação, veja-se esta mulher que, não obstante estar enferma de desejo, como é fácil perceber, se compraz em ir adiando o momento da entrega, palavra por outro lado altamente inadequada, porque lilith, quando finalmente abrir as pernas para se deixar penetrar, não estará a entregar-se, mas sim a tratar de devorar o homem a quem disse, Entra. (p. 31).

Caim já entrou, já dormiu na cama de lilith, e, por mais incrível que nos pareça, foi a sua própria falta de experiência de sexo que o impediu de se afogar no vórtice de luxúria que num só instante arrebatou a mulher e a fez voar e gritar como possessa. Rangia os dentes, mordia a almofada, logo o ombro do homem, cujo sangue sorveu. Aplicado, caim esforçava-se sobre o corpo dela, perplexo por aqueles desgarros de movimentos e vozes, mas, ao mesmo tempo, um outro caim que não era ele observava o quadro com curiosidade, quase com frieza, a agitação irreprimível dos membros, as contorções do corpo dela e do seu próprio corpo, as posturas que a cópula, ela mesma, solicitava ou impunha, até ao acme dos orgasmos. Não dormiram muito nessa primeira noite os dois amantes. Nem na segunda, nem na terceira, nem em todas as que se seguiram. Lilith era insaciável, as forças de caim pareciam inesgotáveis, insignificante, quase nulo, o intervalo entre duas erecções e respectivas ejaculações, bem poderia dizer-se que estavam, um e outro, no paraíso do alá que há-de ser. Numa noite dessas, noah, o senhor da cidade e marido de lilith, a quem um escravo de confiança levara a notícia de que algo extraordinário se passava ali, entrou na antecâmara. Não era a primeira vez que o fazia. (p. 32).

Neste momento, apesar da porta fechada, a veemência das expansões eróticas dos dois parceiros atingia o pobre homem como sucessivas bofetadas, dando lugar, nele, ao nascimento súbito de um sentimento que não havia experimentado antes, um ódio desmedido ao cavaleiro que montava a égua lilith e a fazia relinchar como nunca. Mato-o, disse consigo noah, sem pensar nas consequências do acto, por exemplo, como iria reagir lilith se lhe matassem o amante preferido. Mato-os, insistia noah, ampliando agora o seu propósito, mato-o a ele e mato-a a ela. Sonhos, fantasias, delírios, noah não matará ninguém e terá ele próprio a sorte de escapar à morte sem fazer nada por isso. Do quarto já não chega agora qualquer som, mas isso não quer dizer que a festa dos corpos tenha terminado, os músicos só estão a descansar um pouco, não tardará que a orquestra ataque o baile seguinte, aquele em que a exaustão sucederá, até à noite seguinte, ao violento paroxismo final. Noah já se retirou, leva os seus projectos de vingança, que acaricia como se afagasse o corpo inacessível de lilith. Veremos como acabará tudo isto. Depois do que aí ficou descrito, é natural que a alguém lhe ocorra perguntar se caim não andará cansado, espremido até aos tutanos pela insaciável amante. Cansado está, espremido também, e pálido como se estivesse à beira de extinguir-se-lhe a vida. É certo que a palidez não é mais que a consequência da falta de sol, da privação do beneficioso ar livre que faz crescer as plantas e doura a pele da gente. De todo o modo, quem tivesse visto este homem antes de haver entrado no quarto de lilith, todo o seu tempo dividido entre a antecâmara e a cópula, sem dúvida diria, repetindo, sem o saber, as palavras do olheiro dos alvenéis, Está urna sombra, uma verdadeira sombra. Disto mesmo acabou por dar-se conta a principal responsável da situação, Andas com má cara, disse ela, Estou bem, respondeu caim, Estarás, mas a tua cara diz o contrário, Não tem importância, Tem-na, a partir de agora darás um passeio todos os dias, levas um escravo para que ninguém te importune, quero ver-te com a cara que tinhas quando te vi na pisa do barro, Não tenho mais vontade que a tua, senhora. (p. 33).

Qualquer um diria que a paz social e a paz doméstica reinavam finalmente no palácio, a todos envolvendo no mesmo amplexo fraternal. Não era assim, decorridos alguns dias caim havia chegado à conclusão de que, agora que lilith estava à espera de um filho, o seu tempo terminara. Quando a criança viesse ao mundo seria para toda a gente o filho de noah, e se ao princípio não iriam faltar as mais justificadas suspeitas e murmurações, o tempo, esse grande igualador, se encarregaria de limar umas e outras, sem contar que os futuros historiadores tomariam a seu cuidado eliminar da crónica da cidade qualquer alusão a um certo pisador de barro chamado Abel, ou caim, ou como diabo fosse o seu nome, dúvida esta que, só por si, já seria considerada razão suficiente para o condenar ao esquecimento, em definitiva quarentena, assim supunham eles, no limbo daqueles sucessos que, para tranquilidade das dinastias, não é conveniente arejar. Este nosso relato, embora não tendo nada de histórico, demonstra a que ponto estavam* equivocados ou eram mal-intencionados os ditos historiadores, caim existiu mesmo, fez um filho à mulher de noah, e agora tem um problema para resolver, como informar lilith de que é seu desejo partir. Confiava que a condenação ditada pelo senhor, Andarás errante e perdido pelo mundo, pudesse convencê-la a aceitar a sua decisão de ir-se. Afinal, foi menos difícil do que esperava, talvez também porque essa criança, formada por não mais que um punhado de células titubeantes, exprimisse já um querer e uma vontade, o primeiro efeito dos quais tivesse sido reduzir a louca paixão dos pais a um vulgar episódio de cama a que, como já sabemos, a história oficial nem sequer irá dedicar uma linha. Caim pediu a lilith um jumento e ela deu ordens para que lhe fosse entregue o melhor, o mais dócil, o mais robusto que houvesse nas estrebarias do palácio. (p. 37 e 38).

Felizmente para as pessoas sensíveis, dessas que sempre apartam os olhos dos espectáculos incómodos, sejam eles de que natureza forem, não houve interrogatórios nem torturas, o que talvez se tivesse devido à gravidez de lilith, pois, segundo a opinião de abalizadas autoridades locais, poderiam ser de mau agoiro para o futuro da criança em gestação, não só o sangue que inevitavelmente se derramaria, mas também os desabalados gritos dos torturados. Disseram essas autoridades, em geral parteiras de longa experiência, que os bebés, dentro das barrigas das mães, ouvem tudo quanto se passa cá fora. (p. 38).

Os cadáveres dos facinorosos ficarão pendurados ali mesmo onde se encontram até que deles não restem mais que os ossos, pois a sua carne é maldita, e a terra, se nela fossem sepultados, se revolveria em transe até vomitá-los, uma e muitas vezes. Nessa noite, lilith e caim dormiram juntos pela última vez. (p. 38).

Apesar da obscuridade cinzenta da antemanhã, via-se que os pássaros, não as amáveis criaturas aladas que já não tardarão muito tempo a soltar ao sol os seus cantos, mas as brutas aves de rapina, essas carnívoras que viajam de patíbulo em patíbulo, tinham começado o seu trabalho de limpeza pública nas partes expostas dos enforcados, as caras, os olhos, as mãos, os pés, a meia perna que a túnica não alcançava cobrir. Duas corujas, alarmadas pelo ruído das patas do jumento, alçaram voo dos ombros do escravo, num ténue rumor de seda só perceptível por ouvidos experientes. Introduziram-se em voo raso por uma viela estreita, ao lado do palácio, e desapareceram. Caim tocou o jumento com os calcanhares, atravessou a praça, pensando se também agora iria encontrar o velho com as duas cabras atadas por um baraço, e, pela primeira vez, perguntou-se quem seria a impertinente personagem, Talvez fosse o senhor, muito capaz disso é ele, com aquele gosto de aparecer de repente em qualquer parte, murmurou. Não queria pensar em lilith. Quando na sua desolada cama de porteiro despertou de um sono sobressaltado, constantemente interrompido, um súbito impulso quase o tinha levado a entrar no quarto para uma última palavra de despedida, para um último beijo, e quem sabe o que poderia suceder mais. Ainda estava a tempo. (p. 39).

Caim tocou outra vez o jumento e em pouco tempo encontrou-se em campo aberto. A cidade tornara-se numa mancha parda que, aos poucos, pela distância que ia aumentando, apesar do passo medido do asno, parecia afundar-se no chão. A paisagem era seca, árida, sem um fio de água à vista. Diante desta desolação era inevitável que caim recordasse a dura caminhada feita depois de o senhor o ter expulsado do fatídico vale onde o pobre Abel para sempre ficara. Sem nada para comer, sem uma sede de água salvo aquela que, por milagre, veio a cair finalmente do céu quando as forças da alma já de todo minguavam e as pernas ameaçavam ir-se abaixo a cada passo. Ao menos, desta vez não lhe faltará comida, os alforges vêm cheios até à boca, lembrança amorosa de lilith que, pelo visto, não nos saiu tão má dona de casa como pelos seus dissolutos costumes poderia pensar-se. O mal é que em todo o redor da paisagem não se vê ao menos uma sombra aonde acudir. A meio da manhã o sol já é puro fogo e o ar uma tremulina que nos faz duvidar do que os nossos olhos vêem. Caim disse, Melhor, assim não precisarei de desmontar para comer. O caminho subia e subia, e o jumento, que, bem vistas as coisas, de burro não tinha nada, avançava aos ziguezagues, ora para cá, ora para lá, supõe-se que devia ter aprendido o genial truque com as mulas, que nesta matéria de ascensões alpinas a sabem toda. Uns quantos passos mais e a subida acabou. E então, ó surpresa, ó pasmo, ó estupefacção, a paisagem que caim tinha agora diante de si era completamente diferente, verde de todos os verdes alguma vez vistos, com árvores frondosas e cultivos, reflexos de água, uma temperatura suave, nuvens brancas boiando no céu. Olhou para trás, a mesma aridez de antes, a mesma secura, ali nada havia mudado. Era como se existisse uma fronteira, um traço a separar dois países, Ou dois tempos, disse caim sem consciência de havê-lo dito, o mesmo que se alguém o estivesse pensando em seu lugar. Levantou a cabeça para olhar o céu e viu que as nuvens que se moviam na direcção donde viemos se detinham na vertical do chão e logo desapareciam por desconhecidas artes. Há que levar em consideração o facto de caim estar mal informado sobre questões cartográficas, poderia mesmo dizer-se que esta, de certo modo, é a sua primeira viagem ao estrangeiro, portanto é natural surpreender-se, outra terra, outra gente, outros céus e outros costumes. *Bem, tudo isso pode ser certo, mas o que ninguém me explica é a razão de as nuvens não poderem passar de lá para cá. A não ser, diz a voz que fala pela boca de caim, que o tempo seja outro, que esta paisagem cuidada e trabalhada pela mão do homem tivesse sido, em épocas passadas, tão estéril e desolada como a terra de nod. Então estamos no futuro, perguntamos nós, é que temos visto por aí uns filmes que tratam do assunto, e uns livros também. Sim, essa é a fórmula comum para explicar algo como o que aqui parece ter sucedido, o futuro, dizemos nós, e respiramos tranquilos, já lhe pusemos o rótulo, a etiqueta, mas, em nossa opinião, entender-nos-íamos melhor se lhe chamássemos outro presente, porque a terra é a mesma, sim, mas os presentes dela vão variando, uns são presentes passados, outros presentes por vir, é simples, qualquer pessoa perceberá. Quem dá mostras da mais profunda alegria é o jumento. Nascido e criado em terras de sequeiro, alimentado a palha e a cardos, com a água racionada ou quase, a visão que se lhe oferecia tocava o sublime. Pena não haver ali alguém que soubesse interpretar os movimentos das suas orelhas, essa espécie de telégrafo de bandeiras com que a natureza o dotara, sem pensar o afortunado bicho que chegaria o dia em que quereria expressar o inefável, e o inefável, como sabemos, é precisamente o que está para lá de qualquer possibilidade de expressão. Feliz vai também caim, já a sonhar com um almoço no campo, entre verduras, fugidios carreirinhos de água e passarinhos a sinfonizar nas ramagens. À mão direita do caminho, além, vê-se uma fila de árvores de bom porte que promete a melhor das sombras e das sestas. Para lá tocou caim o jumento. O sítio parecia ter sido inventado de propósito para refrigério de viajantes fatigados e respectivas bestas de carga. Paralela às árvores havia uma fileira de arbustos tapando o carreiro estreito que subia em direcção ao teso da colina. Aliviado do peso dos alforges, o jumento tinha-se entregado às delícias da erva fresca e de alguma rústica flor tresmalhada, sabores estes que jamais lhe tinham passado pela goela. Caim escolheu tranquilamente a ementa e ali mesmo comeu, sentado no chão, rodeado de inocentes pássaros que debicavam as migalhas, enquanto as recordações dos bons momentos vividos nos braços de lilith voltavam a aquecer-lhe o sangue. Já as pálpebras tinham começado a pesar-lhe quando uma voz juvenil, de rapaz, o fez sobressaltar, O pai, chamou o moço, e logo uma outra voz, de adulto de certa idade, perguntou, Que queres tu, isaac, Levamos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o sacrifício, e o pai respondeu, O senhor há-de prover, o senhor há-de encontrar a vítima para o sacrifício. E continuaram a subir a encosta. Ora, enquanto sobem e não sobem, convém saber como isto começou para comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar. (p. 40 e 41).

