sexta-feira, 6 de julho de 2018

Haruki Murakami: homens sem mulheres (excerto da obra)



Sherazade

Sempre que fazia sexo com Habara, ela contava uma história interessante e fantástica. Como a Sherazade de As mil e uma noites. Claro que, ao contrário da antiga lenda, Habara não tinha a menor intenção de cortar a cabeça da mulher pela manhã (para começar, ela nunca ficara ao seu lado até o amanhecer). Apenas lhe contava as histórias porque sentia vontade. Talvez também quisesse consolar Habara, que tinha de ficar confinado em casa, sozinho. Mas não devia ser só isso; ela devia gostar do simples ato de ter uma conversa íntima com um homem na cama — especialmente no momento de languidez logo depois do sexo, quando estavam a sós —, assim ele supôs.
Habara a chamava de Sherazade. Ele não mencionava esse nome na frente dela, mas, quando ela vinha, ele escrevia “Sherazade” com uma caneta esferográfica no pequeno diário onde fazia anotações. Também registrava sucintamente o conteúdo da história contada por ela nesse dia — de modo que fosse indecifrável caso alguém lesse.
Habara não sabia se as histórias eram verídicas, se era tudo invenção ou se era uma mistura das duas coisas. Era impossível fazer essa distinção. Parecia que nelas a realidade e a suposição, a observação e o sonho, convergiam. Por isso Habara não se importava se eram ou não verídicas, apenas ouvia absorto, com atenção, a narrativa dela. Ainda que fosse verdade, mentira ou um complexo emaranhado dos dois, essa diferença teria algum significado agora?
De qualquer forma, Sherazade sabia contar histórias de um jeito cativante. Qualquer tipo de acontecimento se tornava especial quando era contado por ela. O modo de falar, as pausas, o desenvolvimento do enredo, tudo era perfeito. Ela aguçava a curiosidade e mantinha o suspense com frieza, fazendo o ouvinte pensar, prever os acontecimentos, e no final fornecia com precisão o que ele esperava. Através da sua admirável técnica, ela fazia o ouvinte se esquecer da realidade ao redor, mesmo que momentaneamente. Como se limpasse o quadro-negro com um pano umedecido, apagava por completo os persistentes fragmentos de qualquer memória desagradável que o ouvinte queria esquecer, bem como as preocupações. “Isso já é suficiente”, Habara pensava. Ou melhor, era isso que ele desejava mais do que tudo nesse momento. Sherazade tinha trinta e cinco anos, quatro anos a mais do que ele, era dona de casa quase em tempo integral (tinha diploma de enfermeira e de vez em quando era chamada para fazer alguns serviços) e tinha dois filhos no primário. Seu marido trabalhava em uma empresa qualquer. Morava a cerca de vinte minutos de carro dali. Isso era (praticamente) tudo o que ela havia contado a Habara a seu respeito. Claro que ele não tinha como verificar se essas informações eram verdadeiras ou não. Ele também não tinha nenhuma razão especial para duvidar delas. Ela não revelara seu nome. “Você não precisa saber meu nome”, dissera. Tinha razão. Para ele, ela era simplesmente Sherazade, e por enquanto não havia nenhum inconveniente em chamá-la assim. Ela também nunca o chamara pelo nome, Habara — o que ela provavelmente sabia. Ela tinha o cuidado de evitar o nome, como se dizê-lo em voz alta fosse um ato inadequado e de mau agouro.
Sherazade estava longe de ser a bela rainha de As mil e uma noites, por mais que se quisesse ser favorável no julgamento. Ela era uma dona de casa de cidade pequena, a gordura tinha começado a acumular em alguns cantos do corpo (funcionando como uma massa, que preenche as lacunas), e notava-se que estava seguindo com passos firmes rumo ao território da meia-idade. Tinha gordura no queixo e rugas cansadas no canto dos olhos. O cabelo, as roupas e a maquiagem não chegavam a ser ruins, mas não eram nada admiráveis. O rosto em si não era feio, não mesmo, mas causava apenas uma impressão vaga nas pessoas, como uma imagem desfocada. A maioria dos que cruzavam com ela na rua ou pegavam o mesmo elevador provavelmente não prestava atenção nela. Talvez dez anos atrás ela fosse uma garota encantadora e vivaz. Alguns homens talvez se virassem para vê-la melhor. Mesmo que tivesse sido assim um dia, essa fase já havia chegado ao fim. E, por enquanto, não havia nenhum sinal de que ela pudesse recuperá-la. Sherazade visitava a House duas vezes por semana. Os dias não eram definidos, mas ela nunca ia nos finais de semana. Provavelmente porque precisava ficar com a família. Quando ia, ela telefonava uma hora antes, sem falta. Chegava de carro, carregando os mantimentos comprados no supermercado ali perto. O carro era um pequeno Mazda azul, modelo antigo, o para-choque traseiro tinha um amassado visível, e as rodas estavam sujas e pretas. Ela parava o carro no estacionamento da House, abria a porta traseira, tirava as sacolas de compras e tocava a campainha com elas nas mãos. Habara verificava quem era pelo olho mágico, girava a chave, tirava a corrente e abria a porta. Ela ia direto para a cozinha, onde separava e guardava os alimentos na geladeira. Depois fazia a lista de compras para a próxima visita. Parecia uma eficiente dona de casa: realizava as tarefas com habilidade, sem movimentos desnecessários. Praticamente não abria a boca enquanto trabalhava, mantendo sempre uma fisionomia séria.
