sexta-feira, 1 de junho de 2018

Juan-David Nasio: o livro da dor e do amor (trechos do livro)



O amor é uma espera
e a dor
a ruptura súbita e imprevisível
dessa espera.

Clémence ou a travessia da dor

Clémence tinha trinta e oito anos. Sofria de esterilidade e lutava para tornar-se mãe. Estava em análise comigo há três anos. Ainda me lembro muito bem do dia em que, informando-me de que enfim estava grávida, exclamou: “Conseguimos!” Senti então que eu compartilhava a felicidade de um grupo de pessoas próximas que, com Clémence, se mobilizara para conseguir essa gravidez. Pensei no seu marido, tão presente, e no seu ginecologista, um excelente especialista em esterilidade.
Durante os meses seguintes, as sessões foram essencialmente dedicadas a viver e a dizer esse período intenso em que uma mulher descobre que vai ser mãe. Chegou a hora do parto e Clémence deu à luz uma criança maravilhosa. Naquele dia, ela telefonou, radiante, para me participar o nascimento de um menino chamado Laurent. Também fiquei feliz e cumprimentei-a calorosamente. Três dias depois, tive a surpresa de receber um segundo telefonema completamente diferente. Com voz surda e abafada, quase inaudível, ela disse: “Perdi o meu bebê. Morreu hoje de manhã na clínica. Não sabemos como aconteceu.” Ouvindo essas palavras terríveis, fiquei paralisado e só pude dizer: “Não é possível! É absurdo!”
Por algum tempo, Clémence não se manifestou. Seu silêncio não me surpreendia, porque eu sabia, por experiência, como a pessoa enlutada, abatida pelo golpe de uma perda violenta, recusa-se categoricamente a encontrar-se com aqueles que, antes do drama, estavam ligados ao desaparecido. Até imaginei que minha paciente fosse interromper a análise, porque eu estava inevitavelmente associado à sua luta pela fecundação, ao sucesso da gravidez, à felicidade do nascimento, e agora à dor atroz de uma perda brutal e incompreensível. Talvez ela desistisse de continuar comigo o seu atual caminho analítico, para retomá-lo mais tarde com outro profissional. Era necessário, pensei, que imperativamente o seu mundo mudasse. Ora, a realidade foi diferente.
Com efeito, pouco tempo depois desse acontecimento trágico, Clémence voltou. Esgotada, estava incapaz de locomover-se sozinha, e tiveram que acompanhá-la até a sala de espera. Indo ao seu encontro, vi uma mulher transformada pela desgraça. Não era mais do que um corpo impessoal, extenuado, esvaziado de qualquer força, agarrando-se apenas às imagens onipresentes do bebê, em todas as cenas em que ele ainda estava vivo. Seu corpo encarnava perfeitamente o eu exangue do ser sofredor, um eu prostrado, suspenso à lembrança muito viva do filho desaparecido; lembrança martelada por uma pergunta obsessiva: “De que ele morreu? Por que, como ele morreu? Por que aconteceu comigo?” I
Sabemos que esse estado de dor extrema, que perpassa o enlutado, essa mistura de esvaziamento do eu e de contração em uma imagem-lembrança, é a expressão de uma defesa, de um estremecimento de vida. Também sabemos que essa dor é a última muralha contra a loucura. No registro dos sentimentos humanos, a dor psíquica é efetivamente o derradeiro afeto, a última crispação do eu desesperado, que se contrai para não naufragar no nada. Durante todo esse período, que se seguiu imediatamente à morte de Laurent, ouvi muitas vezes Clémence dizer que tinha medo de ficar louca. E, em certos momentos, ela até parecia louca. Às vezes, a aflição da pessoa enlutada dá lugar a tais impulsos de exaltação, em que as imagens demasiado claras e distintas do morto são vividas com a nitidez de uma alucinação. Entretanto, todo o meu saber sobre a dor – naquela época, eu já estava escrevendo este livro – não me protegeu do impacto violento que recebi ao acolher a minha paciente logo depois do acidente. Naquele momento, o nosso laço se reduziu a podermos ser fracos juntos: Clémence arrasada pelo sofrimento e eu sem acesso à sua dor. Eu ficava ali, desestabilizado pela impenetrável infelicidade do outro. As palavras me pareciam inúteis e fiquei reduzido a fazer eco ao seu grito lancinante. Sabia que a dor se irradia para quem escuta. Sabia que, em um primeiro momento, eu tinha apenas que ser aquele que, só por sua presença – mesmo silenciosa –, podia dissipar o sofrimento ao receber as suas irradiações. E que essa impregnação aquém das palavras poderia, justamente, inspirar-me as palavras adequadas para expressar a dor e acalmá-la enfim. Após esse período de alguns meses, em que recebi Clémence frente a frente, e em que a minha escuta se limitou a acompanhar o melhor possível as flutuações da sua infelicidade, ela retomou a sua posição no divã. Foi então que ela pôde começar, verdadeiramente, o seu trabalho de luto – trabalho marcado por uma sessão determinante, que desejo evocar aqui.
Clémence tinha horror de ouvir as palavras de consolo que, nessas circunstâncias, ocorrem tão facilmente aos amigos e próximos: “Não se atormente! Pense em uma nova gravidez. Você ainda tem tempo. Tenha outro filho e você verá que vai esquecer!” Essas palavras inábeis lhe eram profundamente insuportáveis e a punham fora de si. Eu compreendia a veemência da sua reação, porque essas frases supostamente reconfortantes eram efetivamente um apelo ao esquecimento, uma incitação a suprimir pela segunda vez o filho morto. Uma incitação a perdê-lo de novo, não mais na realidade, mas “no coração”. Como se, revoltada, Clémence gritasse para o mundo: “Perdi meu filho e sei que ele não voltará mais. Sei que ele não está mais vivo, mas ele continua a viver em mim. E vocês querem que eu o esqueça! Que ele desapareça pela segunda vez!”. Pedir a Clémence que esquecesse o filho morto, substituindo-o por outro antes de realizar o seu luto, só podia violentá-la. Era pedir-lhe que não mais amasse a imagem do bebê desaparecido, logo que se privasse do único recurso capaz de amenizar a dor, e finalmente que renunciasse a preservar o seu equilíbrio psíquico. A imagem do ser perdido não deve se apagar; pelo contrário, ela deve dominar até o momento em que – graças ao luto – a pessoa enlutada consiga fazer com que coexistam o amor pelo desaparecido e um mesmo amor por um novo eleito. Quando essa coexistência do antigo e do novo se instala no inconsciente, podemos estar seguros de que o essencial do luto começou.
Eu não estava pensando em todas essas considerações teóricas quando, durante uma sessão que ocorreu cerca de oito meses depois do falecimento, interferi de uma maneira que se revelou decisiva. Clémence estava no divã e me falava com o tom de alguém que acabava de reencontrar o gosto pela vida. Eu estava muito concentrado na escuta e, no momento de intervir, pronunciei estas palavras, quase mecanicamente: “… porque, se nascer um segundo filho, quero dizer um irmão ou irmã de Laurent…” Antes que eu pudesse terminar a frase, a paciente me interrompeu e exclamou surpreendida: “É a primeira vez que ouço dizer ‘o irmão ou irmã de Laurent’! Tenho a impressão de que um enorme peso foi tirado de mim.” Ocorreu-me então uma idéia que eu logo comuniquei à minha paciente: “Onde quer que Laurent se encontre agora, estou certo de que ele ficaria feliz de saber que um dia você lhe dará um irmãozinho ou irmãzinha.”
Eu também estava surpreso de ter expresso espontaneamente, em tão poucas palavras, o essencial da minha concepção de luto, segundo a qual a dor se acalma se a pessoa enlutada admitir enfim que o amor por um novo eleito vivo nunca abolirá o amor pelo desaparecido. Assim, para Clémence, o futuro filho que talvez nasça nunca tomará o lugar do seu irmão mais velho, hoje falecido. Ele terá o seu próprio lugar, o lugar que o seu desejo, o desejo dos seus pais e o seu destino lhe reservam. E, simultaneamente, Laurent continuará sendo, para sempre, o insubstituível primeiro filho. 1
I Laurent morreu no berçário, no meio da noite, enquanto Clémence dormia. Foi o seu obstetra – o mesmo que tornara possível a gravidez e fizera o parto – que, na manhã seguinte, lhe participou o falecimento, sem poder apresentar explicações. Hoje, Clémence e seu marido continuam a ignorar a causa exata da morte do filho (p. 11 até 14).