O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia da viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes. Chegando assim ao lugar de que o senhor lhe tinha falado, abraão construiu um altar e acomodou a lenha por cima dele. Depois atou o filho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar, Foi o senhor que o ordenou, foi o senhor que o ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe e peça-lhe perdão, Quem é você, Sou caim, sou o anjo que salvou a vida a isaac. Não, não era certo, caim não é nenhum anjo, anjo é este que acabou de pousar com um grande ruído de asas e que começou a declamar como um actor que tivesse ouvido finalmente a sua deixa, Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças nenhum mal, pois já vejo que és obediente ao senhor, disposto, por amor dele, a não poupar nem sequer o teu filho único, Chegas tarde, disse caim, se isaac não está morto foi porque eu o impedi. O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha para chegar aqui, ainda por cima não me tinham explicado bem qual destes montes era o lugar do sacrifício, se cá cheguei foi por um milagre do senhor, Tarde, disse caim, Vale mais tarde que nunca, respondeu o anjo com* prosápia, como se tivesse acabado de enunciar uma verdade primeira, Enganas-te, nunca não é o contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde, respondeu-lhe caim. O anjo resmungou, Mais um racionalista, e, como ainda não tinha terminado a missão de que havia sido encarregado, despejou o resto do recado, Eis o que mandou dizer o senhor, Já que foste capaz de fazer isto e não poupaste o teu próprio filho, juro pelo meu bom nome que te hei-de abençoar e hei-de dar-te uma descendência tão numerosa como as estrelas do céu ou como as areias da praia e eles hão-de tomar posse das cidades dos seus inimigos, e mais, através dos teus descendentes se hão-de sentir abençoados todos os povos do mundo, porque tu obedeceste à minha ordem, palavra do senhor. Estas, para quem não o saiba ou finja ignorá-lo, são as contabilidades duplas do senhor, disse caim, onde uma ganhou, a outra não perdeu, fora isso não compreendo como irão ser abençoados todos os povos do mundo só porque abraão obedeceu a uma ordem estúpida, A isso chamamos nós no céu obediência devida, disse o anjo. Coxeando da asa direita, com um mau sabor de boca pelo fracasso da sua missão, a celestial criatura foi-se embora, abraão e o filho também já lá vão a caminho do lugar onde os esperam os criados, e agora, enquanto caim ajeita os alforges no lombo do jumento, imaginemos um diálogo entre o frustrado verdugo e a vítima salva in extremis. Perguntou isaac, Pai, que mal te fiz eu para teres querido matar-me, a mim que sou o teu único filho, Mal não me fizeste, isaac, Então por que quiseste cortar-me a garganta como se eu fosse um borrego, perguntou o moço, se não tivesse aparecido aquele homem para segurar-te o braço, que o senhor o cubra de bênçãos, estarias agora a levar um cadáver para casa, A ideia foi do senhor, que queria tirar a prova, A prova de quê, Da minha fé, da minha obediência, E que senhor é esse que ordena a um pai que mate o seu próprio filho, É o senhor que temos, o senhor dos nossos antepassados, o senhor que já cá estava quando nascemos, E se esse senhor tivesse um filho, também o mandaria matar, perguntou isaac, O futuro o dirá, Então o senhor é capaz de tudo, do bom, do mau e do pior, Assim é, Se tu tivesses desobedecido à ordem, que sucederia, perguntou isaac, O costume do senhor é mandar a ruína, ou uma doença, a quem lhe falhou, Então o senhor é rancoroso, Acho que sim, respondeu abraão em voz baixa, como se temesse ser ouvido, ao senhor nada é impossível, Nem um erro ou um crime, Perguntou isaac, Os erros e os crimes sobretudo, Pai, não me entendo com esta religião, Hás-de entender-te, meu filho, não terás outro remédio, e agora devo fazer-te um pedido, um humilde pedido, Qual, Que esqueçamos o que se passou, Não sei se serei capaz, meu pai, ainda me vejo deitado em cima da lenha, amarrado, e o teu braço levantado, com a* faca a luzir, Não era eu quem estava ali, em meu perfeito juízo nunca o faria, Queres dizer que o senhor enlouquece as pessoas, perguntou isaac, Sim, muitas vezes, quase sempre, respondeu abraão, Fosse como fosse, quem tinha a faca na mão eras tu, O senhor havia organizado tudo, no último momento interviria, viste o anjo que apareceu, Chegou atrasado, O senhor teria encontrado outra maneira de te salvar, provavelmente até sabia que o anjo se ia atrasar e por isso fez aparecer aquele homem, Caim se chama ele, não esqueças o que lhe deves, Caim, repetiu abraão obediente, conheci-o ainda não eras nascido, O homem que salvou o teu filho de ser degolado e queimado no molho de lenha que ele próprio havia trazido às costas, Não o foste, meu filho, Pai, a questão, embora a mim me importe muito, não é tanto ter eu morrido ou não, a questão é sermos governados por um senhor como este, tão cruel como baal, que devora os seus filhos, Onde foi que ouviste esse nome, A gente sonha, pai. Estou a sonhar, disse também caim quando abriu os olhos. Havia adormecido em cima do jumento e de repente despertou. Estava no meio de uma paisagem diferente, com algumas árvores raquíticas dispersas e tão seca como a terra de nod, porém seca de areia, não de cardos. Outro presente, disse. Pareceu-lhe que este devia ser mais antigo que o anterior, aquele em que havia salvo a vida ao rapazito chamado isaac, e isto mostrava que tanto poderia avançar como voltar atrás no tempo, e não por vontade própria, pois, para falar francamente, sentia-se como alguém que mais ou menos, só mais ou menos, sabe onde está, mas não aonde se dirige. Este lugar, apenas para dar um exemplo das dificuldades de orientação que caim vem enfrentando, tinha todo o aspecto de ser um presente há muito passado, como se o mundo ainda se encontrasse nas últimas fases de construção e tudo tivesse um aspecto provisório. (p. 42, 43, e 44).

A curiosidade, porém, teve mais poder que a cautela. Disfarçou o melhor que foi capaz a boca dos alforges com ramas de árvores como se de comida para o animal se tratasse e, alea jacta est, rumou em direcção à torre. A medida que se aproximava, o rumor das vozes, primeiro ténue, ia crescendo e crescendo até se transformar em perfeita algazarra. Parecem malucos, doidos varridos, pensou caim. Sim, estavam doidos de desesperação porque falavam e não conseguiam entender-se, como se estivessem surdos e gritassem cada vez mais alto, inutilmente. Falavam línguas diferentes e em alguns casos riam-se e troçavam uns dos outros como se a língua de cada qual fosse mais harmoniosa e mais bela que as dos demais. O curioso do caso, e isto ainda não o sabia caim, é que nenhuma dessas línguas havia existido antes no mundo, todos os que aqui se encontram falavam de raiz um só idioma lá na sua terra e compreendiam-se sem a menor dificuldade. A sorte foi ter dado logo com um homem que falava hebraico, língua que lhe tinha calhado em sorte no meio da confusão criada e que caim já ia conhecendo, com gente a expressar-se, sem dicionários nem intérpretes, em inglês, em alemão, em francês, em espanhol, em italiano, em eusquera, alguns em latim e grego, e mesmo, quem o imaginaria, em português. Que desacordo foi esse, perguntou caim, e o homem respondeu, Quando nós viemos do oriente para assentar-nos aqui falávamos todos a mesma língua, E como se chamava ela, quis saber caim, Como era a única que havia não precisava de nome, era a língua, e mais nada, Que aconteceu depois, Alguém teve a ideia de fazer tijolos e cozê-los ao forno, E como os faziam, perguntou o antigo pisador de barro sentindo que estava com a sua gente, Como sempre os havíamos feito, com barro, areia e pedrinhas miúdas, para argamassa usámos o betume, E depois, Depois decidimos construir uma cidade com uma grande torre, essa que aí está, uma torre que chegasse ao céu, Para quê, perguntou caim, Para ficarmos famosos, E que aconteceu, por que está a construção parada, Porque o senhor veio vê-la e não gostou, Chegar ao céu é o desejo de todo o homem justo, o senhor até deveria dar uma ajuda à obra, Era bom, era, mas não foi assim, Então que fez ele, Disse que depois de nos termos posto a fazer a torre ninguém mais nos poderia impedir de fazer o que quiséssemos, por isso confundiu-nos as línguas e a partir daí, como vês, deixámos de entender-nos, E agora, perguntou caim, Agora não haverá cidade, a torre não será terminada e nós, cada um com a sua língua, não poderemos viver juntos como até agora, À torre, o melhor será deixá-la ficar como recordação, tempo será em que se farão em toda a parte excursões para vir ver as ruínas, Provavelmente nem ruínas haverá, está aí quem ouviu dizer ao senhor que, quando já cá não estivéssemos, mandaria um grande vento para destruí-la, e o que o senhor diz, faz, O* ciúme é o seu grande defeito, em vez de ficar orgulhoso dos filhos que tem, preferiu dar voz à inveja, está claro que o senhor não suporta ver uma pessoa feliz, Tanto trabalho, tanto suor, para nada, Que pena, disse caim, daria uma bonita obra, Pois, disse o homem, agora com os olhos gulosos fitos no burro. Teria sido para ele uma conquista fácil se pedisse o auxílio dos companheiros, mas o egoísmo pôde mais que a inteligência. Quando esboçou um movimento para deitar a mão ao cabresto, o jumento, aquele mesmo que havia saído das cavalariças de noah com reputação de dócil, fez uma espécie de passo de baile com as patas da frente e, virando os quartos traseiros, disparou uma parelha de coices que atirou com o pobre diabo de pantanas. Embora tivesse actuado em legítima defesa, o jumento teve imediatamente a consciência de que as suas boas razões não seriam admitidas pela massa que, bradando em todas as línguas havidas e por haver, avançava para saquear os alforges e transformá-lo a ele em almôndegas. Sem precisar do estímulo dos calcanhares do cavaleiro arrancou num trote vivo e logo num galope em tudo inesperados, vista a sua natureza asinina, de animal seguro mas a quem, em princípio, não se podia pedir pressa. Os assaltantes tiveram de resignar-se a vê-lo desaparecer no meio de uma nuvem de pó, a qual viria a ter ainda outra importante consequência, a de fazer passar caim e a sua montada a outro presente futuro neste mesmo lugar, mas limpo dos ousados rivais do senhor, dispersos pelo mundo porque já não tinham uma língua comum que os mantivesse unidos. Imponente, majestosa, a torre lá estava, na beirinha do horizonte, ainda que inacabada parecia capaz de desafiar os séculos e os milénios, mas, de repente, estava e deixou de estar. Cumpria-se o que o senhor havia anunciado, que enviaria um grande vento que não deixaria pedra sobre pedra nem tijolo sobre tijolo. A distância não permitia a caim perceber a violência do furacão soprado pela boca do senhor nem o estrondo dos muros desabando uns após outros, os pilares, as arcadas, as abóbadas, os contrafortes, por isso a torre parecia desmoronar-se em silêncio, como um castelo de cartas, até que tudo acabou numa enorme nuvem de poeira que subia para o céu e não deixava ver o sol. Muitos anos depois se dirá que caiu ali um meteorito, um corpo celeste, dos muitos que vagueiam pelo espaço, mas não é verdade, foi a torre de babel, que o orgulho do senhor não consentiu que terminássemos. A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele. (p. 45 e 46).

O caminho do engano nasce estreito, mas sempre encontrará quem esteja disposto a alargá-lo, digamos que o engano, repetindo a voz popular, é como o comer e o coçar, a questão é começar. Com a gente que aguardava o regresso de moisés do monte sinai estava um irmão dele chamado aarão, a quem, ainda no tempo da escravidão dos israelitas no egipto, haviam nomeado sumo sacerdote. (p. 53).

Não bastavam sodoma e gomorra arrasadas pelo fogo, aqui, no sopé do monte sinai, ficara patente a prova irrefutável da profunda maldade do senhor, três mil homens mortos só porque ele tinha ficado irritado com a invenção de um suposto rival em figura de bezerro, Eu não fiz mais que matar um irmão e o senhor castigou-me, quero ver agora quem vai castigar o senhor por estas mortes, pensou caim, e logo continuou, Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito. Algum do pó de ouro soprado pelo vento manchava as mãos de caim. Lavou-as num charco como se cumprisse o ritual de sacudir dos pés a poeira de um lugar onde tivesse sido mal recebido, montou o jumento e foi-se embora. Havia uma nuvem escura no alto do monte sinai, ali estava o senhor.  Por motivos que não está nas nossas mãos dilucidar, simples repetidores de histórias antigas que somos, passando continuamente da credulidade mais ingénua ao cepticismo mais resoluto, caim viu-se metido no que, sem exagero, poderíamos chamar uma tempestade, um ciclone do calendário, um furacão do tempo. Durante alguns dias, depois do episódio do bezerro de ouro e da sua curta existência, sucederam-se com incrível rapidez as suas já conhecidas mudanças de presente, surgindo do nada e precipitando-se no nada em forma de imagens soltas, desconexas, sem continuidade nem relação entre elas, em alguns casos mostrando o que parecia serem batalhas de uma guerra infinita cuja causa primeira já ninguém recordasse, em outros como uma farsa grotesca invariavelmente violenta, uma espécie de contínuo guinhol, áspero, rangente, obsessivo. Uma dessas múltiplas imagens, a mais enigmática e fugidia de todas, pôs-lhe diante dos olhos uma enorme extensão de água onde, até ao horizonte, não se alcançava ver nem uma ilha nem um simples barco à vela com os seus pescadores e as suas redes. Agua, só água, água por toda a parte, nada mais que água afogando o mundo. (p. 54).

Como fica sobremaneira demonstrado, o senhor, além de estar dotado por natureza de uma excelente cabeça para guarda-livros e ser rapidíssimo em cálculo mental, está o que se chama rico. Ainda assombrado pela abundância em gado, escravas e ouro, frutos da batalha contra os madianitas, caim pensou, Está visto que a guerra é um negócio de primeira ordem, talvez seja mesmo o melhor de todos a julgar pela facilidade com que se adquirem do pé para a mão milhares e milhares de bois, ovelhas, burros e mulheres solteiras, a este senhor terá de chamar-se um dia deus dos exércitos, não lhe vejo outra utilidade, pensou caim, e não se enganava. É bem possível que o pacto de aliança que alguns afirmam existir entre deus e os homens não contenha mais que dois artigos, a saber, tu serves-nos a nós, vocês servem-me a mim. Do que não há dúvida é de que as coisas estão muito mudadas. Antigamente o senhor aparecia à gente em pessoa, por assim dizer em carne e osso, via-se que sentia mesmo certa satisfação em exibir-se ao mundo, que o digam adão e eva, que da sua presença se beneficiaram, que o diga também caim, embora em má ocasião, pois as circunstâncias, referimo-nos, claro está, ao assassínio de Abel, não eram as mais adequadas para especiais demonstrações de contentamento. Agora, o senhor esconde-se em colunas de fumo, como se não quisesse que o vissem. Em nossa opinião de simples observadores dos acontecimentos andará envergonhado por algumas tristes figuras que tem feito, como foi o caso das inocentes crianças de sodoma que o fogo divino calcinou. O lugar é o mesmo, mas o presente mudou. Caim tem diante dos olhos a cidade de jericó, onde, por razões de segurança militar, não lhe haviam permitido que entrasse. (p. 57).

Naquela época as maldições eram autênticas obras-primas literárias, tanto pela força da intenção como pela expressão formal em que se condensavam, não fosse josué a crudelíssima pessoa que foi e hoje até poderíamos tomá-lo como modelo estilístico, pelo menos no importante capítulo retórico das pragas e maldições tão pouco frequentado pela modernidade. Dali o exército dos israelitas marchou sobre a cidade de ai, que pelo dorido nome que lhe deram não perca, onde, depois de sofrer a humilhação de uma derrota, ficou a saber que com o senhor deus não se brinca. Foi o caso que um homem chamado acan se tinha apoderado em jericó de umas quantas coisas que estariam condenadas à destruição e, em consequência, o senhor ficou profundamente irritado com os israelitas, Isto não se faz, gritou ele, quem se atrever a desobedecer às minhas ordens, a si mesmo se estará condenando. Entretanto, josué, induzido por informações erradas dos espiões que havia enviado a ai, cometera o erro de não valorar devidamente a força do adversário e despachou menos de três mil homens para a batalha, os quais, atacados e perseguidos pelos habitantes da cidade, se viram obrigados a fugir. (p. 59).

Que o senhor educou mal esta gente desde o princípio, vê-se pelas implorações, pelas queixas, pelas perguntas de josué, Por que nos fizeste atravessar o Jordão, foi para nos entregares nas mãos dos amorreus e nos destruíres, melhor seria que tivéssemos ficado do outro lado do rio. O desproporcionado exagero era evidente, este mesmo josué que costuma deixar atrás de si um rasto de muitos milhares de inimigos mortos em cada batalha perde a cabeça quando lhe morre a insignificância de trinta e seis soldados, que tantos foram os que ficaram na tentativa de assalto a ai. (p. 59).