Quando ela terminava o trabalho, sem que combinassem, como que carregados por uma corrente marítima invisível, os dois iam para o quarto. Lá Sherazade tirava a roupa rapidamente e depois, em silêncio, se deitava na cama com Habara. Os dois se abraçavam quase sem falar nada e faziam sexo seguindo alguns procedimentos, como se estivessem incumbidos de realizar uma tarefa. Quando ela estava menstruada, usava a mão para fazer o serviço. Sua habilidade quase profissional fazia Habara se lembrar de que Sherazade tinha diploma de enfermagem.
Depois do sexo, os dois conversavam deitados na cama. Mas era ela quem falava mais, e Habara apenas ouvia, pronunciando curtas interjeições ou fazendo algumas perguntas simples. E, quando os ponteiros do relógio marcavam quatro e meia, Sherazade parava de falar mesmo que estivesse no meio da história (por alguma razão sempre chegava ao clímax do relato nesse horário), saía da cama, reunia e vestia as roupas espalhadas no chão e se arrumava para ir embora. Preciso preparar o jantar em casa, dizia.
Habara se despedia dela na porta, fechava a corrente e observava pela fresta da cortina o pequeno e sujo carro azul partir. Às seis, preparava uma refeição simples com o que tinha na geladeira e comia sozinho. Ele havia trabalhado como cozinheiro por um tempo, e preparar a refeição não era nenhum sofrimento. Tomava Perrier enquanto comia (não bebia nada alcoólico) e depois assistia a um filme em DVD ou lia um livro tomando café (ele preferia livros que exigiam muito tempo para serem concluídos e que precisavam ser lidos várias vezes). Não tinha nada em especial para fazer. Não tinha ninguém com quem conversar. Nem para telefonar. Como não tinha computador, não podia acessar a internet. Não assinava jornal nem assistia à televisão (tinha uma razão legítima para isso). Naturalmente, também não podia sair de casa. Se, por alguma razão, Sherazade fosse impedida de vir aqui, ele perderia por completo o contato com o mundo exterior e, literalmente, seria abandonado sozinho nessa ilha deserta e inacessível.
Mas essa possibilidade não o preocupava tanto. “É uma situação que eu preciso resolver com a minha própria força. Será difícil, mas conseguirei superá-la de alguma forma. Afinal, não estou sozinho nessa ilha deserta”, Habara pensou. “Eu sou a ilha deserta.” Para começar, ele já estava acostumado a ficar sozinho. Seus nervos não se deixavam vencer tão facilmente mesmo quando estava completamente só. O que perturbava o coração de Habara era o fato de que, se ficasse completamente isolado, não poderia mais conversar com Sherazade na cama. Ou melhor, não poderia ouvir a continuação de suas histórias.
Um pouco depois de se adaptar à House, Habara começou a deixar a barba crescer. Ele já tinha barba densa. Resolveu deixá-la crescer para mudar a própria imagem, mas o motivo não foi só esse. A principal razão era que ele estava muito entediado. Se tivesse barba, toda hora poderia passar a mão no queixo, nas patilhas, no bigode e desfrutar dessa sensação tátil. Poderia passar o tempo ajeitando-a com tesoura ou navalha. Não tinha se dado conta antes, mas descobriu inesperadamente que uma simples barba já aliviava o tédio.
— Na vida passada eu fui uma lampreia — certo dia Sherazade disse na cama. Como se falasse algo bem banal, tipo “o polo norte fica bem no norte”.
Habara não fazia a menor ideia de como era e como vivia uma lampreia. Por isso não expressou nenhuma opinião a respeito.
— Você sabe como uma lampreia come uma truta? — ela perguntou.
— Não, não sei — Habara disse. Para começar, ele nem sabia que lampreia comia truta.
— As lampreias não têm maxilas. Essa é a maior diferença entre a lampreia e
— As lampreias não têm maxilas. Essa é a maior diferença entre a lampreia e
a enguia normal.
— Uma enguia normal tem maxilas?
— Você nunca olhou uma enguia com atenção? — ela perguntou, assustada.
— Eu como enguia de vez em quando, mas não tenho muita chance de reparar nas maxilas.
— Você deveria observar com calma, um dia, em algum lugar. Em um aquário, por exemplo. Uma enguia normal tem maxilas e dentes firmes. Mas as lampreias, não. Em compensação, sua boca é uma espécie de ventosa. E com essa ventosa elas se aderem às pedras no fundo do rio e ficam presas de cabeça para baixo, se balançando. Como uma planta aquática. Habara imaginou uma grande quantidade de lampreias se balançando no fundo das águas, como se fossem plantas aquáticas. De certa forma, era uma cena surreal. Mas Habara sabia que muitas vezes a realidade era surreal.
— Na verdade, as lampreias se disfarçam de plantas aquáticas se escondendo entre elas. E, quando uma truta passa lá em cima, as lampreias se prendem em sua barriga com a ventosa. Tornam-se parasitas do peixe como as sanguessugas que se aderem firmemente ao hospedeiro. Dentro da ventosa das lampreias há uma espécie de língua dentada que raspa e perfura a pele da truta como uma lixa, e elas vão comendo a carne aos poucos.
— Não gostaria de ser uma truta — disse Habara.