Quanto mais se ama, mais se sofre

São os seguintes os diferentes estados simultâneos do eu atravessa pela dor:
• o eu que sofre a comoção;
• o eu que observa sua comoção;
• o eu que sente a dor;
• e o eu que reage à comoção.
Mas o que é que rompe o laço amoroso, dói tanto e mergulha o eu no desespero? Freud responde sem hesitar: é a perda súbita do ser amado ou do seu amor.
Acrescentamos: a perda brutal e irremediável do amado. É o que advém quando a morte fere subitamente um de nossos próximos, pai ou cônjuge, irmão ou irmã, filho ou amigo querido. A expressão “perda do ser amado”, usada por Freud nos últimos anos da sua vida, aparece essencialmente em dois textos maiores que são Inibição, sintoma e angústia e Mal-estar na cultura. Cito um trecho deste último: “O sofrimento nos ameaça de três lados: no nosso próprio corpo, destinado à decadência e à dissolução…; do lado do mundo exterior, que dispõe de forças invencíveis e inexoráveis para nos perseguir e aniquilar.” A terceira ameaça, que nos interessa agora, “provém das nossas relações com os seres humanos.” E Freud precisa: “O sofrimento oriundo dessa fonte é talvez mais duro para nós do que qualquer outro”. Ele examina então, com muito cuidado, um depois do outro, os diferentes meios de evitar os sofrimentos corporais e as agressões exteriores. Mas quando aborda o meio de proteger-se contra o sofrimento que nasce da relação com o outro, que remédio encontra? Um remédio aparentemente muito simples, o do amor ao próximo. De fato, para preservar-se da infelicidade, alguns preconizam uma concepção de vida que toma como centro o amor, e na qual se pensa que toda alegria vem de amar e ser amado. É verdade – confirma Freud – que “uma atitude psíquica como essa é muito familiar a todos nós”. Certamente, nada mais natural do que amar para evitar o conflito com o outro. Vamos amar, sejamos amados e afastaremos o mal. Entretanto, é o contrário que ocorre. O clínico Freud constata:
“Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou o seu amor.” Acho essas frases notáveis porque elas dizem claramente o paradoxo incontornável do amor: mesmo sendo uma condição constitutiva da natureza humana, o amor é sempre a premissa insuperável dos nossos sofrimentos. Quanto mais se ama, mais se sofre.
No outro texto, Inibição, sintoma e angústia, a mesma fórmula – “perda do objeto amado” – é usada por Freud para distinguir a dor psíquica e a angústia. Como diferencia ele cada um desses afetos? Propõe o seguinte paralelo: enquanto a dor é a reação à perda efetiva da pessoa amada, a angústia é a reação à ameaça de uma perda eventual. Retomando o nosso desenvolvimento, propomos refinar essas definições freudianas e precisar: a dor é a reação à comoção pulsional efetivamente provocada por uma perda, enquanto a angústia é a reação à ameaça de uma eventual comoção. Mas como explicar o que parece tão evidente, que a perda súbita do amado ou do seu amor seja tão dolorosa para nós? Quem é esse outro tão amado cujo desaparecimento inesperado provoca comoção e dor? Com que trama é tecido o laço amoroso, para que a sua ruptura seja sentida como uma perda? O que é uma perda? O que é a dor de amar? (p. 26 a 27).

Perder o ser que amamos

Vamos deixar as respostas para depois, e consideremos agora a maneira pela qual o eu reage à comoção desencadeada pela perda do ser amado. Definimos a dor de amar como o afeto que traduz na consciência a autopercepção pelo eu da comoção provocada pela perda. Nós a chamamos então de dor traumática. Agora, completamos dizendo que ela é a dor produzida quando o eu se defende contra o trauma. Mais precisamente, a dor de amar é o afeto que traduz na consciência a reação defensiva do eu quando, sendo comocionado, ele luta para se reencontrar. A dor é, neste caso, uma reação.
“…uma aspiração no psiquismo produz um efeito de sucção sobre as quantidades de excitações vizinhas.
… esse processo de aspiração tem o efeito de um ferimento (hemorragia interna) análogo à dor.” (Freud).
Mas qual é essa reação? Diante do transtorno pulsional introduzido pela perda do objeto amado, o eu se ergue: apela para todas as suas forças vivas – mesmo com o risco de esgotar-se – e as concentra em um único ponto, o da representação psíquica do amado perdido. A partir de então, o eu fica inteiramente ocupado em manter viva a imagem mental do desaparecido. Como se ele se obstinasse em querer compensar a ausência real do outro perdido magnificando a sua imagem. O eu se confunde então quase totalmente com essa imagem soberana, e só vive amando, e por vezes odiando a efígie de um outro desaparecido. Efígie que atrai para si toda a energia do eu e o faz sofrer uma aspiração medular violenta, que o deixa exangue e incapaz de interessar-se pelo mundo exterior. Descrevemos aqui a mesma crispação defensiva do eu que intervém na gênese da dor física (dor de reagir), quando toda a energia psíquica “pensa” a representação do ferimento (FIGURA 1). Essa teoria é amplamente desenvolvida em nosso volume dedicado à dor corporal. Agora, a mesma energia aflui e se concentra na representação do ser amado e desaparecido. A dor de perder um ser caro se deve pois ao afastamento que existe entre um eu exangue e a imagem sempre viva do desaparecido. Agora, a mesma energia aflui e se concentra na representação do ser amado e desaparecido. A dor de perder um ser caro se deve pois ao afastamento que existe entre um eu exangue e a imagem sempre viva do desaparecido. (p. 24).