A voz soou mais forte, Foi por isso que eles não puderam resistir aos seus inimigos, porque também ficaram condenados à destruição, e eu não estarei mais do vosso lado enquanto não destruírem o que, estando destinado à destruição, se encontra em vosso poder, levanta-te, pois, josué, e vai convocar o povo, aquele homem que, tendo sido apontado, lhe forem encontradas coisas que estavam condenadas à destruição será queimado com tudo o que lhe pertença, família e bens. No dia seguinte, de manhã cedo, josué deu ordem para que o povo se apresentasse diante dele, tribo por tribo. De pergunta em pergunta, de indagação em indagação, de denúncia em denúncia, acabou por ir parar a um homem chamado acan, descendente de carmi, de zabedi e de zera da tribo de judá. Então, josué, com palavras suaves, melífluas, disse-lhe, Meu filho, para maior glória de deus, conta-me toda a verdade, aqui, diante do senhor, diz-me o que fizeste, não me escondas nada. Caim, que assistia no meio dos outros, pensou, Vão-lhe perdoar com certeza, josué falaria doutra maneira se a ideia fosse condená-lo. (p. 60).

Caim não sabe onde se encontra, não percebe se o jumento o estará levando por uma das tantas vias do passado ou por algum estreito carreiro do futuro, ou se, simplesmente, vai andando por um qualquer outro presente que ainda não se deu a conhecer. Olha o chão seco, os cardos espinhosos, as raras ervas torriscadas pelo sol, mas chão seco, cardos e ervas queimadas é o que mais se vê por estas inóspitas paragens. Caminhos à vista, nem sinal deles, desde aqui se poderia chegar a todo o lado ou a lado nenhum, como destinos que se renovassem ou algum outro que tivesse decidido esperar melhor ocasião para manifestar-se. O jumento pisa firme, parece ele que sabe aonde se dirige, como se seguisse um rasto, aquele sempre confuso ir e vir de marcas de sandálias, cascos ou pés descalços que é preciso observar com atenção para não estar a voltar para trás quem imaginasse avançar, sem desvios, directo à estrela polar. Caim, que no passado, além de incipiente agricultor, foi pisador de barro, é agora um diligente rastreador que, mesmo quando indeciso, tenta não perder o fio de quem por aqui passou antes, tivesse ou não achado um lugar onde deter-se e aí dizer consigo mesmo, Cheguei. Bons olhos terá caim, não duvidamos, mas não tão bons que neste momento lhe permitam reconhecer, entre os múltiplos sinais, as próprias marcas dos seus pés, a depressão causada por um calcanhar ou o arrastamento provocado por uma perna cansada. Caim passou por aqui, isso sim, é certo. Vai descobri-lo quando de súbito lhe aparecer o que resta da casa arruinada onde em tempos se resguardou da chuva e onde não poderia abrigar-se hoje porque o que ainda havia de tecto caiu já, agora não se vêem mais que uns troços de muros esboroados que, com a passagem de mais dois ou três invernos, definitivamente se confundirão com o chão onde se erguiam, terra que tornou à terra, pó que tornou ao pó. (p. 64).

No que se refere a caim, é natural que não se tenha esquecido do caminho para chegar ao palácio. Quando ali entrar, estará em seu poder mudar de rumo, abandonar os outros presentes que o esperam antes do hoje e depois do hoje, e regressar a este passado por um dia que seja, ou dois, talvez mais, mas não para todo o que lhe falte viver, pois o seu destino ainda está por cumprir, como a seu tempo se saberá. (p. 65).

Que andaste a fazer durante todos estes anos, foi a pergunta e caim respondeu, Vi coisas que ainda não aconteceram, Queres dizer que adivinhaste o futuro, Não adivinhei, estive lá, Ninguém pode estar no futuro, Então não lhe chamemos futuro, chamemos-lhe outro presente, outros presentes, Não percebo, Também a mim ao* princípio me custou a compreender, mas depois vi que, se estava lá, e realmente estava, era num presente que me encontrava, o que havia sido futuro tinha deixado de o ser, o amanhã era agora, Ninguém vai acreditar em ti, Não penso dizer isto a mais ninguém, O teu mal é que não trazes contigo nenhuma prova, um objecto qualquer desse outro presente, Não foi um presente, mas vários, Dá-me um exemplo. Então caim contou a lilith o caso de um homem chamado abraão a quem o senhor ordenara que lhe sacrificasse o próprio filho, depois o de uma grande torre com a qual os homens queriam chegar ao céu e que o senhor com um sopro deitou abaixo, logo o de uma cidade em que os homens preferiam ir para a cama com outros homens e do castigo de fogo e enxofre que o senhor tinha feito cair sobre eles sem poupar as crianças, que ainda não sabiam o que iriam querer no futuro, a seguir o de um enorme ajuntamento de gente no sopé de um monte a que chamavam sinai e a fabricação de um bezerro de ouro que adoraram e por isso morreram muitos, o da cidade de madian que se atreveu a matar trinta e seis soldados de um exército denominado israelita e cuja população foi exterminada até à última criança, o de uma outra cidade, chamada jericó, cujas muralhas foram deitadas abaixo pelo clangor de trombetas feitas de cornos de carneiro e depois destruído tudo o que tinha dentro, incluindo, além dos homens e mulheres, novos e velhos, também os bois, as ovelhas e os jumentos. Foi isto o que eu vi, rematou caim, e muito mais para que não me chegam as palavras, Crês realmente que o que acabas de contar acontecerá no futuro, perguntou lilith, Ao contrário do que costuma dizer-se, o futuro já está escrito, o que nós não sabemos é ler-lhe a página, disse caim enquanto perguntava a si mesmo aonde teria ido buscar a revolucionária ideia, E que pensas do facto de teres sido escolhido para viveres essa experiência, Não sei se fui escolhido, mas algo sei, sim, algo devo ter aprendido, Quê, Que o nosso deus, o criador do céu e da terra, está rematadamente louco, Como te atreves a dizer que o senhor deus está louco, Porque só um louco sem consciência dos seus actos admitiria ser o culpado directo da morte de centenas de milhares de pessoas e comportar-se depois como se nada tivesse sucedido, salvo, afinal, que não se trate de loucura, a involuntária, a autêntica, mas de pura e simples maldade, Deus nunca poderia ser mau ou não seria deus, para mau temos o diabo, O que não pode ser bom é um deus que dá ordem a um pai para que mate e queime na fogueira o seu próprio filho só para provar a sua fé, isso nem o mais maligno dos demónios o mandaria fazer, Não te reconheço, não és o mesmo homem que dormiu antes nesta cama, disse lilith, Nem tu serias a mesma mulher se tivesses visto aquilo que eu vi, as crianças de Sodoma carbonizadas pelo fogo do céu, Que sodoma era essa, perguntou lilith, A cidade onde os homens preferiam os* homens às mulheres, E morreu toda a gente por causa disso, Toda, não escapou uma alma, não houve sobreviventes, Até as mulheres que esses homens desprezavam, tornou lilith a perguntar, Sim, Como sempre, às mulheres, de um lado lhes chove, do outro lhes faz vento, Seja como for, os inocentes já vêm acostumados a pagar pelos pecadores, Que estranha ideia do justo parece ter o senhor, A ideia de quem nunca deve ter tido a menor noção do que possa vir a ser uma justiça humana, E tu, tem-na, perguntou lilith, Sou apenas caim, aquele que matou o irmão e por esse crime foi julgado, Com bastante benignidade, diga-se de passagem, observou lilith, Tens razão, seria o último a negá-lo, mas a responsabilidade principal teve-a deus, esse a que chamamos senhor, Não estarias aqui se não tivesses matado Abel, pensemos egoistamente que uma coisa deu para a outra, Vivi o que tinha de viver, matar o meu irmão e dormir contigo na mesma cama são tudo efeitos da mesma causa, Qual, Estarmos nas mãos de deus, ou do destino, que é o seu outro nome, E agora, que tencionas fazer, perguntou lilith, Depende, Depende de quê, Se alguma vez chego a ser dono da minha própria pessoa, se se acabar este passar de um tempo a outro sem que a minha vontade tenha sido para aí chamada, farei aquilo a que costuma chamar-se uma vida normal, como os demais, Não como toda a gente, casarás comigo, já temos o nosso filho, esta é a nossa cidade, e eu ser-te-ei fiel como a casca da árvore ao tronco a que pertence, Mas, se não for assim, se o meu fado continua, então, em qualquer lugar em que me encontre estarei sujeito a mudar de um tempo para outro, nunca estaremos certos, nem tu nem eu, do dia de amanhã, além disso, Além disso, quê, perguntou lilith, Sinto que o que me acontece deve ter um significado, um sentido qualquer, sinto que não devo parar a meio do caminho sem descobrir do que se trata, Isso significa que não ficarás, que partirás um dia destes, disse lilith, Sim, creio que assim será, se nasci para viver algo diferente, tenho de saber quê e para quê, Desfrutemos então o tempo que nos resta, vem para mim, disse lilith. Abraçaram-se aos beijos, agarrados rolaram na cama de um lado para outro, e quando caim se encontrou sobre lilith e se preparava para a penetrar, ela disse, A marca da tua testa está maior, Muito maior, perguntou caim, Não muito, Às vezes penso que ela irá crescendo, crescendo, alastrando por todo o corpo e me converterei em negro, Era o que ainda me faltava, disse lilith soltando uma gargalhada, a que imediatamente sucedeu um gemido de prazer quando ele, num só impulso, a cravou até ao fundo. (p. 66, 67 e 68).

Satã, que ouvira com um sorriso torcido, desdenhoso, perguntou ao senhor, Achas que os seus sentimentos religiosos são desinteressados, não é verdade que, tal como uma muralha, tu o proteges de todos os lados, a ele e à sua família e a tudo o que lhe pertence. Fez uma pausa e continuou, Mas experimenta tu levantar a mão contra aquilo que é seu e verás se ele não te amaldiçoa. Então o senhor disse a satã, Tudo o que lhe pertence está à tua disposição, mas nele não poderás tocar. Satã ouviu e foi-se embora, e nós aqui estamos, Para quê, perguntou, Para que satã não se exceda, para que não vá além dos limites que o senhor lhe marcou. Então caim disse, Se bem entendi, o senhor e satã fizeram uma aposta, mas job não pode saber que foi alvo de um acordo de jogadores entre deus e o diabo, Exactamente, exclamaram os anjos em coro, A mim não me parece muito limpo da parte do senhor, disse caim, se o que ouvi é verdade, job, apesar de rico, é um homem bom, honesto, e ainda por cima muito religioso, não cometeu nenhum crime, mas vai ser castigado sem motivo com a perda dos seus bens, talvez, como tantos dizem, o senhor seja justo, mas a mim não me parece, faz-me recordar sempre o que aconteceu com abraão a quem deus, para o pôr à prova, ordenou que matasse o seu filho isaac, em minha opinião, se o senhor não se fia das pessoas que crêem nele, então não vejo por que tenham essas pessoas de fiar-se do senhor, Os desígnios de deus são inescrutáveis, nem nós, anjos, podemos penetrar no seu pensamento, Estou cansado da lengalenga de que os desígnios do senhor são inescrutáveis, respondeu caim, deus deveria ser transparente e límpido como cristal em lugar desta contínua assombração, deste constante medo, enfim, deus não nos ama, Foi ele quem te deu a vida, A vida deram-ma meu pai e minha mãe, juntaram a carne à carne e eu nasci, não consta que deus estivesse presente no acto, Deus está em todo o lado, * Sobretudo quando manda matar, uma só criança das que morreram feitas tições em sodoma bastaria para o condenar sem remissão, mas a justiça, para deus, é uma palavra vã, agora vai fazer sofrer job por causa de uma aposta e ninguém lhe pedirá contas, Cuidado, caim, falas de mais, o senhor está a ouvir-te e tarde ou cedo te castigará, O senhor não ouve, o senhor é surdo, por toda a parte se lhe levantam súplicas, são pobres, infelizes, desgraçados, todos a implorar o remédio que o mundo lhes negou, e o senhor vira-lhes as costas, começou por fazer uma aliança com os hebreus e agora fez um pacto com o diabo, para isto não valia a pena haver deus. (p. 70 e 71).

Então job, no cúmulo do sofrimento, talvez, sem o confessar, animado pela mulher, rompeu o dique do temor de deus que lhe selava os lábios e clamou, Pereça o dia em que nasci e a noite em que foi dito, Foi concebido um varão, converta-se esse dia em trevas, que deus lá do alto não lhe dê atenção nem a luz sobre ele resplandeça, que dele se apoderem as trevas e a obscuridade, que as nuvens o envolvam e os eclipses o apavorem, que não se mencione esse dia entre os dias do ano, nem se conte entre os meses, que seja estéril tal noite e não se faça ouvir nela nenhum grito de alegria, obscureçam-se as estrelas do teu crepúsculo, em vão espere a luz e não veja abrirem-se as pálpebras da aurora por não me ter fechado a saída do ventre de minha mãe, impedindo que eu chegasse a ver tanta miséria, e assim se foi job queixando da sua sorte, páginas e páginas de imprecações e lamentos, enquanto três amigos seus, elifaz de teman, baldad de suás e sofar de naamat, lhe iam fazendo discursos sobre a resignação em geral e o dever, para todo o crente, de acatar de cabeça baixa a vontade do senhor, fosse ela qual fosse. (p. 73).

Ao contrário do que geralmente se pensa, o burro é um grande conversador, basta reparar nas diversas maneiras que tem de zurrar e resfolgar e na variedade de movimentos das orelhas, nem todas as pessoas que montam jumentos conhecem a linguagem deles, daí que aconteçam situações aparentemente inexplicáveis como postar-se o animal no meio do caminho, imóvel, e dali não sair nem que o moam à pancada. Diz-se então que o asno é teimoso como um burro quando afinal do que se trata é de um problema de comunicação, como tantas vezes sucede até entre os humanos. A ideia de ir a pé não durou portanto muito na cabeça de caim. (p. 74).

Apesar de assassino, caim é um homem intrínsecamente honesto, os dissolutos dias vividos em contubernio com lilith, ainda que censuráveis do ponto de vista dos preconceitos burgueses, não foram bastantes para perverter o seu inato sentido moral da existência, haja vista o corajoso enfrentamento que tem mantido com deus, embora, forçoso é dizê-lo, o senhor nem de tal se tenha apercebido até hoje, salvo se se recorda a discussão que ambos travaram diante do cadáver ainda quente de Abel. Neste ir e vir de pensamentos, ocorreu a caim a salvadora ideia de comprar um dos burros ao seu cuidado, recebendo em dinheiro contado só metade do soldo e deixando a outra metade nas mãos do proprietário como pagamento por conta. Inconveniente seria a lentidão do processo de liquidação, mas caim não tinha pressa, não havia no mundo ninguém à sua espera, nem sequer lilith, por mais voltas que o seu corpo, nervoso e impaciente, lhe desse na cama. (p. 75).