— Dizem que no período romano havia muitos tanques de cultivo de lampreias em várias regiões, e os escravos desobedientes e malcriados eram atirados ainda com vida dentro desses tanques, para servirem de alimento.
“Tampouco gostaria de ter sido escravo no período romano”, pensou Habara. “Na verdade, não queria ser escravo em período nenhum.”
— No primário, quando vi uma lampreia pela primeira vez em um aquário e li a explicação de como ela vivia, percebi na hora: na minha vida passada fui esse ser aí — disse Sherazade. — Percebi isso porque tinha uma lembrança nítida de me aderir à pedra no fundo do lago, de balançar na vertical disfarçada de planta aquática e observar as trutas gordas que passavam lá no alto.
— Não se lembra de dar uma mordida numa truta?
— Não.
— Que bom — disse Habara. — É só disso que você se lembra da época em que foi uma lampreia? De se balançar no fundo do lago?
— A gente não consegue se lembrar de tudo da vida passada assim tão facilmente — ela disse. — Se tiver sorte, consegue se lembrar de uma pequena passagem, por acaso. Bem de repente, como se espreitasse através da parede por um pequeno buraco. Só dá para ver uma parte do cenário. Você consegue se lembrar de alguma coisa da sua vida passada?
— Não me lembro de nada — disse Habara. Sinceramente, ele não queria se lembrar da sua vida passada. Estava ocupado o suficiente com a realidade do aqui e agora.
— Mas não era tão ruim assim ficar no fundo do lago. Ficar de ponta-cabeça com a boca colada na pedra, observando os peixes que nadam lá no alto. Uma vez vi uma enorme tartaruga chinesa de carapaça mole. Vista de baixo, ela parecia uma enorme nave espacial, escura como a dos vilões de Star Wars. Grandes pássaros brancos com longos bicos afiados atacavam os peixes como assassinos profissionais. Vistos do fundo do lago, os pássaros pareciam apenas nuvens correndo no céu azul. Como ficávamos escondidas entre as plantas aquáticas, estávamos seguras.
— Você consegue visualizar essa cena?
— Muito nitidamente — disse Sherazade. — A luz que havia nesse momento, a sensação da correnteza. Consigo me lembrar até das coisas em que eu
pensava nessa hora. Às vezes consigo entrar na cena, também.
— Das coisas em que você pensava?
— É.
— Então você pensava em algo nessa hora?
— Claro.
— Em que será que uma lampreia pensa?
— Ela pensa em coisas típicas de uma lampreia. Em assuntos de lampreia, em um contexto de lampreia. Mas não é possível converter esse pensamento em nossa linguagem. Afinal, é um pensamento para os seres que vivem dentro d’água. Como os bebês que estão no ventre materno. Sabemos que eles estão pensando, mas não podemos expressar isso na nossa linguagem. Não é mesmo?
— Por acaso você se lembra de quando estava na barriga de sua mãe? — perguntou Habara, assustado.
— Claro — disse Sherazade, como se fosse uma coisa extremamente normal. E apoiou a cabeça de leve sobre o peito dele. — Você não se lembra?
— Não lembro — disse Habara.
— Então um dia vou te contar de quando eu era um bebê, dentro da barriga da minha mãe.
Nesse dia Habara registrou no diário: “Sherazade, lampreia, vida passada”. Mesmo se alguém lesse, não saberia o que era. Habara conhecera Sherazade havia quatro meses. Ele foi enviado à House que ficava em uma pequena cidade no norte de Kanto, e ela, que morava perto, passou a cuidar dele como uma “intermediária”. A função dela era comprar mantimentos e artigos gerais para Habara, que não podia sair de casa, e entregá-los na House. Ela comprava inclusive livros e revistas que ele queria ler, bem como CDs que queria ouvir, atendendo aos seus pedidos. Às vezes ela mesma escolhia DVDs de filmes e trazia para ele (Habara não entendia direito o critério de suas escolhas).
E, a partir da segunda semana em que Habara estava na House, ela passou a convidá-lo para a cama como se fosse uma coisa natural. Os preservativos também já tinham sido providenciados. Talvez fosse uma das “atividades de apoio” passadas a ela. De qualquer forma, a iniciativa era dela, e a coisa era feita sem muito caso nem hesitação, bem naturalmente, dentro do fluxo de uma série de eventos, e ele não se recusava a seguir os procedimentos. Deitava-se na cama atendendo ao convite e abraçava o corpo dela sem entender direito por que estava fazendo aquilo.
O sexo com ela não chegava a ser ardente, mas não era feito de forma profissional do começo ao fim. Mesmo que tivesse começado como um serviço designado (ou fortemente sugerido), ela parecia ter passado a sentir algum prazer a partir de certo momento — mesmo que fosse um prazer parcial. Habara percebeu isso pela alteração sutil da reação do corpo dela, o que o deixou consideravelmente feliz. Afinal, ele não era um animal selvagem dentro de uma jaula, mas sim uma pessoa com sentimentos delicados. O sexo cujo único objetivo é satisfazer as necessidades físicas, apesar de necessário, não é muito prazeroso. Mas Habara não conseguia saber até onde Sherazade considerava o sexo com ele uma obrigação e até onde julgava ser um ato pessoal; ele não conseguia delimitar essa fronteira.