Explicação do fenômeno do “membro fantasma” e do que denomino “amado fantasma”
A imagem psíquica de um braço amputado foi tão superinvestida que acaba sendo projetada para fora do eu e percebida pelo sujeito como um braço alucinado. A sua expulsão deixa no psiquismo um buraco aspirante por onde se escoa a energia do eu até o esvaziamento. Pensamos que esse mecanismo de expulsão da imagem do objeto perdido e o seu reaparecimento no real explicam a alucinação do membro fantasma. Esse mecanismo, que não é outro senão a foraclusão, explicaria também o distúrbio de algumas pessoas enlutadas, que alucinam o defunto e o veem como se ele estivesse vivo. Chamamos esse fenômeno de amado fantasma. Em ambos os casos, o objeto perdido – o braço amputado ou o morto – continua a existir para o eu (p. 33).

O amado cujo luto devo realizar é aquele que me faz feliz e infeliz ao mesmo tempo

Para saber quem é o meu eleito, o seu papel no seio do inconsciente e a dor que sua morte provoca, devemos voltar por um instante ao funcionamento ordinário do sistema psíquico. Desta vez, vamos abordá-lo de um ângulo particular. Já dissemos que esse sistema é regido pelo princípio de desprazer/prazer, segundo o qual o psiquismo é submetido a uma tensão que ele procura descarregar, sem nunca conseguir completamente. Enquanto o estado permanente de tensão se chama “desprazer”, a descarga incompleta e parcial de tensão se chama “prazer”, prazer parcial. Pois bem, no seu funcionamento normal, o psiquismo permanece basicamente submetido ao desprazer, isto é, a uma tensão desprazerosa, já que nunca há descarga completa. Vamos mudar agora a nossa formulação, e ao invés de empregar as palavras “tensão” e “desprazer”, vamos utilizar a palavra “desejo”. Pois o que é o desejo senão uma tensão ardente vista em movimento, orientada para um alvo ideal, o de chegar ao prazer absoluto, isto é, à descarga total? Assim, diremos que a situação ordinária do sistema inconsciente se define pelo estado tolerável de insatisfação de um desejo2 que nunca chega a realizar-se totalmente. Entretanto, afirmar que a tensão psíquica continua sempre viva, e até penosa, que o desprazer domina ou que nossos desejos ficam insatisfeitos, não exprime, de modo algum, uma visão pessimista do homem. Pelo contrário, esse enunciado equivale a declarar que ao longo da nossa existência estaremos, felizmente, em estado de carência. Digo felizmente porque essa carência, vazio sempre futuro que atiça o desejo, é sinônimo de vida.
Se quiséssemos representar espacialmente essa parte de insatisfação que atiça o desejo, não a imaginaríamos como o trecho de um caminho que ainda nos resta percorrer para atingir enfim o alvo mítico de um gozo pleno. Não, a insatisfação não é a parte não percorrida do trajeto do desejo até a satisfação absoluta. É de outra forma que lhes peço que a representem. Proponho que a imaginemos, antes, sob a forma de um buraco. Um buraco situado no centro do nosso ser, e em torno do qual gravitariam os nossos desejos. O vazio futuro não está diante de nós, mas em nós. O trajeto do desejo não descreve pois uma linha reta orientada para o horizonte, mas uma espiral girando em torno de um vazio central, que atrai e anima o movimento circular do desejo. Consequentemente, declarar que nossos desejos são insatisfeitos significa, espacialmente falando, que eles seguem o movimento em espiral de um fluxo que circunscreve uma carência irredutível. Vê-se bem que a carência não é apenas um vazio que aspira o desejo; ela é também um polo organizador do desejo. Sem carência, quero dizer sem esse núcleo atraente que é a insatisfação, o impulso circular do desejo se perturbaria e O amado cujo luto devo realizar é aquele que me faz feliz e infeliz ao mesmo tempo
Para saber quem é o meu eleito, o seu papel no seio do inconsciente e a dor que sua morte provoca, devemos voltar por um instante ao funcionamento ordinário do sistema psíquico. Desta vez, vamos abordá-lo de um ângulo particular. Já dissemos que esse sistema é regido pelo princípio de desprazer/prazer, segundo o qual o psiquismo é submetido a uma tensão que ele procura descarregar, sem nunca conseguir completamente. Enquanto o estado permanente de tensão se chama “desprazer”, a descarga incompleta e parcial de tensão se chama “prazer”, prazer parcial. Pois bem, no seu funcionamento normal, o psiquismo permanece basicamente submetido ao desprazer, isto é, a uma tensão desprazerosa, já que nunca há descarga completa. Vamos mudar agora a nossa formulação, e ao invés de empregar as palavras “tensão” e “desprazer”, vamos utilizar a palavra “desejo”. Pois o que é o desejo senão uma tensão ardente vista em movimento, orientada para um alvo ideal, o de chegar ao prazer absoluto, isto é, à descarga total? Assim, diremos que a situação ordinária do sistema inconsciente se define pelo estado tolerável de insatisfação de um desejo2 que nunca chega a realizar-se totalmente. Entretanto, afirmar que a tensão psíquica continua sempre viva, e até penosa, que o desprazer domina ou que nossos desejos ficam insatisfeitos, não exprime, de modo algum, uma visão pessimista do homem. Pelo contrário, esse enunciado equivale a declarar que ao longo da nossa existência estaremos, felizmente, em estado de carência. Digo felizmente porque essa carência, vazio sempre futuro que atiça o desejo, é sinônimo de vida.