Não teve de andar muito para deixar o triste presente das terras de us e ver-se rodeado de verdejantes montanhas, de luxuriosos vales onde discorriam riachos da mais pura e cristalina água que olhos humanos alguma vez haviam visto e a boca saboreado. Isto, sim, poderia ter sido o jardim do éden de saudosa memória, agora que tantos anos passaram já e as más recordações, com a ajuda do tempo, mais ou menos se vieram diluindo. E, no entanto, percebia-se na deslumbrante paisagem algo de postiço, de artificial, como se se tratasse de um cenário preparado adrede para um fim impossível de descortinar a quem vem montado num vulgar jerico e sem guia miche-lin. (p. 76).

Naquele exacto momento, em meio de um trovão ensurdecedor e dos correspondentes relâmpagos pirotécnicos, o senhor manifestou-se. Vinha em fato de trabalho, sem os luxos vestimentários com que reduzia à obediência imediata aqueles a quem pretendia impressionar sem ter de recorrer à dialéctica divina. (p. 77).

Não me disseste que vieste aqui fazer, disse deus, Nada de especial, senhor, aliás não vim, encontrei-me cá, Da mesma maneira que te encontraste em sodoma ou nas terras de us, E também no monte sinai, e em jericó, e na torre de babel, e nas terras de nod, e no sacrifício de isaac, Tens viajado muito, pelos vistos, Assim é, senhor, mas não que fosse por minha vontade, pergunto-me até se estas constantes mudanças que me têm levado de um presente a outro, ora no passado, ora no futuro, não serão também obra tua, Não, nada tenho que* ver com isso, são habilidades primárias que me escapam, truques para épater le bourgeois, para mim o tempo não existe, Admites então que haja no universo uma outra força, diferente e mais poderosa que a tua, É possível, não tenho por hábito discutir transcendências ociosas, mas uma coisa ficas sabendo, não poderás sair deste vale, nem te aconselho que o tentes, a partir de agora as saídas estarão guardadas, em cada uma delas haverá dois querubins com espadas de fogo e com ordem de matar quem quer que se aproxime, Como aquele que puseste à porta do jardim do éden, Como o soubeste, Os meus pais falavam muito dele. (p. 77 e 78).

Caim decidiu intervir, Pode-se saber de que estão a falar, perguntou, e o senhor respondeu como se repetisse um discurso já feito antes e decorado, A terra está completamente corrompida e cheia de violências, só encontro nela corrupção, pois todos os seus habitantes seguiram caminhos errados, a maldade dos homens é grande, todos os seus pensamentos e desejos pendem sempre e unicamente para o mal, arrependo-me de ter criado o homem, pois que por causa dele o meu coração tem sofrido amargamente, o fim de todos os homens chegou perante mim, porquanto eles encheram a terra de iniquidades, vou exterminá-los, assim como à terra, a ti, noé, escolhi-te para iniciares a nova humanidade, e assim mandei que construísses uma arca de madeiras resinosas, que a dividisses em compartimentos e a calafetasses com betume por dentro e por fora, ordenei-te que o comprimento dela fosse de trezentos côvados, e eles aí estão, que a largura fosse de cinquenta côvados e a altura de trinta, que no alto fizesses uma clarabóia a um côvado do cimo, que colocasses a porta da arca a um lado e construísses nela um andar inferior, um segundo e um terceiro andares, pois vou lançar um dilúvio de água que, ao inundar tudo, eliminará debaixo do céu todos os seres vivos que existem no mundo, tudo quanto há na terra vai morrer, mas contigo, noé, fiz um pacto de aliança, no momento próprio entrarás na arca com os teus filhos, a tua mulher e as mulheres dos teus filhos, e de todas as espécies de seres vivos levarás para a arca dois exemplares, macho e fêmea, para poderem viver juntamente contigo, portanto, de cada espécie diferente de seres vivos, sejam aves, quadrúpedes ou outros animais, irão dois exemplares contigo, deves também apanhar e armazenar os diferentes tipos de comida* que cada espécie costuma comer, como provisões para ti e para todos os animais. Este foi o discurso do senhor. (p. 78 e 79).

Picado por um debate em que, na opinião de qualquer observador imparcial, não tinha feito a melhor das figuras, o senhor resolveu mudar de planos. Acabar com a humanidade* não era o que se poderia chamar uma tarefa urgente, a obrigada extinção do bicho-homem poderia esperar dois ou três ou mesmo dez séculos, mas, uma vez que havia tomado a decisão, deus andava a sentir uma espécie de comichão na ponta dos dedos que era sinal de impaciência grave. Decidiu portanto mobilizar a sua legião de anjos operários com efeito imediato, ou seja, em vez de os utilizar somente para levar a arca ao mar como ficara previsto, mandou-os ajudar a exausta família de noé que, como se pôde observar, já andava mais morta que viva naquele tráfego. Poucos dias depois apareceram os anjos, formados a três de fundo, e puseram imediatamente mãos à obra. (p. 79 e 80).

Para todas as tarefas que ainda falta executar, como sejam a recolha completa dos animais e o abastecimento de comestíveis, noé espera contar com a competente colaboração dos anjos operários, os quais, honra lhes seja feita, continuam a trabalhar com um entusiasmo digno de todos os encómios. Uns com os outros, não mostram qualquer relutância em reconhecer que a vida no céu é a coisa mais aborrecida que alguma vez se inventou, sempre o coro dos anjos a proclamar aos quatro ventos a grandeza do senhor, a generosidade do senhor, inclusive, a beleza do senhor. Já é tempo de que estes e os outros anjos comecem a experimentar as simples alegrias da gente comum, nem sempre há-de ser preciso, para maior exaltação do espírito, pôr fogo a sodoma ou soprar em trombetas para deitar abaixo as muralhas de jericó. Pelo menos neste caso, do ponto de vista particular dos anjos operários, a felicidade na terra era em tudo superior à que se podia ter no céu, mas o senhor, claro está, sendo tão invejoso como é, não o deveria saber, sob pena de exercer sobre os pensamentos sediciosos as mais duras represálias sem olhar a patentes angélicas. Graças à boa harmonia reinante entre o pessoal que andava a trabalhar na obra da arca é que caim pôde conseguir que o seu burro, quando chegar a altura, seja metido lá dentro pela porta do cavalo, quer dizer, como passageiro clandestino, escapando ao afogamento geral. Foi também graças a essa cordial relação que logrou partilhar de certas dúvidas e perplexidades do anjos. (p. 81).

Que eu saiba, nós nunca nos perguntámos aqui se merecíamos ou não a vida, disse caim, Se o tivessem pensado, talvez não se encontrassem na iminência de desaparecer da face da terra, Não vale a pena chorar, não se irá perder muito, respondeu caim dando voz ao seu sombrio pessimismo nascido e formado em sucessivas viagens aos horrores do passado e do futuro, se as crianças que em sodoma morreram queimadas não tivessem nascido, não teriam tido que soltar aqueles gritos que eu ouvi enquanto o fogo e o enxofre iam caindo do céu sobre as suas cabeças inocentes, A culpa tiveram-na os pais, disse um dos anjos, Não era razão para que os filhos tivessem de padecer por ela, O erro é crer que a culpa terá de ser entendida da mesma maneira por deus e pelos homens, disse um dos anjos, No caso de Sodoma alguém a teve, e esse foi um deus absurdamente apressado que não quis perder tempo a apartar para o castigo somente aqueles que, segundo os seus critérios, andavam a praticar o mal, além disso, anjos, onde é que nasceu essa peregrina ideia de que deus, só por ser deus, deva governar a vida íntima dos seus crentes, estabelecendo regras, proibições, interditos e outras patranhas do mesmo calibre, perguntou caim, Isso não sabemos, disse um dos anjos, Destas coisas, o que nos dizem é quase nada, a bem dizer só servimos para os trabalhos pesados, acrescentou o outro em tom de queixa, quando for a altura de levantar a barca e levá-la para o mar, podes apostar já que não verás por aqui nem serafins, nem querubins, nem tronos, nem arcanjos, Não me admira, começou caim a dizer, mas a frase ficou-lhe no ar, suspensa, enquanto uma espécie de vento lhe açoitava os ouvidos e de repente se encontrou no interior de uma tenda. Havia um homem deitado, nu, e esse homem era noé a quem a embriaguez submergira no mais profundo dos sonos. Havia outro homem que com ele estava a ter trato carnal e esse homem era cam, o seu filho mais novo, pai, por sua vez, de canaã. (p. 82).

Deus não veio ao bota-fora. Estava ocupado com a revisão do sistema hidráulico do planeta, verificando o estado das válvulas, apertando alguma porca mal ajustada que gotejava onde não devia, provando as diversas redes locais de distribuição, vigiando a pressão dos manómetros, além de uma infinidade de outras grandes e pequenas tarefas, cada uma delas mais importante que a anterior e que ele só, como criador, engenheiro e administrador dos mecanismos universais, estava em condições de levar a bom termo e confirmar com o seu sagrado ok. A festa, para os outros, para ele, o labor. Em horas assim sentia-se menos como um deus que como contramestre dos anjos operários, os quais, neste preciso e exacto momento, cento e cinquenta a estibordo da arca, cento e cinquenta a bombordo, com os seus alvinitentes fatos de trabalho, esperavam a ordem de alçar a enorme embarcação, não diremos a uma só voz porque nenhuma se ouviria, pois toda esta operação é obra da mente, mas como se o pensasse um só homem com o seu único cérebro e a sua única vontade. Num instante a arca estava no chão, no instante seguinte subira à altura dos braços levantados dos anjos operários como num exercício ginástico de pesos e halteres. (p. 83).

Mas o senhor não mudou de opinião, os seus cálculos podiam estar errados, mas, como a prova real não havia sido tirada, ainda lhe ficava o benefício da dúvida. Dentro da arca, a família noé dava graças a deus e, para festejar o êxito da operação e exprimir o seu reconhecimento, sacrificou um cordeiro ao senhor, a quem a oferenda, como é natural, conhecidos os antecedentes, deliciou. Tinha razão, noé havia sido uma boa escolha para pai da nova humanidade, a única pessoa justa e honesta do tempo, que ele era, emendaria os erros do passado e expulsaria da terra a iniquidade. E os anjos, onde estão os anjos operários, perguntou subitamente caim. Não estavam. Satisfeita de tão perfeita e completa maneira a incumbência do senhor, os diligentes obreiros, com a simplicidade que os caracterizava e de que nos deram não poucas provas desde o primeiro dia em que nos conhecemos, tinham regressado às casernas sem esperar a distribuição das medalhas. A arca, é bom lembrá-lo, não tem leme nem vela, não trabalha a motor, não se lhe pode dar corda, e levá-la a remos seria literalmente impensável, nem mesmo as forças de todos os anjos operários disponíveis no céu seriam capazes de a fazer mover por esse meio. (p. 83).

No meio desta furiosa convulsão aquática que tudo queria engolir, a barca lograva aguentar-se, balançando-se de um lado a outro como uma rolha de cortiça, aprumando-se no último instante quando o mar já parecia ir tragá-la. Ao cabo de cento e cinquenta dias, depois de que as fontes do mar profundo e as comportas do céu se tivessem fechado, a água, que havia coberto toda a terra acima das serranias mais altas, começou a baixar lentamente. (p. 85).

Pode ela ter pensado simplesmente que, faltando a mulher de cam, outra deveria ocupar o seu lugar, não para acolitar o viúvo nas suas noites agora solitárias, mas para recuperar a harmonia antes vivida entre as fêmeas mais novas da família e o hóspede caim, ou, por palavras mais claras e directas, se antes ele tinha três mulheres à sua disposição, não havia nenhum motivo para que não continuasse a tê-las. Mal sabia ela que na cabeça do homem rondavam ideias que tornavam absolutamente secundária a questão. (p. 85).

Jafet, por exemplo, vê o futuro* como uma sucessão de cópulas bem sucedidas, um filho por ano, gémeos umas quantas vezes, o olhar complacente do senhor sobre a sua cabeça, muitas ovelhas, muitas juntas de bois, em suma, a felicidade. Não sabe, o pobre, que o seu fim está perto, que uma rasteira o precipitará no vácuo sem colete salva-vidas, esbracejando nas agonias de um inútil desespero, aos gritos, enquanto a arca se vai distanciando majestosamente ao encontro do seu destino. A perda de mais um tripulante afligiu noé a um extremo indescritível, a desejada concretização do plano do senhor encontrava-se em grave risco, vista a situação, de ter que impor a necessidade de duplicar ou até mesmo triplicar o tempo indispensável a um razoável repovoamento da terra. (p. 86 e 87).
Não faltará quem pense que o malicioso caim anda a divertir-se com a situação, jogando ao gato e ao rato com os seus inocentes companheiros de navegação, aos quais, como o leitor já terá suspeitado, tem vindo a eliminar um a um. Equivocar-se-á quem assim creia. Caim debatesse com a sua raiva contra o senhor como se estivesse preso nos tentáculos de um polvo, e estas suas vítimas de agora não são mais, como já Abel o tinha sido no passado, que outras tantas tentativas para matar deus. A próxima vítima será justamente a mulher de noé, que, sem o merecer, vai pagar com a vida as horas de gozo passadas nos braços do seu futuro assassino com a bênção e a conivência do próprio marido, a tal ponto havia chegado a deliquescência dos costumes desta humanidade a cujos últimos dias vimos assistindo. Depois da repetição, em todo o caso com algumas variações mais ou menos subtis, de uns quantos excessos de delírio erótico protagonizados principalmente pela mulher e expressados, como sempre, em murmúrios, gemidos e logo incontroláveis gritos, caim levou-a pela mão até à janela para tomarem o* fresco da noite e dali, metendo-lhe as mãos por entre as coxas ainda frementes de prazer, a precipitou no mar. (p. 87 e 88).
Ela estava em tudo ao teu cuidado, não compreendo como pode ter sucedido esta desgraça, ao que caim respondeu perguntando, E era eu o guarda--costas da tua mulher, levava-a eu atada a mim pelo tornozelo com um baraço como se fosse uma ovelha, Não digo isso, encolheu-se noé, mas ela dormia contigo, podias ter-te apercebido de algo, Tenho o sono pesado. (p. 88).
Quando as tartarugas, que tinham sido as últimas, se afastavam, lentas e compenetradas como lhes está na natureza, deus chamou, Noé, noé, por que não sais. Vindo do escuro interior da arca, caim apareceu no limiar da grande porta, Onde estão noé e os seus, perguntou o senhor, Por aí, mortos, respondeu caim, Mortos, como, mortos, porquê, Menos noé, que se afogou por sua livre vontade, aos outros matei-os eu, Como te atreveste, assassino, a contrariar o meu projecto, é assim que me agradeces ter-te poupado a vida quando mataste Abel, perguntou o senhor, Teria de chegar o dia em que alguém te colocaria perante a tua verdadeira face, Então a nova humanidade que eu tinha anunciado, Houve uma, não haverá outra e ninguém dará pela falta, Caim és, e malvado, infame matador do teu próprio irmão, Não tão malvado e infame como tu, lembra-te das crianças de sodoma. Houve um grande silêncio. Depois caim disse, Agora já podes matar-me, Não posso, palavra de deus não volta atrás, morrerás da tua natural morte na terra abandonada e as aves de rapina virão devorar-te a carne, Sim, depois de tu primeiro me haveres devorado o espírito. A resposta de deus não chegou a ser ouvida, também a fala seguinte de caim se perdeu, o mais natural é que tenham argumentado um conta o outro uma vez e muitas, a única coisa que se sabe de ciência certa é que continuaram a discutir e que a discutir estão ainda. A história acabou, não haverá nada mais que contar. (p. 89).  