Isso não acontecia apenas em relação ao sexo, mas também a todos os serviços cotidianos prestados por ela. Habara não conseguia identificar até onde era obrigação e até onde ela agia pela afeição pessoal que sentia por ele (para começar, ele nem sabia se aquilo poderia ser chamado de afeição). Em vários aspectos, ele tinha dificuldades para compreender os sentimentos e as intenções de Sherazade. Por exemplo, ela geralmente usava roupas íntimas de tecido simples, sem ornamentos. Peças que provavelmente uma dona de casa comum por volta dos trinta anos usaria no dia a dia — assim imaginava Habara, que nunca antes tivera relação com uma dona de casa comum por volta dos trinta. Peças que provavelmente foram compradas na liquidação de uma loja de departamentos. Mas, dependendo do dia, ela usava peças sedutoras, de modelo bem sofisticado. Ele não sabia onde ela as comprava, mas pareciam de boa qualidade. Eram peças delicadas de seda, rendadas e de cores intensas. Habara não fazia a menor ideia do objetivo dessa disparidade tão extrema. Outra coisa que deixava Habara confuso era o fato de que o sexo com Sherazade e a história contada por ela estavam intrinsecamente relacionados. Uma coisa não podia ser separada da outra. Habara nunca havia experimentado essa sensação de estar tão ligado — ou firmemente costurado — a uma relação sexual que não podia ser considerada muito ardente, com uma mulher por quem não se sentia especialmente atraído, e isso o deixava um pouco confuso.
— Quando eu era adolescente — certo dia Sherazade começou a contar na cama, como se fizesse uma confissão —, de vez em quando entrava na casa dos outros para roubar.
Como geralmente acontecia quando ouvia as histórias dela, Habara não conseguiu expressar nenhuma opinião adequada.
— Você já entrou na casa dos outros para roubar?
— Acho que não — disse Habara com a voz rouca.
— Se você faz isso uma vez, parece que fica viciado.
— Mas é contra a lei.
— Exatamente. Se você for descoberto, será preso. Violação de domicílio seguido de furto ou tentativa de furto é um crime muito grave. Mas, mesmo sabendo que não pode, você fica viciado. Habara aguardou a continuação da história em silêncio.
— O que é mais interessante de entrar na casa dos outros quando não tem ninguém é que ela fica bem silenciosa. Não sei por quê, mas ela fica realmente muito quieta. Talvez seja o lugar mais silencioso do mundo. Eu sentia isso. Quando eu sentava no chão dessa casa muito quieta, sozinha e imóvel, conseguia voltar naturalmente à época em que eu era uma lampreia — disse Sherazade. — Era uma sensação muito legal. Eu já contei que fui lampreia numa vida passada, né?
— Contou.
— Então. Eu voltava a ser uma lampreia. Estava firmemente colada à pedra no fundo do lago com minha ventosa, de ponta-cabeça, e balançava lentamente o corpo na água. Como as plantas aquáticas ao meu redor. Fazia muito silêncio à minha volta, e eu não ouvia nenhum barulho. Ou talvez eu nem tivesse orelhas. Em dia de sol, a luz penetrava da superfície como se fosse uma flecha. E por vezes era refratada como num prisma. Peixes de várias cores e formatos passavam nadando lentamente sobre mim. Eu não pensava em nada. Ou melhor, só tinha pensamentos típicos de uma lampreia. Eles estavam embaçados, mas eram muito puros. Não eram transparentes, mas não tinham nenhuma impureza. Eu era eu mesma, mas não era. Estar preenchida por essa sensação é realmente maravilhoso.
Sherazade invadiu uma casa alheia pela primeira vez quando estava no segundo ano do ensino médio. Ela frequentava o colégio público de sua cidade natal e estava apaixonada por um colega de classe. Ele jogava futebol, era alto e tirava boas notas. Não era especialmente bonito, mas parecia limpo e era muito simpático. Entretanto, como a maioria das paixões das meninas do colégio, não era correspondida. Ele parecia gostar de outra garota da mesma sala e nem ligava para Sherazade. Nunca dirigia a palavra a ela, talvez nem tivesse notado que ela era sua colega de classe. Mas ela não conseguia esquecê-lo de jeito nenhum. Ela se sentia sufocada quando o via, às vezes quase chegava a vomitar. Achou que ficaria louca se continuasse assim. Mas declarar o seu amor estava fora de cogitação. Jamais daria certo.
Certo dia, Sherazade faltou à aula sem avisar e foi à casa desse rapaz, que ficava a cerca de quinze minutos a pé da casa dela. O pai dele trabalhara em uma fábrica de cimento, mas falecera havia alguns anos em um acidente de carro na autoestrada. A mãe era professora de japonês em uma escola pública da cidade vizinha. A irmã mais nova estava no segundo ciclo do ensino fundamental. Por isso não tinha ninguém na casa durante o dia. Ela havia pesquisado esses detalhes sobre a família dele.
A porta, claro, estava trancada. Sherazade tentou procurar a chave debaixo do capacho. Estava lá. A casa ficava em um bairro residencial de uma cidade pacata, onde quase nunca aconteciam crimes. Por isso as pessoas não se preocupavam muito com a segurança. Muitas vezes a chave ficava escondida debaixo do capacho ou de um vaso de planta, para os familiares que esqueciam suas cópias. Por precaução, Sherazade apertou a campainha e aguardou um pouco. Depois de verificar que ninguém da vizinhança estava por perto, abriu a porta e entrou. Em seguida, trancou-a por dentro. Tirou os sapatos, colocou-os em um saco plástico dentro da mochila nas costas. Então subiu para o andar de cima na ponta dos pés.