Se quiséssemos representar espacialmente essa parte de insatisfação que atiça o desejo, não a imaginaríamos como o trecho de um caminho que ainda nos resta percorrer para atingir enfim o alvo mítico de um gozo pleno. Não, a insatisfação não é a parte não percorrida do trajeto do desejo até a satisfação absoluta. É de outra forma que lhes peço que a representem. Proponho que a imaginemos, antes, sob a forma de um buraco. Um buraco situado no centro do nosso ser, e em torno do qual gravitariam os nossos desejos. O vazio futuro não está diante de nós, mas em nós. O trajeto do desejo não descreve pois uma linha reta orientada para o horizonte, mas uma espiral girando em torno de um vazio central, que atrai e anima o movimento circular do desejo. Consequentemente, declarar que nossos desejos são insatisfeitos significa, espacialmente falando, que eles seguem o movimento em espiral de um fluxo que circunscreve uma carência irredutível.
Vê-se bem que a carência não é apenas um vazio que aspira ao desejo; ela é também um polo organizador do desejo. Sem carência, quero dizer sem esse núcleo atraente que é a insatisfação, o impulso circular do desejo se perturbaria e então só haveria dor. Vamos nos expressar de outra maneira. Se a insatisfação é viva mas suportável, o desejo continua ativo e o sistema psíquico continua estável. Se, ao contrário, a satisfação é demasiado transbordante ou se a insatisfação é demasiado penosa, o desejo perde o seu eixo e a dor aparece.
Reencontramos aqui a hipótese que habita o nosso texto, isto é, que a dor exprime a turbulência das pulsões no domínio do isso. Assim, um certo grau de insatisfação é vital para conservarmos a nossa consistência psíquica. Mas como preservar essa carência essencial? E ainda, sendo essa carência necessária, como mantê-la nos limites do suportável? É justamente aí que intervém o nosso parceiro, o ser do nosso amor, porque é ele que faz o papel de objeto insatisfatório do meu desejo, e por isso mesmo de polo organizador desse desejo. Como se o buraco de insatisfação no interior estivesse ocupado pelo meu eleito no exterior; como se a carência fosse finalmente um lugar vacante, sucessivamente ocupado pelos raros seres ou coisas exteriores que consideramos insubstituíveis e cujo luto deveríamos realizar caso desaparecessem.
Entretanto, como aceitar que o meu parceiro possa ter essa função castradora de limitar a minha satisfação? Sem dúvida, esse papel restritivo do ser amado pode ser desconcertante, porque habitualmente atribuímos ao nosso parceiro o poder de satisfazer os nossos desejos e nos dar prazer. Vivemos na ilusão, em parte verificada, de que ele nos dá mais do que nos priva. Mas a sua função no seio do nosso inconsciente é completamente diferente: ele nos assegura a consistência psíquica pela insatisfação que ele faz nascer, e não pela satisfação que ele proporciona. Nosso parceiro, o ser do nosso amor, nos insatisfaz porque, ao mesmo tempo em que excita o nosso desejo, ele não pode – a rigor, será que ele teria os meios de fazê-lo? – e não quer nos satisfazer plenamente. Sendo humano ele não pode, e sendo neurótico ele não quer. Isto significa que ele é ao mesmo tempo o excitante do meu desejo e o objeto que só o satisfaz parcialmente. Ele sabe me excitar, me proporcionar um gozo parcial e, por isso mesmo, me deixar insatisfeito. Assim, ele garante essa insatisfação que me é necessária para viver e recentra meu desejo.
Mas, além do parceiro amoroso, há outros objetos eleitos que poderiam assegurar essa função de recentramento do meu desejo? Sim, como por exemplo esse objeto que é o próprio amor, aquele que o meu parceiro me dedica; ou ainda o amor que eu dedico à imagem de mim mesmo, alimentada pelo reconhecimento dos outros, como a honra ou uma posição social. Um outro objeto eleito, um outro objeto do desejo pode ser também a minha integridade corporal, integridade que eu preservo acima de tudo. Acontece até de o objeto eleito ser uma coisa material tão pessoal como o nosso corpo, como a terra natal ou a casa ancestral. Todos são objetos eleitos e ao mesmo tempo tão internos, tão íntimos, tão intrinsecamente ordenadores do movimento do nosso desejo, que vivemos sem perceber a solidez do seu enraizamento no inconsciente. É unicamente quando somos ameaçados de perdê-los, ou depois de tê-los perdido, que a sua ausência revela dolorosamente a profundidade desse enraizamento. É apenas no a posteriori de sua morte que saberemos se o ser, a coisa ou o valor desaparecidos eram ou não eleitos para nós.
De fato, quando paira a ameaça de perder um desses objetos considerados insubstituíveis, é a angústia que surge; e ela surge no eu. Se, em contrapartida, um desses objetos desaparece subitamente, sem ameaça prévia, é a dor que se impõe; e ela emana do isso. Sofrerei a dor no isso se perder brutalmente a pessoa amada (luto), o seu amor (abandono), o amor que dedico à imagem de mim mesmo (humilhação), ou ainda a integridade do meu corpo (mutilação). O luto, o abandono, a humilhação e a mutilação são as quatro circunstâncias que, se forem súbitas, desencadearão a dor psíquica ou dor de amar.
Mas vamos ficar com o caso exemplar em que o objeto do desejo é a pessoa amada, cuja perda suscita a dor do luto. Justamente, o que perdemos quando perdemos o ser que amamos? Ou mais simplesmente: quem é o nosso amado? (p. 34 a 37).