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Chuck Palahniuk: Sobrevivente (trechos)


Ficar aqui e tentar consertar a vida dela não é nada além de uma grande perda de tempo. As pessoas não querem consertar a própria vida. Ninguém quer resolver os próprios problemas. Seus dramas. Suas distrações. Resolver suas histórias. Consertar suas confusões. Porque, nesse caso, o que sobraria? Apenas o grande e assustador desconhecido. A maioria das pessoas que me liga já sabe o que quer. Algumas querem morrer, mas esperam minha permissão. Algumas querem morrer e só precisam de um pouco de incentivo. Um empurrãozinho. Uma pessoa com tendências suicidas já não tem mais muito senso de humor. Uma palavra errada e ela se torna um obituário na semana seguinte. Eu mal presto atenção à maioria das ligações que recebo, de qualquer forma. Na maioria dos casos, decido quem vai viver e morrer só pelo tom da voz. (p. 10).

Por favor, não pense que estou aqui para salvar vidas. Ser ou não ser, não me dou ao trabalho de decidir. E não pense que estou dando uma de superior ao falar com as mulheres desse jeito. Mulheres vulneráveis. Aleijadas emocionais. (p. 12).

Se você usar o primeiro tipo de adesivo, as pessoas vão ligar para confessar pecados, reclamar, pedir conselhos, pedir aprovação. As garotas que você conhece nunca estão muito longe de ser casos perdidos. Um harém de mulheres vai agarrar o telefone em desespero e pedir que você retorne a ligação, por favor, retorne a ligação. Por favor. Pode me chamar de predador sexual, mas, quando penso em predadores, penso em leões, tigres, grandes felinos, tubarões. Não se trata de uma relação entre predador e presa. Não se trata de um urubu comedor de carniça ou de uma hiena risonha contra uma carcaça. Não se trata de um parasita contra um hospedeiro. Somos todos miseráveis juntos. (p. 13). 

As pessoas sempre se decepcionam quando digo a verdade, que nenhum de nós se sentia oprimido. Nenhum de nós se ressentia da igreja. Nós simplesmente vivíamos. Nenhum de nós era muito torturado por sentimentos. Essa era a profundidade total da nossa fé. Pode chamá-la de superficial ou de profunda. Não havia nada que nos amedrontasse. Era no que as pessoas criadas na colônia da igreja acreditavam. Tudo que acontece no mundo foi um decreto de Deus. Uma tarefa a ser concluída. Todas as tristezas ou alegrias só atrapalhavam sua utilidade. Todas as emoções eram decadentes. Expectativas ou arrependimentos eram uma bobagem a mais. Um capricho. Essa era a definição da nossa fé. Nada deveria ser conhecido. Tudo deveria ser esperado. No mundo lá fora, Adam disse que um pacto com o demônio abastecia os automóveis e movia os aviões através dos céus. O mal fluía nos fios elétricos* para tornar as pessoas preguiçosas. As pessoas colocavam pratos sujos no armário e o armário os lavava. Água encanada levava embora o lixo e a merda deles, de modo que eram problema dos outros. Adam segurou meu queixo entre o polegar e o indicador e se inclinou para me olhar nos olhos, e disse que, no mundo lá fora, as pessoas olhavam em espelhos. Ele disse que, bem na frente dele no ônibus, as pessoas pegavam espelhos e todo mundo ficava ocupado olhando a própria aparência. Era uma vergonha. Lembro-me de que esse foi meu último corte durante um bom tempo, mas não me lembro bem por quê. Minha cabeça era um campo de palha eriçada com o pouco cabelo que havia restado. No mundo lá fora, Adam disse, todas as contas são feitas por máquinas. Toda a comida era servida por garçonetes. (p. 17 e 18).

Não dá para decorar a Bíblia inteira de cabeça. Não sobraria espaço para você se lembrar nem do seu nome. A casa da qual cuido há seis anos é como se pode imaginar: é grande e fica em uma área grã-fina da cidade. Isso comparado à região onde moro. Todas as quitinetes no meu bairro são como um assento sanitário quentinho. Alguém estava lá segundos antes de você e alguém vai estar lá assim que você sair. Na área da cidade onde trabalho todas as manhãs, há pinturas nas paredes. Atrás das portas da frente, há salas e mais salas nas quais ninguém entra. Cozinhas onde ninguém cozinha. Banheiros que nunca ficam sujos. O dinheiro que deixam por aí para testar se vou pegá-lo nunca é menos do que uma nota de cinquenta dólares, caída atrás da cômoda, como se estivesse lá por acidente. As roupas deles parecem ter sido criadas por um arquiteto. Ao lado do interfone há uma agenda gorda que eles mantêm cheia de tarefas para mim. Eles querem planejar meus próximos dez anos, tarefa por tarefa. À maneira deles, tudo na vida se transforma em um item de uma lista. Algo a ser executado. Você começa a perceber como a vida é monótona. A menor distância entre dois pontos é uma linha reta, uma agenda, uma tabela de horários, o itinerário do resto da sua vida. (p. 20).

Às vezes, fico aqui até tarde da noite. Ou seja, depois que todos foram embora. Aí caminho sozinho depois da meia-noite e meu sonho é que, numa noite dessas, uma catacumba vai estar aberta num canto da parede e próximo dela vai haver um cadáver ressecado, com a pele do rosto murcha e o traje rígido e manchado pelos fluidos que pingam e vazam do seu corpo. Vou esbarrar com essa carcaça em uma galeria escura e silenciosa, onde só se ouve o zumbido de uma única lâmpada fluorescente que pisca em clarões alguns momentos antes de me deixar na escuridão, para sempre, com esse monstro falecido. Os olhos do cadáver devem estar soltos das cavidades e eu quero que ele tropece cegamente e agarre as paredes frias de mármore, deixando um rastro de gosma podre que expõe os ossos das duas mãos. A boca cansada está entreaberta e dois buracos escuros formam o nariz inexistente, a camisa frouxa pendendo das clavículas expostas. (p. 32).

A catacumba número 678 fica em uma fileira alta na parede da galeria. A única maneira de vê-la de perto é usar uma escada ou um elevador para caixões e, mesmo do alto de uma escada, dois degraus acima do que é considerado seguro, consigo perceber que há algo diferente nessa garota. Algo europeu. Algo relacionado à desnutrição. Não é a quantidade diária recomendada de alimento e sol que deixam você bonita para os padrões norte-americanos. Ela tem um aspecto encerado e seus braços e pernas saem do vestido com uma aparência bruta e branca. Dá para imaginá-la vivendo por trás de arame farpado. E crescendo em mim há a esperança aflita de que talvez ela esteja morta. É assim que me sinto quando assisto a filmes antigos em casa, nos quais vampiros e zumbis voltam dos túmulos com fome de carne humana. Dentro de mim há a mesma esperança aflita que sinto ao ver os mortos-vivos vorazes e ao pensar: Ah, por favor, por favor, por favor. Minha ânsia interior é ser agarrado por alguma garota morta. Encostar meu ouvido no peito dela e não ouvir nada. Até ser devorado por zumbis é melhor do que pensar que sou somente carne e sangue, pele e osso. Demônio ou anjo ou espírito do mal, eu só preciso que algo apareça. Fantasmagórico, demoníaco ou monstro de pernas longas, só quero que segure minha mão. Daqui de cima, da sexta fileira de catacumbas, o vestido preto dela parece ter sido passado à exaustão. Os braços e as pernas finos e brancos parecem revestidos de um novo tipo de pele humana de má qualidade. Mesmo aqui de cima o rosto dela parece ser um produto de fabricação em massa. Cânticos de Salomão, capítulo sete, versículo um: “Quão formosos são os teus pés nos sapatos, ó filha do príncipe! Os contornos de tuas coxas são como joias...” Mesmo com o sol aquecendo tudo lá fora, aqui dentro tudo continua frio ao toque. A luz entra através do vitral. O cheiro é de chuva absorvida pelas paredes de cimento. A sensação de tudo é de mármore polido. O som vem de algum lugar, as gotas de chuva velha deslizando pelos vergalhões, as gotas de chuva caindo pela claraboia rachada, as gotas de chuva dentro de catacumbas ainda não vendidas. A poeira se acumula com caspas e cabelos e forma cotões que rolam pelo chão. As pessoas chamam isso de cocô de fantasma. (p. 34).

A máscara redonda que serve de rosto à garota olha para mim do pé da escada. Como dizer se ela está viva ou se é um fantasma, eu não sei. Ela está muito vestida para que eu consiga ver a ascensão e a queda do seu peito. O ar está quente demais para que sua respiração seja visível. Cânticos de Salomão, capítulo sete, versículo dois: “O teu umbigo como uma taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre como montão de trigo, cercado de lírios.” A Bíblia cita sexo e comida com bastante frequência. Aqui, com o espécime número 136, as pequenas conchas pintadas de rosa para se parecerem com botões de rosa, e o espécime número 78, o narciso de baquelita, quero ser abraçado por seus braços frios e mortos, e ouvi-la dizer que a vida não tem um fim absoluto. Minha vida não é um adubo de categoria funeral que vai apodrecer amanhã e viver menos do que meu nome em um obituário. A impressão que se tem em meio a esses quilômetros de paredes de mármore com pessoas presas dentro delas, é a de que estamos em um prédio lotado com milhares de pessoas, mas, ao mesmo tempo, estamos sozinhos. Poderia se passar um ano entre o momento de uma pergunta dela e a minha resposta. (p. 35).

A hora está quase acabando, e nem cheguei a falar sobre Fertility Hollis. Como nos encontramos no mausoléu. Caminhamos por uma hora e ela me contou sobre diferentes movimentos artísticos do século XX e como eles retratavam Jesus crucificado. Na ala mais antiga do mausoléu, a chamada Contentamento, Jesus é magro e romântico, com enormes olhos úmidos e cílios longos de mulher. Na ala construída na década de 1930, Jesus é um realismo social, com grandes músculos de super-herói. Nos anos 1940, na ala Serenidade, Jesus se transforma em uma montagem abstrata de planos e cubos. O Jesus dos anos 1950 é de madeira polida, um esqueleto da modernidade dinamarquesa. O Jesus dos anos 1960 foi feito com pedaços de madeira. Não há ala dos anos 1970 e, na dos anos 1980, não há Jesus, somente os mesmos mármore e latão verdes seculares polidos que você encontraria em uma loja de departamentos. (p. 41).

— Você se lembra daquela seita que as pessoas se mataram? Faz uns sete ou oito anos. A cidade toda foi à igreja e bebeu veneno, e o FBI os encontrou de mãos dadas no chão, mortos. Esse cara me fez lembrar desse episódio. Nem tanto pelas roupas apatetadas, mas o cabelo, parece que ele mesmo o cortou de olhos fechados — ela fala. (p. 49).

— Diga alguma coisa que me faça gozar. Eu não sei do que você está falando.
— Você sabe do que estou falando — diz ela. Gênesis, capítulo três, versículo doze: “... A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi...” Ouça, eu digo. Não estou sozinho aqui. Estou cercado de voluntários caridosos que também doam seu tempo.
— Vamos lá. Lamba meus peitos — diz ela.
Digo que ela está se aproveitando da minha natureza caridosa. Digo que preciso desligar agora.
— Me chupa inteira com a sua boca — ela diz. Digo: vou desligar agora.
— Mais. Mais! Ah, me lambe toda, me lambe toda — ela fala e ri. — Me chupa. Me chupa. Me chupa. Me. Chupa. Digo: vou desligar agora. Mas não desligo.
— Você sabe que me deseja. Diga o que quer que eu faça. Você sabe que quer. Me obrigue a fazer alguma bobagem — Fertility continua falando. E, antes que eu consiga sair da conversa, Fertility Hollis solta um uivo estrondoso de orgasmo de deusa pornô. Aí eu desligo. I Timóteo, capítulo cinco, versículo quinze: “Porque já algumas se desviaram, indo após Satanás.” Sinto-me vulgar e usado, sujo e humilhado. Sujo e enganado e descartado. Aí o telefone toca. É ela. Tem de ser ela, então eu não atendo. O telefone toca a noite toda e eu fico aqui, me sentindo enganado, e não ouso atender. (p. 51).

Foi o apocalipse, a Libertação, e, apesar de todo o meu trabalho e todo o dinheiro que ganhei para nosso plano, o Paraíso na Terra simplesmente não ia acontecer. (p. 55).

Eles foram fracos. As regras se foram e isso não importa. Somos todos uma grande entrega expressa direto para o Inferno. (p. 56).

Ela toma um gole. Deixa o copo de volta no lugar enquanto lhe respondo. Escreve no bloco amarelo sobre os joelhos, faz mais uma pergunta, toma outro gole. O rosto parece soterrado sob uma camada de maquiagem. (p. 56).

A verdade é que não atendo o telefone porque não quero falar com Fertility Hollis até vê-la pessoalmente. Por telefone, ela parecia tão sexualmente excitada que não posso arriscar. É uma competição contra mim mesmo. Não quero que* ela se apaixone por mim como uma voz ao telefone ao mesmo tempo que me dá um fora na vida real. É melhor que ela nunca mais fale comigo ao telefone. O feioso esquisito aqui, que vive e respira, não se compara à fantasia, então bolei
um plano, um plano terrível, para fazê-la me odiar e, ao mesmo tempo, se apaixonar por mim. O plano é desseduzi-la. Desatraí-la. (p. 57 e 58).

No início, ninguém no programa deu atenção, diz ela. Suicídios são apenas suicídios, especialmente entre essas pessoas. Os suicídios dos clientes acontecem em ondas. Um estouro de boiada. Um ou dois dão início a até vinte. Lêmingues.* O bloco amarelo no colo dela desliza até o chão, e ela fala:
— Suicídios são muito contagiosos.
O padrão desses novos falsos suicídios mostra que a tendência é de que ocorram ao fim de uma série de suicídios naturais.
Pergunto: como assim, falsos suicídios? Surrupio o martíni, que tem um gosto estranho de enxaguante bucal. (p. 58 e 59).