O quarto dele ficava ali, como ela imaginava. A pequena cama de madeira estava impecavelmente arrumada. Havia uma estante cheia de livros, um guarda-roupa e uma escrivaninha. Sobre a estante havia um pequeno aparelho de som e alguns CDs. Na parede havia o calendário do Barcelona e uma bandeirinha do time, nenhum outro enfeite. Nem fotos, nem quadros. Havia apenas a parede cor de creme. Na janela, uma cortina branca. O quarto estava bem arrumado e organizado. Nenhum livro fora do lugar nem roupa suja jogada no chão. Os materiais de papelaria sobre a mesa também estavam todos nos seus devidos lugares. Demonstravam bem o caráter metódico do dono do quarto. Ou talvez a mãe dele arrumasse todos os dias, cuidadosamente. Talvez fossem os dois. Esse fato deixou Sherazade mais nervosa. Se o quarto estivesse bagunçado, ninguém perceberia se ela tirasse as coisas do lugar. “Teria sido melhor assim”, pensou Sherazade. Como não era, teria de ser muito cuidadosa. Mas, ao mesmo tempo, ficou muito feliz porque o quarto era limpo, simples e organizado. Era típico dele. Sherazade sentou-se na cadeira da escrivaninha e permaneceu imóvel e em silêncio. “Ele estuda aqui todos os dias sentado nesta cadeira”, e seu coração acelerou ao pensar nisso. Ela pegou os materiais de papelaria sobre a mesa um por um, os acariciou, cheirou e beijou. Tudo: lápis, tesoura, régua, grampeador, calendário. Só pelo fato de serem dele, esses objetos comuns pareciam reluzir.
Depois ela abriu as gavetas da mesa uma por uma e examinou minuciosamente o que havia dentro. Na primeira, miudezas de papelaria e algumas lembranças estavam dispostas em compartimentos. Na segunda gaveta, os cadernos escolares que ele usava, e na terceira (a mais funda) havia diversos documentos, cadernos velhos e folhas de respostas de provas. A maioria dos documentos se relacionava aos estudos ou às atividades do clube de futebol. Nada importante. Não encontrou nada parecido com um diário ou cartas que ela esperava encontrar. Nenhuma foto. Para Sherazade isso pareceu um pouco estranho. Fora a escola e o futebol, ele não tinha vida particular? Ou ele guardava essas coisas com cuidado em outro lugar que não poderia ser encontrado facilmente? Mesmo assim, Sherazade ficou exultante só de seguir com os olhos a letra dele no caderno, sentada diante da escrivaninha. Se continuasse assim, talvez ficasse louca. Para acalmar a excitação, ela levantou da cadeira e sentou no chão. Então olhou o teto. Tudo continuava quieto ao seu redor. Não havia nenhum barulho. Nessa hora, ela se tornou uma lampreia no fundo do lago.
— Você só entrou no quarto dele, tocou em várias coisas e depois ficou ali, quieta? — perguntou Habara.
— Não, não foi só isso — disse Sherazade. — Eu queria alguma coisa que pertencesse a ele. Queria levar para casa algo que ele usasse no dia a dia. Mas não podia ser algo importante. Pois ele logo daria falta. Então resolvi roubar só um lápis.
— Só um lápis?
— É. Um lápis que ele usava. Mas achei que não deveria só roubar. Pois assim eu seria uma simples ladra. O fato de eu fazer isso perderia sentido. Afinal, eu era uma ladra do amor, por assim dizer. “Ladra do amor”, pensou Habara. “Parece o título de um filme mudo.”
— Por isso pensei em deixar algo no lugar, como um sinal. Como prova de que eu estive naquele lugar. Como uma declaração de que foi uma troca, e não um simples roubo. Mas não pensei em nada adequado para deixar. Procurei dentro da mochila e nos meus bolsos, mas não encontrei nada que servisse. Na verdade, deveria ter levado algo, mas não tinha pensado nisso antes... Como não tive alternativa, resolvi deixar um absorvente. Claro que era novo, ainda dentro da embalagem. Como estava para ficar menstruada, tinha um na mochila. Resolvi deixá-lo na última gaveta da mesa dele, bem no fundo, onde não poderia ser encontrado facilmente. E isso me deixou muito excitada. O fato de ter um absorvente meu escondido no fundo da gaveta dele. Acho que foi por isso que logo em seguida fiquei menstruada. “Lápis e absorvente”, pensou Habara. Talvez devesse escrever no diário: “ladra do amor, lápis e absorvente”. Provavelmente ninguém entenderia o que isso significava.
— Acho que fiquei na casa dele só por uns quinze minutos, no máximo. Era a primeira vez na vida que entrava na casa de alguém sem permissão, estava o tempo todo nervosa e com medo de que voltassem de repente, então não consegui ficar por muito tempo. Dei uma espiada lá fora, saí sorrateiramente da casa, tranquei a porta e escondi a chave debaixo do capacho, no mesmo lugar. E fui para a escola. Carregando com cuidado o lápis que era dele. Sherazade ficou calada por um momento. Parecia ter voltado no tempo, observando cada um dos vários acontecimentos daquela época.