O amor é a presença em fantasia do amado no meu inconsciente

Se insistem para que eu diga por que eu o amava, sinto que isso só pode exprimir-se respondendo: “Porque era ele; porque era eu.” (Montaigne).
Essas linhas de Montaigne são de um belíssimo texto sobre a amizade, escrito pouco depois da morte do seu amigo mais caro, La Boétie. Dentre as muitas amizades que alimentaram a sua alma, ele distingue aquela, única, que o ligava indissoluvelmente ao seu companheiro. Amizade tão poderosa que todas as costuras das suas diferenças se apagaram em uma presença comum. Depois, tentando responder ao motivo de um tal amor excepcional pelo amigo eleito e recentemente desaparecido, Montaigne escreveu essa frase cintilante de beleza e de discrição: “Por que eu o amava? Porque era ele; porque era eu.” Assim, o amor permanece sendo um mistério impenetrável, que não se deve explicar, apenas constatar.
Outro escritor adota uma reserva semelhante diante do enigma do apego ao eleito. Em Luto e melancolia, Freud fala do amor falando da morte. Observa que a pessoa enlutada ignora o valor intrínseco do amado desaparecido: “A pessoa enlutada sabe quem perdeu, mas não sabe o que perdeu ao perder o seu amado.”
Graças ao simples “que”, impessoal, Freud sublinha como o ser que mais amamos é acima de tudo um personagem psíquico e o quanto esse personagem virtual é diferente da pessoa viva. Sem dúvida, o amado é uma pessoa, mas é primeiramente e sobretudo essa parte ignorada e inconsciente de nós mesmos, que desabará se a pessoa desaparecer. Mais recentemente, Lacan, também diante do mistério do laço amoroso, inventa o seu “objeto a”. Pois é precisamente com a expressão “objeto a” que ele simboliza o mistério, sem com isso resolvê-lo. O a, afinal, é apenas um nome para designar o que ignoramos, ou seja, essa presença inapreensível do outro amado em nós, esse duplo psíquico que se coagula quando a pessoa do amado nos deixa definitivamente.
Essa é justamente a questão decisiva, tão insolúvel quanto inevitável. Em que consiste o “o” que perdemos ao perder o ser amado? O que une dois seres para que um deles sofra tão profundamente com o fim súbito do outro? Assim, no momento o nosso problema não é mais o da dor, mas o do amor. É realmente o amor que nos interessa agora, porque é demarcando o melhor possível a sua natureza que chegaremos a uma nova definição psicanalítica da dor. Quem é pois aquele que eu amo e considero único e insubstituível? É um ser misto, composto ao mesmo tempo por esse ser vivo e definido que se encontra diante de mim e pelo seu duplo interno impresso em mim.
Para compreender bem como tal ser se torna meu eleito, vamos decompor em duas etapas o processo do amor pelo qual transformamos um outro exterior em um duplo interno.
• Vamos imaginar uma pessoa que nos seduz, isto é, que desperta e atiça o nosso desejo.
• Progressivamente, respondemos e nos apegamos a essa pessoa até incorporá-la e fazer dela uma parte de nós mesmos. Insensivelmente, nós a recobrimos como a hera recobre a pedra. Nós a envolvemos com uma multidão de imagens superpostas, cada uma delas carregada de amor, de ódio ou de angústia, e a fixamos inconscientemente através de uma multidão de representações simbólicas, cada uma delas ligada a um aspecto seu que nos marcou. Toda essa hera germinada no meu psiquismo, alimentada pela seiva bruta da pressão do desejo, todo esse conjunto de imagens e de significantes que liga o meu ser à pessoa viva do amado até transformá-la em duplo interno, nós o chamamos de “fantasia”, fantasia do eleito. Sei que, usualmente, a
A fantasia é a presença real, simbólica e imaginária do amado no inconsciente. Sua função é regular a intensidade da força do desejo. palavra “fantasia” é equívoca, pois remete à ideia vaga de devaneio ou de roteiro conscientemente imajado. Entretanto, o conceito psicanalítico de fantasia que elaboramos aqui, para melhor compreender a dor, é extremamente preciso. A fantasia é o nome que damos à sutura inconsciente do sujeito com a pessoa viva do eleito. Essa sutura operada no meu inconsciente é uma liga de imagens e de significantes vivificada pela força real do desejo que o amado suscita em mim, e que eu suscito nele, e que nos une. Mas essa fantasia do amado, mesmo sendo levada pelo impulso do desejo, tem por função frear e domar esse impulso. Contendo esse impulso e evitando que ela prossiga, a fantasia do amado satisfaz o desejo saciando-o parcialmente. Assim, diremos que a fantasia instala a insatisfação e assegura a homeostase do sistema inconsciente. Compreende-se melhor agora que a função protetora da pessoa do amado é, na verdade, a função protetora da fantasia do amado.
A fantasia é protetora porque nos preserva do perigo que significaria uma turbulência desmesurada do desejo ou o seu equivalente, o caos pulsional.
Em resumo, a pessoa amada deixou de ser apenas uma instância exterior, para viver também no interior de nós, como um objeto fantasiado que recentra nosso desejo, tornando-o insatisfeito no limite do tolerável. O ser que mais amamos continua sendo inevitavelmente o ser que mais nos insatisfaz. A insatisfação do desejo se traduz na realidade cotidiana do casal pela atração pelo outro, mas também pelo descontentamento em relação a ele.
Assim, o eleito existe duplamente: por um lado, fora de nós, sob a espécie de um indivíduo vivo no mundo, e por outro lado em nós, sob a espécie de uma presença fantasiada – imaginária, simbólica e real – que regula o fluxo imperioso do nosso desejo e estrutura a ordem inconsciente. Das duas presenças, a viva e a fantasiada, é a segunda que domina, pois todos os nossos comportamentos, a maioria dos nossos julgamentos e o conjunto dos sentimentos que experimentamos em relação ao amado são rigorosamente determinados pela fantasia. Só captamos a realidade do eleito através da lente deformante da fantasia. Só o olhamos, escutamos, sentimos ou tocamos envolvido no véu tecido pelas imagens nascidas da fusão complexa entre a sua imagem e a imagem de nós mesmos. Véu tecido também pelas representações simbólicas inconscientes, que delimitam estritamente o quadro do nosso laço de amor. (p. 38 a 41).