Deus me livre de tentar ficar bonito para Fertility. A pior estratégia seria me aperfeiçoar. Seria um grande erro me arrumar, me esforçar ao máximo, pentear o cabelo ou até pegar algumas roupas emprestadas do cara para quem trabalho, tipo uma camisa de tom pastel e cem porcento algodão, escovar os dentes, colocar o que chamam de desodorante e ir até o mausoléu Memorial de Columbia para meu segundo grande encontro ainda muito feio, mas dando sinais de que me esforcei o quanto pude pra ficar bonito. Então aqui estou eu. Melhor, impossível. É pegar ou largar. Como se eu não ligasse para o que ela acha. Ficar bonito não faz parte do grande plano. Meu plano é ser um potencia inexplorado. A aparência que busco é natural. Real. A aparência que quero é a de matéria-prima. Não desesperado nem carente, mas sim maduro e cheio de* potencial. Não faminto. Claro, quero parecer com alguém que vale o esforço. Lavado, mas não passado. Limpo, mas não polido. Confiante, mas humilde. Sincero é o que quero parecer. A verdade não brilha nem reluz. Taí a agressão passiva em ação. Minha ideia é fazer a feiura trabalhar a meu favor. Estabelecer um nível de exigência baixo para contrastar comigo mesmo mais tarde. Antes e Depois. O sapo e o príncipe. (p. 61 e 62).

Não dá para ouvir música em lugar algum, a não ser que você preste muita atenção. É música tipo papel de parede, utilitária, música Prozac ou Frontal para controlar seus sentimentos. Música tipo aromatizador de ambientes em aerossol. (p. 63).

Tudo nela parece à prova de mártires. (p. 63).

Passamos dançando por estátuas de santos da religião de outras pessoas. Para mim, são apenas pedras em forma de fulanos glorificados. (p. 66).

Se o corpo é um templo, dá para acumular bastante manutenção adiada. Se o corpo é um templo, o meu estava muito precisado de uma reforma. De alguma forma, eu deveria ter previsto isso. Assim como cada geração reinventa Cristo, o agente está me refazendo. O agente diz que ninguém vai adorar alguém com tantos pneuzinhos. Hoje, as pessoas não lotam estádios para ouvir a pregação de alguém que não seja bonito.
É por isso que não vou a lugar nenhum na velocidade de setecentas calorias por hora. Por volta do oitavo andar, sinto como se minha bexiga estivesse aninhada entre minhas coxas. Quando você tira o plástico de algo que estava no micro-ondas e o vapor queima seus dedos em um instante, meu hálito está quente nesse nível. Você sobe e sobe e sobe e não chega a lugar algum. É a ilusão de progresso. O que você quer pensar que é a salvação. O que as pessoas esquecem é que uma viagem para o nada também começa com um único passo.
Não é como se o grande espírito do coiote viesse até você, mas, por volta do octogésimo primeiro andar, esses pensamentos aleatórios advindos do ozônio ficam na cabeça. Coisas bestas que o agente falou, agora elas fazem sentido. Como a sensação de esfregar com o vapor puro do amoníaco e de remover a pele de frango da grelha da churrasqueira, todas as coisas idiotas do mundo, café descafeinado, cerveja sem álcool, StairMasters, fazem todo o sentido, não porque você está mais inteligente, mas porque a parte inteligente do seu cérebro está de* férias. É esse tipo de falso conhecimento, esse tipo de sabedoria de biscoito chinês que você sabe que vai esquecer dez minutos depois de parar de pensar a respeito. (p. 116 e 117).

Por volta do centésimo andar, tudo fica claro. O universo inteiro, e não é por causa das endorfinas. Depois de passar do centésimo andar, você entra em um estado místico. Como uma árvore que cai na floresta e ninguém está lá para ouvir, você percebe, se ninguém estivesse testemunhando a agonia de Cristo, ele teria sido salvo? A chave da salvação é chamar muita atenção. O nível da sua personalidade. Da sua audiência. Da sua exposição. Do seu reconhecimento. Dos seus seguidores na imprensa. Do falatório. Por volta do centésimo andar, o suor traça linhas no seu cabelo. A mecânica entediante do funcionamento do corpo fica muito clara, os pulmões sugam ar para levar ao sangue, o coração bombeia sangue para os músculos, os tendões se contraem, apertando-se para colocar as pernas para a frente, o quadríceps se aperta para colocar os joelhos para a frente. O sangue leva ar e alimento para serem consumidos dentro das mito-sei-lá-o-que no centro de cada célula dos músculos. O esqueleto só serve para evitar que a pele caia no chão. O suor só serve para* manter o corpo resfriado. As revelações surgem de todos os lados. Por volta do centésimo quinto andar, você não consegue acreditar que é escravo desse corpo, desse bebezão. Você tem de alimentá-lo e adormecê-lo e levá-lo ao banheiro. Você não consegue acreditar que ainda não inventamos coisa melhor. Algo menos dependente. Que desperdice menos tempo. Você percebe que as pessoas se drogam porque essa é a única aventura pessoal que lhes resta em um mundo sem tempo, com lei e ordem, delimitado por propriedades. Só nas drogas ou na morte vamos conhecer novidades, e a morte é muito controladora. Você percebe que não faz sentido fazer algo se ninguém estiver olhando. Você pensa, se tivessem aparecido poucas pessoas na crucificação, eles a teriam reagendado? Você percebe que o agente tinha razão. Você nunca viu um crucifixo com um Jesus que não estivesse quase pelado. Nunca viu um Jesus gordo. Ou um Jesus com cabelo no peito. Em todos os crucifixos que você viu na vida, Jesus parece estar fazendo propaganda de um jeans de marca ou de um perfume masculino. A vida é bem como disse o agente. Você percebe que, sem ninguém vendo, é mais fácil ficar em casa. Se masturbar. Assistir à TV.
Por volta do centésimo décimo andar, você percebe que, se não estiver sendo filmado, melhor ainda, transmitido por satélite para o mundo inteiro ver, você não existe. Você é aquela árvore que cai na floresta e ninguém dá a mínima. Não interessa o que você faz. Se ninguém notar, sua vida vai se resumir a um grande zero. Nada. Uma nulidade. Falsas ou não, você é invadido por esse tipo de verdades. Você percebe que nossa desconfiança quanto ao futuro dificulta que a gente desista do passado. Não conseguimos deixar de lado o conceito de quem éramos. Todos aqueles adultos que brincam de arqueólogos em brechós, procurando por objetos da infância, jogos de tabuleiro, Candy Land, Twister, eles estão apavorados. Porcarias se tornam relíquias. My stery Date8. Bambolês. Nossa forma de sentir saudade do que jogamos no lixo só porque temos medo de evoluir. Crescer, mudar, perder peso, nos reinventarmos. De nos adaptarmos. É o que o agente está me dizendo enquanto estou na Stair-Master. Ele grita para mim:
— Adapte-se!
Tudo está acelerado, exceto eu e meu corpo encharcado de suor, com seus movimentos peristálticos e pelos. Minhas pintas e unhas amarelas. E eu percebo que estou preso a esse corpo, e ele já está decadente. Sinto como se minha coluna estivesse sendo forjada a marretadas. Meus braços balançam, finos e* molhados, dos dois lados do meu corpo. Como a mudança é constante, você reflete se as pessoas buscam a morte porque é a única maneira de conseguirem finalizar alguma coisa. O agente está gritando que, não importa se você é bonito, seu corpo só serve como algo para vestir ao receber um Oscar. Sua mão só serve para segurar um Prêmio Nobel. Seus lábios só existem para você dar beijinhos no apresentador de um programa de entrevistas. E é melhor estar bem bonito. É por volta do centésimo vigésimo andar que você tem de rir. Você vai perder tudo de qualquer maneira. Seu corpo. Você já o está perdendo. É a hora de apostar tudo. É por isso que, quando o seu agente chega para você com anabolizantes, você diz sim. Você diz sim para as sessões de bronzeamento total. Eletrólise? Sim. Renovação dental? Sim. Dermoabrasão? Sim. Peeling químico? Segundo o agente, o segredo da fama é dizer sim.
7. Trocadilho com o nome de uma famosa marca de máquinas para exercícios e a música “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin. (N. da T.)
8. Jogo de tabuleiro popular nos EUA. (N. da T.) (p. 117, 118 e 119).

As pessoas vão dizer que foram os esteroides que me deixaram maluco. O Durateston 250. As pílulas abortivas Mifepristone, da França. O Plenastril, da Suíça. O Masterone, de Portugal. Esses são esteroides de verdade e não apenas nomes registrados de futuros medicamentos. Esses são injetáveis, em comprimidos, em emplastros. As pessoas vão ter certeza de que os esteroides é que me levaram a isso, a ser este sequestrador de aviões maluco que sobrevoa o mundo até se matar. Como se as pessoas tivessem ideia do que é ser um líder espiritual famoso e renomado. Como se alguma dessas pessoas já não estivesse procurando um novo guru para dar significado ao seu estilo de vida enfadonho e sem riscos, enquanto assistem às notícias na TV e me julgam. Todo mundo procura por isso, uma mão para segurar. Apoio. A promessa de que tudo vai ficar bem. Era tudo o que queriam de mim. De mim, o estressado, o desesperado, o renomado aqui. O pressionado. Nenhuma dessas pessoas sabe o mínimo sobre ser grande e glamoroso, grande e carismático, um grande exemplo de vida. Por volta do andar número 130, você começa a delirar, a desvairar, a falar bobagens, a dizer coisas sem sentido. Não que alguém além da Fertility saiba o tamanho do esforço diário que fiz para chegar a este ponto. Imagine como você se sentiria se sua vida fosse reduzida a um trabalho que você odeia. Não, todo mundo acha que a vida inteira deveria ser tão divertida quanto a masturbação. Eu queria ver essa gente pelo menos tentar viver fora dos quartos de hotel e conseguir comer comida saudável e ser minimamente convincente ao fingir sentir uma paz interior profunda e uma unicidade com Deus. Quando você fica famoso, o jantar não é mais comida, mas sim um combustível de meio quilo de proteína, um quilo de carboidratos, nada de sal, gordura, açúcar. Essa é a refeição para cada duas horas, seis vezes ao dia. Comer já não se trata mais de comer. Trata-se de assimilar proteínas. Trata-se de cremes de rejuvenescimento celular. A higiene se torna esfoliar. O que antes era respiração agora é tomar fôlego. Eu seria o primeiro a parabenizar quem mais bem fingisse ter uma beleza perfeita e oferecer mensagens vagas e inspiradoras: Acalme-se. Todo mundo respirando fundo. A vida é boa. Seja justo e generoso. Seja o amor. Até parece. Na maioria dos casos, essas mensagens e crenças profundas vêm direto das* mãos da equipe de redação para as minhas trinta segundos antes de subir no palco. Era por isso que eu abria com uma prece silenciosa. Para ter um minuto para abaixar o olhar no palanque e ler meu roteiro.  Cinco minutos se passam. Dez minutos. Os quatrocentos miligramas de Deca- Durabolin e cipionato de testosterona que você injetou ainda são somente uma pequena protuberância na pele da sua nádega. Os quinze mil fiéis pagantes estão ajoelhados diante de você de cabeça baixa. Como uma ambulância que passa zunindo por uma rua silenciosa, é a sensação dessa química na minha corrente sanguínea. Comecei a usar roupas litúrgicas no palco porque, com tanto Equipoise no seu sistema, você passa metade do tempo de pau duro. Quinze minutos se passam e toda essa gente está de joelhos. Quando você estiver pronto, basta falar a palavra mágica. Amém. E aí o espetáculo começa. — Vocês são os filhos da paz em um universo de vida eterna e de uma abundância ilimitada de amor e bem-estar, blá-blá-blá. Vão em paz. (p. 128 e 129).

O risco de ser famoso é ter de tomar levotiroxina sódica para emagrecer. Sim, é preciso se preocupar com o sistema nervoso central. Tem a insônia. O metabolismo fica descontrolado. O coração palpita. Você sua. Fica nervoso o tempo todo, mas o seu visual fica fantástico. (p. 129).

Anfetamina é a droga mais americana. Você faz tantas coisas. Sua aparência* fica ótima e seu sobrenome é Realização.
— Seu corpo inteiro serve de modelo para a sua marca de roupas esportivas!
— grita o agente.
Sua tireoide estanca a produção natural de tiroxina. Mas você ainda parece ótimo. E está, você é o Sonho Americano. Você é a economia em constante crescimento. Segundo o agente, essas pessoas que buscam um líder desejam vibração. Desejam grandiosidade. Desejam dinamismo. Ninguém deseja um deus magricelo. Elas desejam um abismo de quinze centímetros entre a largura do peito e a da cintura. Peitorais grandes. Pernas longas. Queixo furado. Panturrilhas bojudas. Elas desejam alguém que vá além do humano. Elas desejam algo grandioso. Ninguém deseja apenas o anatomicamente correto. As pessoas querem o aprimoramento anatômico. O cirurgicamente aumentado. O novo e melhorado. Implantado com silicone. Injetado com colágeno. Só para constar, depois do primeiro ciclo de três meses de Deca-Durabolin, eu não conseguia me esticar para amarrar os cadarços. Meus braços estavam enormes nesse nível. Sem problemas, diz o agente, e contrata alguém para amarrar os cadarços de todos os meus sapatos. Depois de dezessete semanas tomando Metahapoctehosich fabricado na Rússia, meu cabelo caiu e o agente me deu uma peruca.
— Nós temos que chegar a um meio-termo. Ninguém quer louvar um Deus que amarra os próprios sapatos — diz o agente.
Ninguém vai adorar você se os seus problemas, mau hálito, cabelo desgrenhado e unhas malcuidadas forem os mesmos de uma pessoa normal. Você tem de ser o que as pessoas normais não são. Onde elas fracassam, você tem de prosperar. Ser o que as pessoas têm medo de ser. Tornar-se a pessoa que elas admiram. As pessoas que compram um messias querem qualidade. Ninguém vai seguir um fracassado. Quando se trata de escolher um salvador, ninguém se contenta com um ser humano.
— Uma peruca é melhor para você — disse o agente. — Ela tem uma perfeição consistente na qual podemos confiar. Ao sair dos helicópteros, sob os holofotes, a cada minuto em público, não dá para controlar a aparência de um cabelo de verdade. Como o agente me explicou, esse plano foi afirmando que nosso público-alvo não é composto das pessoas mais inteligentes do mundo, mas sim da maioria.
— De agora em diante, pense em si mesmo como um novo refrigerante diet — disse ele. *— Pense nesses jovens por aí que se debatem com religiões ultrapassadas ou que não têm religião, pense nessa gente como o seu público-alvo — disse ele. As pessoas buscam uma forma de juntar tudo. Elas precisam de uma teoria de campo unificada que combine glamour e santidade, moda e espiritualidade. As pessoas precisam conciliar bondade com beleza. Depois de dias e dias sem ingerir nada sólido, dormindo pouco, subindo milhares de degraus e ouvindo o agente me contar sem parar suas ideias aos berros, tudo isso faz todo sentido.
A equipe musical estava ocupada redigindo louvores antes que eu tivesse assinado um contrato. A equipe de redação perdia o sono com a minha autobiografia. A equipe de mídia cuidava dos comunicados à imprensa, dos contratos de licenciamento de produtos, do espetáculo de patinação “A Tragédia Mortal da Crendice on Ice”, das transmissões por satélite, das sessões de bronzeamento. A equipe de imagem controlava a minha aparência. A equipe de redação controlava todas as palavras que me saíam da boca. Para encobrir a acne causada pelos ciclos de Laurabolin, comecei a usar maquiagem. Para curar a acne, alguém da equipe de apoio me arrumou uma receita de Roacutan. Para a queda de cabelo, a equipe de apoio borrifava Rogaine na minha cabeça. Tudo o que fizemos para me corrigir tinha efeitos colaterais que tínhamos de corrigir. Aí as correções tinham efeitos colaterais que tinham de ser corrigidos, e por aí vai. Imagine um conto de fadas no qual o herói se olha no espelho e quem o encara de volta é um completo desconhecido. Cada palavra dita por ele é escrita por uma equipe de profissionais. Tudo o que ele veste é escolhido ou criado por uma equipe de estilistas. Cada minuto de cada dia é planejado pela assessora de imprensa. Acho que agora dá para sacar a situação. Além disso, o herói injeta medicamentos que só podem ser comprados na Suécia ou no México, e ele não consegue ver além do próprio peitoral inchado. Ele está bronzeado e barbeado e usa uma peruca e uma agenda, porque as pessoas em Tucson, as pessoas em Seattle ou Chicago ou Baton Rouge não querem um representante com as costas peludas. Por volta do ducentésimo andar você chega ao ápice. Você está anaeróbico e queima músculo em vez de gordura, mas sua mente está cristalina. A verdade é que tudo faz parte do processo de suicídio. Afinal, o bronzeamento e os esteroides só se tornam um problema se seu plano for viver muito tempo. Afinal, a única diferença entre o suicídio e o martírio é a intensidade da cobertura da imprensa. *Se uma árvore cai na floresta e ninguém está lá para ouvir, ela não fica lá e apodrece? E se Cristo tivesse morrido por overdose, sozinho no chão de um banheiro, Ele estaria no Paraíso? A questão não era se eu me mataria ou não. Tudo isso, esse esforço, esse dinheiro e esse tempo, a equipe de redação, os medicamentos, a dieta, o agente, os lances de escada que não levavam a lugar algum, tudo isso era só para eu acabar com a minha vida diante do olhar atento de todos. (p. 129, 130, 131, 132).