— Depois, por cerca de uma semana, consegui passar os dias com uma sensação de plenitude que nunca tinha sentido antes — disse Sherazade. — Escrevia qualquer coisa no caderno com o lápis dele. Sentia o seu cheiro, beijava, encostava na bochecha, passava o dedo. Às vezes eu chupava o lápis. Conforme eu usava, ficava cada vez mais curto, e claro que era difícil para mim, mas eu tinha que fazer isso. “Se ele ficar curto demais e não puder mais usá-lo, basta pegar outro”, eu pensava. Ainda havia vários no porta-lápis da mesa dele. E ele nem tinha notado a falta deste. Provavelmente nem sabia que tinha um absorvente meu no fundo da gaveta da escrivaninha. Quando pensava nisso, eu ficava muito excitada. Tinha uma sensação estranha, um formigamento no quadril. Para me acalmar, eu precisava esfregar um joelho no outro debaixo da mesa. Mesmo que na vida real ele não ligasse para mim, que praticamente nem notasse a minha existência, eu não me importava. Afinal, sem que ele soubesse, eu conseguia ter nas mãos uma parte dele.
— Parece um ritual de magia — disse Habara.
— É, em certo sentido talvez fosse mesmo. Me dei conta disso um tempo depois, quando por acaso li um livro sobre esse assunto. Mas naquela época ainda estava no colégio, e não pensava muito nas coisas. Apenas era impelida pelo meu desejo. Eu repetia a mim mesma que isso iria arruinar a minha vida. Se fosse descoberta invadindo a casa de outra pessoa, provavelmente eu seria expulsa da escola, e se a notícia se espalhasse, talvez não pudesse mais continuar na cidade. Eu tentei me convencer disso. Mas em vão. Acho que minha cabeça não estava funcionando bem.
Dez dias depois ela faltou à escola novamente e foi à casa dele. Eram onze da manhã. Ela pegou a chave debaixo do capacho como da vez anterior. Entrou e foi ao andar de cima. O quarto dele continuava impecavelmente organizado, e a cama, arrumada com perfeição. Antes de tudo ela pegou um lápis comprido que já estava em uso e o guardou com cuidado no seu estojo. Em seguida experimentou deitar-se na cama dele, também sendo muito cuidadosa. Ajeitou a barra da saia, juntou as mãos sobre o peito e olhou para o teto. “Ele dorme nesta cama todas as noites.” Quando pensou isso, seu coração acelerou de repente, e ela nem conseguia mais respirar direito. O ar mal chegava aos pulmões. A garganta estava seca, sensível, e doía toda vez que respirava. Sherazade levantou da cama, esticou a colcha e sentou no chão como da vez anterior. E olhou para o teto. Tentou se convencer de que era cedo para deitar na cama. O estímulo era forte demais. Dessa vez Sherazade ficou no quarto por cerca de trinta minutos. Tirou o caderno da gaveta e passou os olhos rapidamente por ele. Leu suas anotações sobre um livro. Coração, de Natsume Soseki, livro indicado para as férias de verão. A resenha fora escrita à mão, com letra meticulosa e bonita, bem típica de um excelente aluno, e à primeira vista não havia erros de ortografia. Tinha recebido a nota máxima. O que era óbvio. Com um texto em letra tão formidável assim, qualquer professor teria vontade de dar a nota máxima mesmo sem ler uma linha sequer.
Em seguida Sherazade abriu as gavetas do guarda-roupa uma por uma e olhou o que havia dentro. Cuecas e meias. Camisetas, calças. Uniforme de futebol. Todas as peças estavam dobradas de forma precisa. Não havia nada sujo ou surrado. Tudo era muito limpo e organizado. Será que era ele quem dobrava as suas roupas? Ou seria sua mãe? Deveria ser a mãe. Sherazade sentiu uma forte inveja dessa mãe, que podia cuidar dele desse jeito todos os dias. Afundou o nariz na gaveta e sentiu cada peça. Cheiravam a roupas lavadas com cuidado e secadas ao sol. Ela tirou uma camiseta cinza sem estampas, desdobrou-a e levou-a ao nariz. Para ver se sentia o cheiro do suor dele nas axilas. Mas não sentiu. Mesmo assim, permaneceu com o rosto bem colado no tecido e respirou profundamente. Ela desejou essa camiseta. Mas era muito arriscado. Afinal, todas as roupas eram organizadas de forma muito metódica. Ele (ou a mãe dele) talvez tivesse memorizado em detalhes todas as peças da gaveta. Se faltasse uma, provavelmente haveria uma pequena confusão.
Sherazade por fim desistiu de pegar a camiseta. Dobrou-a novamente e a pôs de volta na gaveta. Precisava ter cuidado. Não podia se arriscar muito. Dessa vez ela resolveu levar, além do lápis, um pequeno escudo de futebol em formato de bola que encontrara no fundo da gaveta. Parecia ser do time da época do primário. Era velho e não dava a impressão de ser importante. Provavelmente ele não iria notar sua falta. Ou demoraria a perceber. Aproveitando, deu uma olhada na última gaveta para ver se o absorvente que ela escondera ainda estava lá. Continuava no mesmo lugar.
O que aconteceria se a mãe dele descobrisse um absorvente escondido no fundo da gaveta da escrivaninha do filho? Sherazade tentou imaginar. O que ela iria pensar? Iria questioná-lo diretamente? “Por que você tem um absorvente? Me explique.”