A pessoa do amado

A pessoa do amado é ao mesmo tempo um corpo vivo dardejando excitações para o meu desejo e uma presença misteriosa que se imprime no meu inconsciente.  Vamos refinar imediatamente os três modos de presença real, simbólica e imaginária do eleito fantasiado no nosso inconsciente. Mas, antes, vamos distinguir claramente o sentido da expressão “pessoa do amado”, que empregamos para designar a existência exterior do eleito. Se é verdade que a existência fantasiada do outro é mais importante do que a sua existência exterior, não é menos verdadeiro que a primeira se alimenta da segunda, e que a minha fantasia inconsciente só pode desabrochar se o outro estiver vivo. O corpo vivo do eleito, seu corpo de carne e osso, me é indispensável porque sem essa base substrato da minha vida minha fantasia desabaria e o sistema inconsciente perderia o seu centro de gravidade. Ocorreria então uma imensa desordem pulsional, acarretando infelicidade e dor.
Mas por que é preciso que a pessoa do eleito esteja viva para que haja fantasia? Por duas razões. Primeiro, porque ela é um corpo ativo e desejante, do qual provêm as excitações que estimulam o meu próprio desejo, que por sua vez carrega a fantasia. Excitações que são os impactos em mim das irradiações do seu desejo. E depois, porque a dita pessoa é um corpo em movimento, cujo aspecto singular será projetado no seio do meu psiquismo como uma imagem interiorizada que me remete às minhas próprias imagens. Assim, a pessoa concreta do eleito me é absolutamente necessária, porque ela detém um foco irradiante de fontes de excitação que sustenta o meu desejo e, mais-além, a fantasia, e também porque ela é a silhueta viva que se imprime no meu inconsciente e modela minha fantasia.
Contudo, se o corpo do eleito é para a minha fantasia um arquipélago de focos de excitação do meu desejo e o suporte vivo das minhas imagens, o que sou eu, eu e meu corpo, para a fantasia dele? Justamente, a metáfora da hera é muito evocadora, pois a hera é uma planta que não só rasteja e sobe, mas engancha as suas hastes em lugares bem específicos da pedra, nas rachaduras e nas fendas. Do mesmo modo, o meu apego ao outro eleito, que se tornou meu objeto fantasiado, é uma sutura que não pega em qualquer lugar, mas muito exatamente nos orifícios erógenos do corpo, ali onde ele próprio irradia o seu desejo e me excita, sem com isso conseguir me satisfazer. E, reciprocamente, é no meu corpo, nos pontos de emissão do meu próprio desejo, que a fantasia dele se fixará. Admitiremos assim que a minha própria fantasia atará um laço ainda mais potente se, por minha vez, eu for a pessoa viva sobre a qual se construiu a sua fantasia, se eu me tornei o regulador da sua insatisfação.
Em outros termos, minha fantasia será um laço tanto mais apertado quanto mais eu for para o outro aquilo que ele é para mim: o eleito fantasiado. Por conseguinte, é preciso saber que quando amamos, amamos sempre um ser híbrido, constituído ao mesmo tempo pela pessoa exterior com que convivemos no exterior e pela sua presença fantasiada e inconsciente em nós. E reciprocamente, somos para ele o mesmo ser misto feito de carne e de inconsciente. É por isso que lhes falo da fantasia. É para compreender melhor que não sofrerei outra dor senão a dor do desaparecimento daquele que foi para mim o que eu fui para ele: o eleito fantasiado.
Agora, devemos separar bem os três modos de presença fantasiada do eleito, para definir o melhor possível o “que” desconhecido que perdemos ao perder a pessoa real e concreta do ser amado (p. 41 a43).

A presença real do amado no meu inconsciente: uma força

O status fantasiado do amado assume pois três formas diferentes, que correspondem às três dimensões lacanianas do real, do simbólico e do imaginário. Das três, é a presença real do outro no inconsciente que provoca mais dificuldades conceituais, porque esse qualificativo de “real” pode fazer crer que ele se refere simplesmente à realidade da pessoa do eleito.
Ora, “real” não significa uma pessoa, mas aquilo que, dessa pessoa, desperta no meu inconsciente uma força que faz com que eu seja o que eu sou e sem a qual eu não mais seria consistente. O real é simplesmente a vida no outro, a força de vida que anima e atravessa o seu corpo. É muito difícil distinguir nitidamente essa força que emana do corpo e do inconsciente do eleito enquanto ele está vivo e me excita, dessa outra força em mim que arma meu inconsciente. Muito difícil, na medida em que essas forças, na verdade, são uma mesma e única coluna energética, um eixo vital e impessoal que não pertence nem a um nem ao outro parceiro. Difícil também porque essa força única não tem nenhum símbolo nem representação que possa significá-la. É o sentido do conceito lacaniano de “real”. O real é irrepresentável, a energia que garante ao mesmo tempo a consistência psíquica de cada um dos parceiros e do seu laço comum de amor. Em suma, se quisermos condensar em uma palavra o que é o outro real, diríamos que ele é essa força imperiosa e desconhecida que dá corpo ao nosso laço e ao nosso inconsciente. O outro real não é pois a pessoa exterior do outro, mas a parte de energia pura, impessoal, que anima a sua pessoa. Parte que é também, porque estamos ligados, a minha própria parte impessoal, nosso real comum. Entretanto, para que o outro real exista, para que ele tenha essa força real que não pertence nem a um nem ao outro, é preciso que os corpos de um e do outro estejam vivos e frementes de desejo. Se a pessoa do amado não está mais aqui, então falta a excitação. (p. 43 a 44).