Desta vez, o agente perguntou como eu me via dali a cinco anos. Morto, respondi. Me vejo morto e apodrecendo. Ou em cinzas, eu consigo me ver reduzido a cinzas. Eu tinha uma arma carregada no bolso, lembro-me. Estávamos só nós dois no fundo de um auditório lotado e escuro. Eu me lembro de que era a noite da minha primeira grande aparição pública. Eu me vejo morto e no Inferno, eu disse. Eu me lembro de que planejava me matar naquela noite Eu disse ao agente: eu acho que passaria meus primeiros mil anos no Inferno como um aprendiz, mas depois desse período ia querer chegar à gerência. Trabalhar bem em equipe. O Inferno veria um enorme crescimento da sua fatia
de mercado no próximo milênio. Eu queria estar na vanguarda. O agente disse que era uma ideia bem realista.
Nós estávamos fumando cigarros, eu me lembro. Lá no palco, um sacerdote
estava fazendo o show de abertura. Parte desse aquecimento servia para deixar a plateia hiperventilada. Basta cantar bem alto. Ou recitar. Segundo o agente, quando as pessoas gritam desse jeito ou dão graças a plenos pulmões, elas respiram demais. O sangue das pessoas deve ser ácido. Quando elas hiperventilam, o nível de dióxido de carbono no sangue delas cai e o sangue fica alcalino.
— Alcalose respiratória — diz ele.
As pessoas ficam tontas. Caem no chão com um zumbido nos ouvidos, os dedos ficam dormentes, sentem dores no peito, suam. Teoricamente, isso deveria ser o arrebatamento. As pessoas vão ao chão com as mãos retesadas como garras. Isso é que deveria ser o êxtase. — As pessoas no mercado religioso chamam isso de “virar lagosta”. Chamam de “falar em línguas”. Movimentos repetitivos ampliam o efeito, e o show de abertura no palco faz o trabalho de sempre. A plateia bate palmas em uníssono. Longas fileiras de pessoas dão-se as mãos e balançam juntas em delírio. As pessoas fazem aquele gesto de arco-íris. Quem quer que tenha inventado essa coreografia, diz o agente, deve ser o chefão do Inferno. Lembro-me de que o patrocinador era a Limonada Instantânea Tradicional Summer Time. Minha deixa é a chamada para o palco, minha parte do show é enfeitiçar todo mundo. — Um estado de transe natural — diz o agente. Ele tira um frasco marrom do bolso do paletó: — Tome uns Endorphinols se* ficar emocionado — diz o agente. Digo a ele para me dar logo um monte. Para preparar esta noite, os funcionários da equipe visitaram pessoas e distribuíram entradas gratuitas. O agente está me contando isso pela centésima vez. Os funcionários pedem para usar o banheiro durante a visita e anotam tudo o que encontram na gaveta de remédios. Segundo o agente, o reverendo Jim Jones fez isso e funcionou como um milagre para o People’s Temple. “Milagre” provavelmente não é a palavra certa. No púlpito há uma lista de pessoas que nunca vi e suas respectivas doenças. Sr. Steven Brandon, eu tenho de chamar. Venha e receba o toque de Deus nos seus rins debilitados. Sr. William Doxy , venha e ponha seu coração estropiado na mão de Deus. Parte do meu treinamento foi sobre como pressionar os dedos nos olhos de alguém fundo e rápido o suficiente para que a pressão seja registrada pelo nervo óptico como um clarão de luz branca.
— Luz divina — diz o agente.
Parte do meu treinamento foi sobre como pressionar as mãos nas orelhas de alguém forte o suficiente para causar um zumbido que eu diria que é o Om eterno. — Entre — diz o agente. Eu perdi minha deixa. No palco, o sacerdote da abertura grita por Tender Branson no microfone. O único, o maior, o último sobrevivente, o grande Tender Branson. — Espere — diz o agente. Ele tira o cigarro da minha boca e me empurra corredor acima. — Agora vá — diz ele. Todos os braços se esticam pelo corredor para me tocar. Os holofotes no palco diante de mim brilham muito. Na escuridão ao meu redor, há o sorriso de mil pessoas em delírio que pensam que me amam. Só o que preciso fazer é caminhar até os holofotes. Isso é morrer sem se preocupar com controle. A arma é pesada e bate no meu quadril dentro do bolso da calça. Isso é ter uma família sem ter parentes. Ter relacionamentos sem laços. No palco, os holofotes estão mornos. Isso é ser amado sem o risco da reciprocidade. Eu me lembro de que esse era o momento perfeito para morrer. Não era o Paraíso, mas foi o mais perto disso que consegui chegar. Levantei os braços e as pessoas aplaudiram. Abaixei os braços e elas se calaram. O roteiro estava no palanque para que eu lesse. A lista datilografada me informava quem na escuridão sofria de quê. O sangue de todo mundo estava alcalino. O coração de todo mundo estava à disposição. Era assim que eu me sentia quando roubava. Era assim que me sentia* ao ouvir as confissões na minha linha de emergência. Era assim que imaginava que fosse o sexo. (p. 134, 135 e 136).

— O que é uma prece? — pergunta ele. — É um sortilégio — ele diz e grita comigo ao telefone. — É uma maneira pela qual as pessoas concentram energia em torno de uma necessidade específica. As pessoas precisam ter clareza quanto a uma única intenção e realizá-la. Prece para Evitar Multas de Trânsito Prece para Cessar Vazamentos — As pessoas rezam para resolver problemas e esses aí são os problemas mais sinceros delas — o agente continua gritando comigo. Prece para Hipersensibilidade Vaginal — Uma prece é uma forma de fazer o mundo girar — diz ele. O coração dele é de pedra mesmo. — Você ora para que suas necessidades sejam reconhecidas. Prece para Ruídos Estranhos do Carro Prece para Encontrar uma Vaga no Estacionamento Ó divino e piedoso Deus Ninguém na história jamais Vos adorará como eu Se Vós me oferecerdes hoje uma vaga para estacionar. Pois Vós sois o provedor. E Vós sois a origem. Vós concedeis todo o bem. Em Vós tudo é encontrado. Sob Vosso cuidado, eu encontro descanso. Sob Vossa orientação, eu encontro paz. Para parar, descansar, paralisar, estacionar. Vós podeis me conceder. É o que peço. Amém. Já que estou prestes a morrer aqui, as pessoas precisam saber que minha intenção sempre foi servir à glória de Deus. Mais ou menos. Não que isso esteja na nossa declaração de missão, mas era o meu plano, em linhas gerais. Eu quero pelo menos fazer um esforço. Esse novo livro simplesmente não parecia se muito religioso. Nem um pouco devoto. (p. 140).

Não dá para chamar a Fertility Hollis de fada madrinha, mas você se surpreenderia com os lugares onde ela aparece. Mas, na maioria das vezes, não era o que acontecia. Fertility e seus olhos cinza entediados como o oceano. Fertility com sua respiração de suspiros exaustos. Ela é o olho enfastiado do furacão, o mundo dela é assim. Fertility e seus braços e expressões preguiçosos como os de um sobrevivente esgotado, um imortal, um vampiro egípcio depois de passar milhões de anos assistindo às reprises que chamamos de história, ela joga-se na cadeira à minha frente e eu fico agradecido por isso, pois preciso que ela me arrume um milagre, de qualquer forma. Isso foi quando eu ainda conseguia escapar do meu séquito. Eu ainda não era um anônimo, mas estava quase lá graças ao meu declínio na mídia. Meu desabamento publicitário. Pela moleza de Fertility, com os cotovelos na mesa e o rosto nas mãos, o cabelo vermelho insípido caindo na cara, dava para achar que ela acabara de chegar de um planeta com menos gravidade que a Terra. Como se aqui, magra como é, ela pesasse uns quatrocentos quilos. Ela está desleixada, com calças, blusa, sapatos e carregando uma bolsa simples. O ar-condicionado está ligado e dá para sentir o cheiro do amaciante de roupas, doce e artificial. A aparência dela é de algo diluído. A aparência dela é de algo desaparecendo. A aparência dela é de algo apagado. (p. 143).

Em quase todos os banheiros masculinos há um buraco nas divisórias entre dois privativos. Ele é aberto na madeira com uns dois centímetros e meio de espessura por alguém que usou somente os dedos para fazê-lo. Ele demora dias ou meses para ficar pronto. Há buracos como esse em mármore, em aço. Como se fosse alguém tentando fugir de uma prisão. O buraco é grande o suficiente para olhar ou conversar através dele. Ou para meter um dedo ou uma língua ou um pênis e fugir assim, um pouquinho por vez. As pessoas chamam esses orifícios de glory holes. É como achar um veio de ouro. É onde você encontra a glória. Eu estou sentado em um vaso sanitário no aeroporto de Miami e, na altura do meu ombro, há na divisória um buraco cheio de mensagens em volta, deixadas por homens que sentaram aqui antes de mim. John M. esteve aqui em 14/3/64. Carl B. esteve aqui em 8 de janeiro de 1976. Epitáfios. Alguns foram escritos há pouco tempo. Outros foram cobertos, mas tinham sido entalhados tão fundo que ainda dá para lê-los mesmo por baixo de décadas de pinturas. Aqui estão as sombras deixadas por milhares de momentos, milhares de estados de espírito, de necessidades traçadas aqui nessa parede por homens que se foram. Aqui está o registro de que estiveram aqui. Da visita deles. Da passagem deles. Aqui está o que a assistente social chamaria de um documento original principal. Um histórico do inaceitável. Venha hoje à noite e ganhe um boquete. Sábado, 18 de junho de 1973. Tudo isso escrito na parede. Aqui estão palavras sem imagens. Sexo sem nomes. Imagens sem palavras. Raspada aqui há uma mulher nua com as longas pernas abertas, seios redondos e firmes, longos cabelos soltos e sem rosto. Há um pênis decepado tão grande quanto um homem respingando gotas enormes na vagina cabeluda da mulher. O Paraíso, dizem os escritos, é um bufê de boceta. O Paraíso é levar no rabo. Vá para o Inferno, veado. Já estive lá. Vá à merda. (p. 149).

A voz vem do buraco, mas, quando olho através dele, só consigo ver dois lábios pintados de batom. Lábios vermelhos, dentes brancos e um vislumbre de língua úmida dizem: — Eu sabia que você estaria aqui. Eu sei tudo.  É Fertility . Agora no buraco há um olho cinza, que a sombra azul e o delineador aumentaram, e cílios que piscam cheios de rímel. A pupila pulsa, grande e depois pequena. Aí a boca aparece para dizer:
— Não se preocupe. Seu voo vai atrasar mais algumas horas. Na parede ao lado da boca está escrito: Eu chupo e engulo. Ao lado, está escrito: Eu só queria que ela me desse uma chance de amá-la. Há um poema que começa assim: Quente em você há o amor... O restante do poema foi lavado da parede e apagado por ejaculações.
— Estou aqui a trabalho — diz a boca.
Deve ser o trabalho perverso dela.
— É o meu trabalho perverso. É o calor — diz ela.
Nós não conversamos a respeito.
— Não quero falar sobre isso — ela diz.
Parabéns, eu sussurro. Pelas abelhas assassinas, quero dizer. Na parede está escrito: Como se chama uma garota Crente que paga boquete? Morta. Como se chama um veado Crente que dá o cu?
— Você precisa de outra tragédia, né? — diz a boca.
Está mais para umas quinze ou vinte, eu sussurro. — Não — diz a boca. — Você está ficando como todos os caras em quem confiei na vida. Você está ficando ganancioso. Eu só quero salvar as pessoas — Você é um porco ganancioso.
Eu quero salvar as pessoas dos desastres.
— Você é só um cachorro que faz truques.
Eu só faço isso para poder me matar.
— Eu não quero que você morra.
Por quê?
— Por que o quê?
Por que ela não quer que eu morra? É porque ela gosta de mim?
— Não — diz a boca.
 — Eu não odeio você, mas preciso de você. Mas então ela não desgosta de mim? (p. 150)

— Nós todos assistimos aos mesmos programas de TV. Ouvimos as mesmas coisas no rádio, conversamos sobre os mesmos assuntos uns com os outros. Não há mais novidades. É tudo mais do mesmo. Reprises — diz a boca. Dentro do buraco, os lábios dizem: — Todos nós crescemos vendo os mesmos programas de TV. É como se tivéssemos os mesmos implantes artificiais de memória. Não nos recordamos de quase nada da nossa verdadeira infância, mas nos lembramos de tudo o que aconteceu com as famílias dos seriados de comédia. Temos os mesmos objetivos básicos. Todos nós temos os mesmos medos. Os lábios dizem: — O futuro não é promissor. Muito em breve, todos nós pensaremos sempre igual. Seremos um uníssono perfeito. Sincronizado. Unido. Igual. Exato. Como as formigas. Insetos. Ovelhas. Tudo é tão derivativo. Uma referência a uma referência a uma referência. — A grande questão que as pessoas se perguntam não é “Qual é a natureza da existência?” — diz a boca. — A grande questão que as pessoas se perguntam é “De onde é isso?” Eu ouvi o buraco da mesma maneira que ouço as pessoas se confessarem ao telefone, como ouvi as catacumbas procurando por sinais de vida. Perguntei: Então, por que ela precisa de mim? — Porque você foi criado em um mundo diferente — diz a boca. — Porque, se alguém pode me surpreender, esse alguém é você. Você ainda não faz parte da cultura de massa. É a minha única esperança de visualizar algo novo. Você é o príncipe mágico que pode quebrar esse feitiço de tédio. Esse transe de uniformidade diária. Já passei por isso. Conheço bem. Você é um grupo controle de uma pessoa só. Mas não sou, eu sussurro, não sou assim tão diferente. — É sim. E a minha única esperança é que você continue a ser diferente — diz a boca. (p. 151). 