Ou será que ela iria guardar isso para si, tirando as próprias conclusões? Sherazade não fazia a menor ideia da atitude que uma mãe tomaria nessas horas. De qualquer forma, resolveu deixar o absorvente lá. Afinal, era o primeiro sinal deixado por ela. Dessa vez Sherazade resolveu deixar também três fios de cabelo como segundo sinal. Na noite anterior arrancara três fios da sua cabeça, embrulhara em um filme plástico, colocara em um pequeno envelope e o lacrara. Ela tirou esse envelope da mochila e o colocou no meio de um caderno velho de matemática que havia em uma das gavetas. Eram fios lisos nem muito compridos nem muito curtos. A menos que se fizesse teste de DNA, não era possível saber de quem eram. Mas já à primeira vista dava para saber que eram de uma garota.
Ela saiu da casa e foi direto para a escola assistir às aulas depois do intervalo do almoço. E novamente passou os dez dias seguintes com uma sensação de plenitude. Parecia que uma parte maior dele havia se tornado sua. Mas claro que a história não termina aqui, desse jeito. Entrar na casa dos outros para roubar, como dizia Sherazade, acabava viciando.
Quando chegou a este ponto da narrativa, Sherazade olhou o relógio de cabeceira. E disse “Está na hora de ir”, como se convencesse a si mesma. Em seguida saiu da cama sozinha e começou a se vestir. Os números do relógio indicavam 4:32. Ela vestiu a calcinha branca e lisa que tinha apenas uma função prática, abotoou o fecho do sutiã nas costas, colocou rapidamente a calça jeans e vestiu pela cabeça a blusa de moletom azul-marinho com a marca da Nike. Foi à pia e lavou as mãos com cuidado usando sabonete, arrumou rapidamente o cabelo com a escova e partiu em seu Mazda azul.
Ao ficar sozinho, sem se lembrar de nada que precisasse fazer, Habara saboreou mentalmente cada parte da história contada por ela, como um boi rumina o alimento. Ele não fazia a menor ideia do rumo que a história iria seguir — como acontecia com a maioria das histórias contadas por ela. Para começar, ele não conseguia imaginar como Sherazade era quando estava no colégio. Será que nessa época ela ainda era magra? Usava uniforme com meias brancas e uma trança no cabelo?
Como não tinha apetite, antes de começar a preparar o jantar tentou retomar a leitura que havia começado, mas não conseguiu se concentrar de jeito nenhum. Sem querer, acabava imaginando Sherazade subir sorrateiramente para o andar de cima da casa, ou cheirar a camiseta do rapaz com o nariz colado nela. Habara queria ouvir a continuação da história o mais rápido possível. Sherazade veio à House três dias depois, no início da semana. Como sempre, ela organizou os mantimentos que trouxe em uma grande sacola de papel, verificou a data de validade, organizou o que havia na geladeira, checou o estoque de enlatados e engarrafados assim como os condimentos, e fez a lista da próxima compra. Colocou mais Perrier na geladeira. E empilhou sobre a mesa os livros e DVDs que trouxera.
— Falta mais alguma coisa? Precisa de algo?
— Nada em especial — respondeu Habara.
Em seguida os dois foram para a cama e transaram como de costume. Depois de breves preliminares ele colocou o preservativo, penetrou-a (ela exigia, como enfermeira, que ele usasse preservativo sempre, do começo ao fim) e depois de um tempo gozou. O sexo não chegava a ser uma obrigação, mas tampouco era feito com especial fervor. Ela sempre parecia tomar cuidado para que o sexo não fosse muito ardente. Assim como o instrutor da escola de direção nunca espera que a manobra dos seus alunos seja muito ousada. Depois de verificar com olhos profissionais que Habara expelira corretamente determinada quantidade de sêmen dentro do preservativo, Sherazade retomou a narrativa.
Após invadir a casa pela segunda vez, ela conseguiu passar os cerca de dez dias seguintes com uma sensação de plenitude. Escondeu o escudo de futebol com formato de bola no seu estojo. E o acariciava de vez em quando durante as aulas. Mordia o lápis de leve e lambia o grafite. Pensava no quarto dele: na escrivaninha, na cama onde ele dormia, no armário cheio de roupas, nas cuecas brancas e simples, e também no absorvente e nos três fios de cabelo escondidos na gaveta.
Desde que começara a entrar na casa dele, não conseguia se concentrar nos estudos. Durante a aula ficava divagando, distraída, ou estava concentrada em mexer no lápis ou no escudo. Mesmo voltando para casa, não tinha vontade de fazer as lições. As notas de Sherazade não costumavam ser ruins. Ela não era uma das melhores alunas da sala, mas costumava estudar e quase sempre tirava notas acima da média. Por isso, quando ela praticamente não conseguia responder às perguntas dos professores no meio da aula, eles lançavam um olhar de dúvida antes de ficarem bravos. Ela chegou a ser chamada para a sala dos professores durante o intervalo, onde lhe perguntaram: “Aconteceu alguma coisa? Está com algum problema?”. Mas ela não conseguiu responder direito. “Esses dias não estou me sentindo muito bem...”, ela disse, hesitante.
“Na verdade, estou apaixonada por um rapaz, passei a entrar na casa dele durante o dia para roubar, roubei lápis e um escudo de futebol, e agora só consigo mexer nesses objetos. Não consigo pensar em mais nada além dele...” Claro que não podia dizer uma coisa dessas. Era um segredo pesado e sombrio que ela tinha de carregar sozinha.