A presença simbólica do amado no meu inconsciente: um ritmo

Mas se o status real do eleito é ser uma força estranha que liga como uma ponte de energia os dois parceiros e arma o nosso inconsciente, o status simbólico do eleito é ser o ritmo dessa força. Certamente, não se deve imaginar a tensão do desejo como um impulso cego e maciço, mas como um movimento centrípeto e ritmado por uma sucessão mais ou menos regular de subidas e quedas de tensão.
Nosso desejo não é um real puro, mas uma cadência definida por um ritmo que a torna singular. Ora, o que é o ritmo senão a figura simbólica de um impulso que avança alternando entre tempos fortes e tempos fracos, repetidos a intervalos regulares? O ritmo é, efetivamente, a mais primitiva expressão simbólica do desejo, e até da vida, pois o primeiro germe da vida é energia palpitante. A força de impulsão desejante é real porque é em si irrepresentável, mas as variações rítmicas dessa força são simbólicas, porque são, ao contrário, representáveis.
Representáveis como uma alternância de intensidades fortes e de intensidades fracas, segundo um traçado de picos e de vazios. Ora, formulamos a hipótese de que a presença simbólica do outro no nosso inconsciente é um ritmo, um acorde harmonioso entre o seu poder excitante e a minha resposta, entre o seu papel de objeto e a insatisfação que eu sinto. Se considero o eleito insubstituível, é porque meu desejo se modelou progressivamente pelas sinuosidades do fluxo vibrante do seu próprio desejo. Ele é considerado insubstituível porque ninguém mais poderia acompanhar tão finamente o ritmo do meu desejo. Como se o eleito fosse antes de tudo um corpo, que pouco a pouco se aproxima, se posiciona e se ajusta aos batimentos do meu ritmo. Como se as pulsações da sua sensibilidade dançassem na mesma cadência que as minhas próprias pulsações, e os nossos corpos se excitassem mutuamente.
Assim a cadência do seu desejo se harmoniza com a minha própria cadência, e cada uma das variações da sua tensão responde em eco a cada uma das minhas. Algumas vezes, o encontro é suave e progressivo; outras, violento e imediato. Entretanto, se é verdade que as trocas erógenas podem ser harmoniosas, as satisfações resultantes continuam sendo para cada um dos parceiros satisfações sempre singulares, parciais e discordantes. Nossas trocas se afinam, mas nossas satisfações desafinam. Elas desafinam, porque são obtidas por ocasião de momentos diferentes e em intensidades desiguais. Há uma afinação na excitação e desarmonias na satisfação. Vê-se bem que o meu outro eleito não é apenas a pessoa que tenho diante de mim, nem uma força, um excitante, nem mesmo um objeto de insatisfação; ele é tudo isso ao mesmo tempo, condensado no ritmo de vida do nosso laço de amor. Ora, quando ele não está mais aqui, quando a irradiação do seu ser vivo e que escandia o ritmo do meu desejo. A presença simbólica do eleito é um ritmo, mais exatamente o compasso pelo qual se regula o ritmo do meu desejo.
A presença imaginária do eleito no meu desejante não está mais aqui, e o meu desejo se vê privado das excitações que ele sabia tão bem despertar, perco certamente uma infinidade de riquezas, mas perco principalmente a estrutura do meu desejo, isto é, a sua escansão e o seu ritmo. Assim, a presença simbólica do amado no seio do meu inconsciente se traduz pela cadência pela qual deve regular-se o ritmo do meu desejo. Em resumo, o outro simbólico é um ritmo, ou ainda um compasso, ou melhor, o metrônomo psíquico que fixa o tempo da minha cadência desejante.
Essa maneira que temos de conceber o status simbólico do eleito é uma reinterpretação do conceito freudiano de recalcamento, considerado como a barreira que contém o transbordamento das tendências desejantes. É também uma reinterpretação do conceito lacaniano do significante do Nome-do-Pai, considerado como o limite que enquadra e dá consistência ao sistema simbólico. Seja o recalcamento freudiano ou o significante lacaniano do Nome-do-Pai, trata-se de um elemento canalizador das forças do desejo e ordenador de um sistema. Ora, justamente, o ser eleito, definido como um metrônomo psíquico, cumpre essa função simbólica de obrigar o desejo a seguir o ritmo do nosso laço. Assim, diremos que o eleito, dono do compasso imposto ao meu desejo, me impede de me perturbar ao restringir o meu gozo. Ele me protege e me torna insatisfeito. O eleito simbólico é, definitivamente, uma figura do recalcamento e a figura mais exemplar do significante do Nome-do-Pai.
A presença imaginária do amado no meu inconsciente: um espelho interior A pessoa do amado como corpo vivo não é apenas fonte de excitação do meu desejo; ela é também – como dissemos – a silhueta animada que será projetada no meu psiquismo sob a forma de uma imagem interna. O corpo do outro se duplica assim por uma imagem interiorizada. É precisamente essa imagem interna do amado em mim que nós identificamos como a sua presença imaginária no inconsciente.
O outro imaginário é pois simplesmente uma imagem, mas uma imagem que tem a particularidade de ser ela própria uma superfície polida, sobre a qual se refletem permanentemente as minhas próprias imagens. Eu me vejo e me sinto segundo as imagens que o outro me envia, seja este outro aquele que tenho diante de mim ou aquele que tenho em mim e que chamo de “outro imaginário”. Em outras palavras, capta as imagens de mim mesmo, refletidas nesse espelho que é a imagem interiorizada do meu amado.
Ora, a imagem interior, do meu amado, a que tenho no inconsciente, enviará as minhas imagens e só despertará sentimentos se estiver apoiada pelo corpo vivo do amado. Preciso ter certeza de que meu amado está vivo para que seu duplo no meu inconsciente possa agir como meu espelho interior. Justamente, a vivacidade das imagens que ele me envia depende da força do desejo que nos une. E a força do desejo depende da vitalidade do corpo. Resumindo, é a força do desejo que carrega as imagens de energia e faz delas os substratos dos nossos sentimentos.
Mas quais são as principais imagens de mim mesmo que esse espelho interior me envia? São imagens que, logo que percebidas, fazem nascer um sentimento. Às vezes, percebemos uma imagem exaltante de nós mesmos, que reforça o nosso amor narcísico; outras vezes, uma imagem decepcionante que alimenta a repulsa por nós mesmos; e frequentemente uma imagem de submissão e de dependência em relação ao amado que provoca a nossa angústia.
Duas observações ainda, para concluir sobre o status imaginário do outro amado. O espelho psíquico que a imagem do eleito é no meu inconsciente não deve ser pensado como a superfície lisa do gelo, mas como um espelho fragmentado em pequenos pedaços móveis de vidro, sobre os quais se refletem, confundidas, imagens do outro e imagens de mim. Essa alegoria caleidoscópica tem a vantagem de nos mostrar que a imagem inconsciente que temos do eleito é um espelho fragmentado e que as imagens que nele se refletem são sempre parciais e móveis. Mas essa metáfora tem o defeito de sugerir que a presença imaginária do outro seria inteiramente visual, ao passo que sabemos quanto uma imagem pode ser também olfativa, auditiva, tátil ou cinestésica.
A segunda observação refere-se ao enquadramento da imagem inconsciente do amado, isto é, a maneira pela qual imaginamos o amado, não mais segundo nossos afetos, mas segundo nossos valores. Penso nos diversos ideais que, às vezes sem saber, atribuímos à pessoa do eleito. Ancoramos e desenvolvemos o nosso apego conservando no horizonte esses ideais implícitos. Ideais muitas vezes exagerados, até infantis, constantemente reajustados pelas limitações inerentes às necessidades (corpo), à demanda (neurose) e ao desejo do outro. Ora, quais são esses ideais situados na encruzilhada do simbólico e do imaginário? Eis os principais:
• Meu eleito deve ser único e insubstituível.
• Deve permanecer invariável, isto é, não mudar nunca, a menos que nós próprios o mudemos.
• Deve resistir e sobreviver, inalterável, à paixão do nosso amor devorador ou do nosso ódio destruidor.
• Deve depender de nós, deixar-se possuir e mostrar-se sempre disponível para satisfazer os nossos caprichos.
• Mas, mesmo submisso, deve saber conservar a sua autonomia, para não nos estorvar…
Esses pseudo-ideais, essas exigências infantis mas sempre imperiosas, são comparáveis às do bebê em relação ao seu objeto transicional (p. 44 a 48).

Resumo das causas da dor de amar

A dor provém da perda da pessoa do amado.
A dor provém do desmoronamento da fantasia que me liga ao amado.
A dor provém do caos pulsional do isso, consecutiva ao desmoronamento da represa que era a fantasia.
A dor provém da hipertrofia de uma das imagens parcelares do outro desaparecido (p. 52).

Quem é o outro amado?

O amado é um excitante para nós, que nos deixa crer que ele pode levar a excitação ao máximo. Ele nos excita, nos faz sonhar e nos decepciona. Nosso amado é nossa carência (p. 59 e 60).