A jornalista está sentada diante de mim. As pernas dela, comparadas ao resto do corpo, não são muito longas. As orelhas estão expostas o suficiente para mostrar os brincos. Todos os problemas dela estão ocultos lá dentro. Os defeitos estão todos disfarçados. O único cheiro que ela emana, até no hálito, é de spray de cabelo. A forma como está encolhida na cadeira, com as pernas cruzadas, mãos pousadas no colo, está mais para um origami de carne e osso. Segundo os storyboards, fico em um sofá na ilha de luzes incandescentes cercada de câmeras e cabos e técnicos silenciosos que fazem seu trabalho na escuridão ao meu redor. O agente se vira para o local onde alguns redatores sinalizam revisões de última hora do texto antes que ele seja exibido no teleprompter. (p. 155).

Ao lado do agente, a tela do teleprompter me diz: EU ME SENTI VIOLENTADO AO SER LEILOADO NU COMO ESCRAVO. Segundo o teleprompter: EU ME SENTI TOTALMENTE HUMILHADO. Segundo o teleprompter: EU ME SENTI USADO E CORROMPIDO. . . MOLESTADO. Os redatores se aglomeram em torno do teleprompter e balbuciam as palavras conforme as leio em voz alta. Enquanto, observado pelas câmeras, eu leio tudo isso em voz alta, a jornalista olha para o diretor em meio à escuridão e toca o pulso. O diretor levanta dois dedos, depois oito dedos. Um técnico avança sob a luz e arruma o cabelo sobre a orelha da jornalista. (p. 156).

Nas sombras, o agente e os redatores comemoram em silêncio. O agente faz um sinal de aprovação empolgado para mim. Minhas mãos estão dormentes. Não consigo sentir o rosto. Minha língua é de outra pessoa. Meus lábios estão mortos, com parestesia circumoral. Efeitos colaterais. A parestesia periférica aniquila a sensibilidade dos pés. Sinto como se meu corpo todo estivesse distante e separado, como a minha imagem, vestindo umterno preto e sentado em um sofá marrom no monitor do estúdio. Essa deve ser a sensação de quando sua alma sobe ao Paraíso e observa o resto do corpo, em carne e osso, morrer. O diretor está acenando com os dedos para mim, dois em uma mão e quatro na outra. O que ele está tentando me dizer, eu não sei. Quase tudo que é exibido no teleprompter saiu da autobiografia que eu não escrevi. A terrível infância que não tive. Segundo o teleprompter, todos os Crentes* estão queimando no fogo do Inferno. (p. 156 e 157).

Durante o intervalo, ela me pergunta se minha infância foi mesmo assim tão horrível. O agente se intromete e diz: Sim, foi. Foi terrível. Um técnico que puxa os fios que passam pela cintura dele e em volta da cabeça se aproxima e pergunta se eu quero beber água. O agente responde: Não. O diretor pergunta se preciso ir ao banheiro e o agente afirma que eu estou bem. Ele diz que eu não gosto de lidar com desconhecidos que fazem perguntas. Eu evoluí para além das necessidades físicas. Aí o técnico revira os olhos e o diretor e a jornalista trocam olhares e dão de ombros, como se tivesse sido eu quem os dispensou. (p. 157).

É Fertility, é a voz dela nos alto-falantes, falando sobre mim para toda a América do Norte. Será que ela vai provocar uma discussão aqui na TV? Meus pensamentos se ramificam em um fluxograma de todas as mentiras que contei e das possíveis respostas para o que ela pode dizer. Será que ela vai me expor e as minhas previsões de tragédias? Será que ela juntou lé com cré e percebeu que eu dei uma força para o suicídio do irmão dela? Ou será que ela sabia disso o tempo todo? E, se ela sabe que matei o irmão dela, o que vai acontecer? (p. 158).

— Telespectadora número três, você ainda está aí? — pergunta a jornalista. O diretor está apontando para nós, cinco, quatro, três, dois, um. Aí ele atravessa o indicador pela garganta. (p. 160).

A Campanha do Gênesis foi a ideia menos minha. Resisti à Campanha do Gênesis o quanto pude. O problema era que as pessoas perguntavam se eu era virgem. Pessoas inteligentes perguntavam se não era meio insensato ainda ser virgem na minha idade. As pessoas perguntavam: Qual é o problema do sexo? O que eu tinha de errado? A Campanha do Gênesis foi a solução rápida do agente. Cada vez mais, as coisas na minha vida eram a solução para uma solução anterior de uma solução anterior até eu me esquecer do problema original. Nesse caso, a questão era que não dava para ser um virgem norte-americano de meia-idade sem que haja algo errado com você. As pessoas não conseguem conceber que alguém tenha uma virtude que elas não conseguem conceber em si mesmas. Em vez de acreditar que você é mais forte, é mais fácil acreditar que você é mais fraco. Você é um viciado em masturbação. Você é um mentiroso. As pessoas sempre acreditam de cara no contrário do que você disser. (p. 167). 

O lance do sexo, o agente me diz, é que, não importa qual seja a intensidade do seu desejo, você consegue esquecê-lo. Quando era adolescente, o agente desenvolveu uma alergia a leite. Ele adorava leite, mas não podia bebê-lo. Anos depois, criaram um leite sem lactose que ele podia beber, mas hoje em dia detesta o gosto de leite. Quando ele parou de beber álcool por causa de um problema nos rins, achou que enlouqueceria. Agora ele nem pensa mais em bebida. Para evitar rugas, a equipe de dermatologia aplicou Botox, a toxina botulínica, em quase todos os músculos ao redor da minha boca e dos meus olhos para paralisá-los pelos próximos seis meses. Com os efeitos colaterais de parestesia periférica de todas as interações medicamentosas, mal consigo sentir as mãos e os pés. Com as injeções de Botox, mal consigo mexer o rosto. Eu consigo falar e sorrir, mas de maneira bastante limitada. (p. 168).

As pessoas não querem que eu aja de maneira mundana. Elas esperam que eu guarde certa inocência vinda do Jardim do Éden pré-maçã. Algo como a ingenuidade de Jesus quando bebê. As pessoas perguntam: Eu sei como funciona uma TV? Não, eu não sei, mas a maioria das pessoas também não sabe. Para início de conversa, a verdade é que eu nunca fui um gênio, e a cada dia fico mais ignorante. Não sou um idiota, mas estou chegando lá. Não dá para viver no mundo aqui fora durante toda a vida adulta sem pegar o jeito. Eu sei como funciona um abridor de latas. A parte mais difícil de ser um líder religioso famoso e renomado é ter de me rebaixar às expectativas das pessoas. As pessoas perguntam: Eu sei para que serve um secador de cabelo? Segundo o agente, o segredo para estar sempre no topo é não ser ameaçador. Ser um nada. Um espaço em branco que as pessoas possam preencher. Ser um espelho. Eu sou a versão religiosa de um ganhador da loteria. Os EUA estão cheios de gente rica e famosa, mas, teoricamente, eu sou uma mistura rara: renomado e idiota, famoso e humilde, inocente e rico. As pessoas acham que basta viver sua vidinha simples, sua rotina de Joana D’Arc, ser a Virgem Maria que lava louças, e um dia a vez delas vai chegar. As pessoas perguntam: Eu sei o que é um quiroprático? As pessoas acham que a santidade é algo que acontece do nada. O processo como um todo deveria ser fácil assim. Como se qualquer um pudesse ser a Lana Turner na farmácia Schwab ao ser descoberto. Quem sabe no século XI fosse possível ser tão submisso. Hoje, as pessoas removem as ruguinhas ao redor da boca com laser antes de gravar o especial de Natal para a TV. Agora temos peelings químicos. Dermoabrasão. Para Joana D’Arc foi moleza. Hoje, as pessoas perguntam: Eu sei o que é uma conta-corrente? As pessoas sempre me perguntam por que não sou casado. Eu tenho pensamentos impuros? Acredito em Deus? Eu me masturbo? Eu sei o que uma picotadeira faz? Eu não sei. Eu não sei. Tenho minhas dúvidas. Não vou dizer. E tenho o agente para me explicar tudo sobre picotadeiras. Mais ou menos a essa altura da história, recebo uma cópia do Manual diagnóstico e estatístico de doenças mentais pelo correio. Alguém da equipe de correspondências o encaminha para um assistente de interfaces de mídia que o entrega a um subassessor de imprensa que o direcionou ao programador diurno que o deixou na bandeja do meu café da manhã na suíte do hotel. (p. 171). 

Messias. Salvador. Líder, é como me chamam. Herege. Blasfemo. Anticristo. Demônio, é como me chamam. Então estou sentado na cama com a bandeja no colo e leio o manual. Não há remetente no pacote, mas a assinatura da assistente social está na contracapa. É estranho como os nomes superam os donos, o significante supera o significado, o símbolo supera o simbolizado. Como os nomes entalhados em pedra nas catacumbas do mausoléu Memorial de Columbia, a única coisa que sobrou da assistente social foi o nome. Nós nos sentimos superiores aos mortos. Por exemplo: Se Michelangelo era assim tão esperto, por que morreu? Como me sinto lendo o MDE: posso ser um bobalhão obeso, mas ainda estou vivo. A assistente social continua morta e aqui está a prova de que tudo o que ela estudou e acreditou durante a vida já está errado. No final desta edição do MDE estão relacionadas as revisões da última edição. As regras já foram alteradas. Aqui estão as novas definições do que é aceitável, do que é normal, do que é são. O Orgasmo Masculino Inibido agora é Transtorno do Orgasmo Masculino. O que era Amnésia Psicogênica agora é Amnésia Dissociativa. O Transtorno de Ansiedade no Sonho agora é Transtorno de Pesadelo.  Os sintomas mudam de edição para edição. Pessoas lúcidas são loucas de acordo com o novo padrão. As pessoas que eram consideradas loucas são a imagem da saúde mental. (p. 172). 

Vindos de um dos privativos ao meu lado, ouço gemidos e respirações. Alguém fazendo sexo ou defecando, não consigo distinguir. O privativo onde estou tem buracos nas duas divisórias, mas não consigo olhar através deles. Se Fertility já está aqui, eu não sei. Se Fertility estiver sentada aqui ao meu lado, calada até ficarmos a sós, eu vou implorar pelo meu grande milagre. Ao lado do buraco, à minha direita, está escrito: Aqui me sento com dor no peito, tento cagar e só peido. Ao lado dessa frase, está escrito: Essa é a história da minha vida. Ao lado do buraco, à minha esquerda, está escrito: Pau duro ganha punheta. Ao lado dessa frase, está escrito: Vá tomar no cu. Ao lado dessa frase está escrito: Com prazer. Este é o aeroporto de Nova Orleans, o aeroporto mais próximo do Superdome, onde vai acontecer o Super Bowl amanhã, onde, no intervalo, eu vou me casar. E o tempo está se esgotando. Lá fora, no corredor, meu séquito e minha nova noiva estão esperando por mim há mais de duas horas, enquanto fiquei aqui sentado por tanto tempo que minhas entranhas estão prestes a cair da minha bunda. Minhas calças estão esmagadas entre meus tornozelos. O protetor de papel do vaso sanitário está absorvendo água da privada e molhando minha pele. O cheiro das coisas dos outros invade minhas narinas quando respiro. Descarga após descarga, sempre que um homem vai embora, chega outro. Na parede, está entalhado: você sabe como a vida e os filmes pornôs terminam. A única diferença é que a vida começa em um orgasmo. Ao lado dessa frase está entalhado: Chegar ao fim é que é a parte excitante. Ao lado dessa frase está entalhado: Que tântrico. Ao lado dessa frase está entalhado: Esse lugar cheira a merda. Ouço a última descarga. O último homem lava as mãos. Os últimos passos saem pela porta. Sussurro no buraco à minha esquerda: Fertility ? Você está aí? Sussurro no buraco à minha direita: Fertility ? Você está aí? Não há mais nada além do meu medo de que outro homem entre aqui para ler seu jornal e descarregue mais uma série espetacular de seis refeições. Aí, do buraco à minha direita, ouço: — Odiei você ter me chamado de puta na TV.
Sussurro de volta: Sinto muito. Eu só estava lendo o roteiro que me passaram.
— Eu sei disso. Eu sei que ela sabe.
A boca vermelha dentro do buraco diz: — Eu liguei sabendo que você ia me trair. Livre-arbítrio não tem nada a ver* com isso. Foi um lance Jesus/Judas. Basicamente, você é meu fantoche. Obrigado, eu digo. (p. 177 e 178).

— Aquilo que falei para você está começando. Precisamos urgentemente trancafiá-lo em algum lugar. Ele vai entrar em Síndrome de Abstinência de Atenção — diz Fertility . (p. 200).

O mundo inteiro é um desastre anunciado. (p. 205).

Pode ser o Botox que me injetaram ou as interações medicamentosas ou a falta de sono ou os efeitos de longo prazo da Síndrome de Abstinência de Atenção, mas eu não sinto nada. O interior da minha boca tem um gosto amargo. Aperto os gânglios linfáticos no meu pescoço, mas tudo o que sinto é desdém. Pode ser que, depois que todo mundo à minha volta morreu, eu tenha desenvolvido uma habilidade para perder as pessoas. Um talento natural. Uma bênção. Como ser estéril é uma habilidade profissional perfeita para que Fertility seja mãe de aluguel, pode ser que eu tenha desenvolvido uma ausência útil de sentimentos.
Assim como você consegue olhar para sua perna amputada na altura do joelho e não sentir nada a princípio, pode ser que seja apenas o choque. Mas eu espero que não seja. Não quero que isso passe. Rezo para nunca mais sentir nada. Porque, se isso passar, vai doer muito. Vai doer muito pelo resto da minha vida. Você não aprende isso em uma escola de etiqueta qualquer, mas, para evitar que os cães cavem algo que você enterrou, despeje amoníaco no local. Para evitar formigas, borrife bórax. Para evitar baratas, use sulfato de alumínio. Óleo de hortelã evita ratos. Para retirar manchas de sangue sob as unhas, enfie os dedos na metade de um limão e mexa-os. Enxágue-os em água morna. Os restos do carro queimaram até sobrar somente os assentos incandescentes. Apenas uma faixa de fumaça flutua sobre o vale.* Quando tento levantar o corpo de Adam, a arma cai do bolso do casaco. O único som vem de algumas moscas que zunem em torno da pedra ainda gravada com uma cópia ensanguentada da minha mão. (p. 227 e 228).

Ela sabe. Durante todas aquelas noites em que eu estava desmaiado, foi só sobre isso que Adam conversou com Fertility. Eu e ela temos de fazer sexo. Para me libertar e me empoderar. Para provar a Fertility que o sexo poderia ser mais do que um rico consultor de marketing de meia-idade esguichando o DNA dele dentro dela. (p. 234).