A pessoa do amado

A pessoa viva do nosso amado é como um cabide no qual se pendura a fantasia dele que ajudamos a forjar. E com a fantasia penduramos nossas pulsões, nossas imagens e nossos símbolos até cobrir nosso manequim vivo com inumeráveis véus psíquicos (p. 60).

Aquele que amo é aquele que me limita

A representação mais importante que tenho, sem o saber, do meu amado, é a representação dos meus limites. Sim, o amado representa o meu limite. Assim, não apenas o amado me fornece minha imagem, garante a consistência da minha realidade e torna tolerável minha insatisfação, como também representa um freio à desmedida de uma satisfação absoluta que, em todo caso, eu não conseguiria suportar. Em suma, o eleito, que qualificamos de amado, mas que pode ser ao mesmo tempo odiado, temido ou desejado – representa minha barreira protetora contra um gozo que considero perigoso, embora o saiba inacessível. Por sua presença real, imaginária e simbólica, ele é, do lado de fora, o que o recalcamento é do lado de dentro. Essa barreira viva, que me evita os gozos extremos e me garante uma insatisfação tolerável, nem por isso me impede de sonhar com o gozo absoluto. Ao contrário, meu eleito alimenta minhas ilusões, incita-me a sonhar e me proíbe de realizar o meu sonho.
Compreende-se dessa forma por que sofremos quando o eleito morre. Com ele morrem as insatisfações cotidianas e toleráveis dos meus desejos, o que me deixa desamparado, sem norte para orientar o meu desejo. O que a morte do amado acarreta de essencial é a morte de um limite. A perda do meu amado é também a perda do meu senhor. Assim, o trabalho do luto é a reconstrução de um novo limite (p. 60 e 61).

A dor é a certeza do irreparável

Quando há dor em reação a uma perda, é porque o sujeito sofredor considera essa perda irreversível. Pouco importa a verdadeira natureza da perda, seja ela real ou imaginária, definitiva ou passageira, o que importa é a convicção absoluta com a qual o sujeito crê que sua perda é irreparável. Uma mulher pode viver a partida do seu amante com uma imensa infelicidade e considerá-la como um abandono definitivo, enquanto na realidade ela se revelará temporária. Sua dor nasce da certeza absoluta com a qual ela interpreta a ausência do seu amado como sendo uma ruptura sem volta. Aqui, não há nem dúvida nem razão que tempere, apenas certeza e dor. A dor permanece indissociável da certeza, e incompatível com a dúvida. Assim, o sentimento penoso que acompanha a dúvida não é dor, mas angústia. A angústia nasce na incerteza de um perigo temido; ao passo que a dor é a certeza de um mal já realizado (p. 61 e 62).

O amado morto é considerado insubstituível

Digo que o amado é “considerado” insubstituível, e não que ele o é. Somos nós que lhe atribuímos o poder de ser único, tanto em vida quanto imediatamente após o seu desaparecimento. Durante sua vida, agimos guiados pela convicção tácita de que ele é o nosso único eleito. Se ele desaparece, essa convicção se faz explícita e se torna uma certeza dolorosa: ninguém mais nunca poderá substituí-lo. Todavia, é verdade que, com o tempo, uma vez acabado o luto, outra pessoa virá ocupar o lugar do nosso amado (p. 62).

Amor e dor

O eu é como um espelho interior em que se refletem as imagens de partes do nosso corpo ou aspectos do nosso amado. Um excesso de investimento de uma dessas imagens significa amor se a imagem se apoia sobre a coisa real da qual ela é o reflexo. Em contrapartida, o mesmo excesso de investimento significa dor se o suporte real nos deixou.
O amor cego que nega a realidade da perda e, ao contrário, a resignação lúcida que a aceita, eis os dois extremos que dilaceram o eu e suscitam dor. A dor psíquica pode se resumir em uma simples equação: um amor grande demais dentro de nós por um ser que não existe mais fora (p. 62).

O luto é um processo de desamor, e a dor do luto é uma pressão de amor

O luto é um longo caminho, que começa com a dor viva da perda de um ser querido e declina com a aceitação serena da realidade do seu desaparecimento e do caráter definitivo da sua ausência. Estar de luto é aprender a viver com a ausência. Durante esse processo, a dor aparece sob a forma de acessos isolados de pesar. Para compreender a natureza dessas pressões dolorosas, é preciso pensar o luto como um lento trabalho graças ao qual o eu desfaz pacientemente o que tinha atado brutalmente, na hora do golpe da perda. O luto é desfazer aos poucos o que se coagulara precipitadamente. Sob o golpe da perda, o eu sobreinvestiu a representação do amado morto; agora, durante o luto, o eu volta sobre seus passos, desinvestindo lentamente a representação do amado até que esta perca sua vivacidade e deixe de ser um corpo estranho, fonte de dor para o eu. Desinvestir a representação significa retirar-lhe seu excesso de afeto, restituí-la entre as outras representações e investi-la diferentemente. Assim, o luto pode ser definido como um lento e penoso processo de desamor para com o morto para amá-lo de outra forma. Em outras palavras, com o luto o enlutado não esquece o defunto nem deixa de amá-lo, apenas modera um vínculo exacerbado e reativo à perda brutal. Eis por que diremos que ficar de luto é aprender a amar de outra forma o morto, amá-lo sem o estímulo de sua presença viva.
Ora, agora que definimos o luto como um processo de desamor, compreendemos por que a dor acontece sempre que se manifesta um impulso de amor. Com efeito, a dor no luto corresponde ao reinvestimento momentâneo de uma imagem em vias de desinvestimento. É o que se produz quando o enlutado encontra incidentemente na realidade determinado detalhe que lembra o tempo em que o amado estava vivo. Nesse momento, em que a representação do defunto é reanimada pela força da lembrança e o sujeito deve mais uma vez render-se à evidência da irreversível perda, a dor retorna. Digamos claramente, há dor sempre que a imagem do ente falecido é reanimada e que, simultaneamente, eu me curvo à evidência de sua ausência. Portanto, os acessos de dor que pontuam o luto são impulsos de um amor tenaz que se recusa a morrer (p. 63 e 64).

A saudade é uma mistura de amor, dor e gozo: sofro com a ausência do amado e gozo ao oferecer-lhe a minha dor

Mesmo dolorosa, a lembrança do nosso amado perdido pode suscitar o gozo de oferecer nossa dor como homenagem ao desaparecido. Amor, dor e gozo se confundem aqui. Continuar amando o morto certamente faz sofrer, mas esse sofrimento também acalma, pois ele faz reviver o amado para nós (p. 64).

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