— Eu fiquei viciada, tinha que entrar na casa dele para roubar em intervalos regulares — disse Sherazade. — Como você deve perceber, isso era muito arriscado. Não podia continuar nessa corda bamba por muito tempo. Eu sabia muito bem disso.
Um dia seria descoberta, e certamente chamariam a polícia. Quando pensava nisso, ficava muito preocupada. Mas não consegui deter a roda que já tinha começado a rolar ladeira abaixo. Dez dias depois da segunda “visita”, os meus pés seguiram naturalmente para a casa dele outra vez. Eu ia ficar louca se não fizesse isso. Mas, pensando agora, acho que já estava meio louca, na verdade.
— Você não teve problema por faltar à escola tantas vezes? — Habara perguntou.
— Meus pais tinham uma loja, estavam sempre ocupados e praticamente não ligavam para mim. Eu nunca tinha arranjado confusão ou batido de frente com eles. Por isso achavam que não havia problema em me deixar largada. Eu mesma falsificava facilmente os comunicados que tinha que devolver para a escola. Escrevia sucintamente o motivo de faltar à aula imitando a letra da minha mãe, assinava e carimbava. Já tinha avisado ao professor responsável que eu tinha problemas de saúde e que de vez em quando precisava faltar meio período para ir ao hospital. Na nossa sala havia alguns alunos problemáticos que não iam à escola por vários dias seguidos, e como os professores quebravam a cabeça com eles, ninguém ligava para o fato de eu faltar meio período uma vez ou outra. Sherazade olhou de relance o relógio digital da cabeceira e continuou:
— Mais uma vez, peguei a chave de baixo do capacho, abri a porta e entrei. A casa estava quieta como das outras vezes, ou melhor, mais do que o normal, por alguma razão. O barulho do termostato da geladeira ligando e desligando na cozinha parecia a respiração de um grande animal, e não sei por que aquilo me assustava. O telefone começou a tocar uma vez. O barulho era alto, sonoro e estridente, e o meu coração quase parou. O suor brotou de todo o corpo de uma vez. Mas naturalmente ninguém atendeu a essa chamada, e o telefone parou depois de tocar umas dez vezes. Então o silêncio ficou ainda mais profundo que antes.
Nesse dia Sherazade ficou deitada de costas na cama do garoto por muito tempo. Dessa vez o coração não bateu tão forte, e ela conseguiu respirar normalmente. Até teve a sensação de que ele dormia ao seu lado em silêncio. Se estendesse um pouco a mão, parecia que o seu dedo tocaria o braço forte dele. Mas na realidade ele não estava ali. Ela estava apenas envolvida em seu próprio devaneio. Em seguida Sherazade ficou com muita vontade de sentir o cheiro dele. Levantou-se da cama, abriu as gavetas do guarda-roupa e verificou as camisetas. Todas estavam limpas, secadas ao sol e bem-enroladas como se fossem rocamboles. A sujeira tinha sido removida e o cheiro, apagado. Como da outra vez.
Então, de repente, ela se deu conta de uma coisa. Poderia dar certo. E desceu a escada rapidamente. Encontrou o cesto de roupa suja no banheiro e o abriu. Dentro havia roupas sujas dele, da mãe e da irmã mais nova. Provavelmente do dia anterior. Entre elas, Sherazade encontrou uma camiseta masculina. Camiseta branca de gola redonda com a marca BVD. Ela a cheirou. Tinha o odor inconfundível de suor de um garoto. Odor que ela de vez em quando sentia quando estava perto dos colegas da sala. Não era um cheiro especialmente agradável. Mas o dele deixou Sherazade infinitamente feliz. Ao encostar o nariz na parte das axilas e cheirar, sentiu como se fosse envolvida por ele, como se estivesse firmemente rodeada pelos seus braços.
Sherazade foi ao andar de cima levando a camiseta e deitou outra vez na cama dele. Cobriu o rosto com o tecido e continuou sentindo o cheiro do suor dele sem se cansar. Assim, começou a experimentar uma languidez no quadril. Sentiu também os mamilos enrijecerem. Será que ficaria menstruada logo? Não, ainda era cedo. Supôs que estava assim por causa do desejo. Não sabia o que fazer, como agir nessa hora. Ou melhor, pelo menos nesse lugar ela não podia fazer nada. Afinal, estava no quarto dele, na cama dele.
De qualquer forma, Sherazade resolveu levar consigo essa camiseta impregnada de suor. Claro que seria arriscado. A mãe dele provavelmente notaria a falta de uma peça. Mesmo que não desconfiasse que fora roubada, ficaria intrigada em saber onde teria desaparecido. A casa era tão arrumada e organizada que a mãe deveria ser obcecada pela ordem. Se desse falta de algo, certamente procuraria pela casa toda. Como um cão farejador muito bem treinado. E provavelmente descobriria alguns vestígios deixados por Sherazade no quarto do querido filho. Mesmo sabendo disso, ela não queria abrir mão dessa camiseta. Sua cabeça não conseguia convencer seu coração.
“O que eu devo deixar aqui no lugar da camiseta?”, ela se perguntou. Pensou em deixar a calcinha. Era uma peça bem comum, relativamente nova e simples, e fora trocada de manhã. Poderia escondê-la no fundo do guarda-roupa. Ela lhe pareceu apropriada para ocupar o lugar da camiseta. Entretanto, quando a tirou, percebeu que estava úmida e quente na parte entre as pernas. “É por causa do meu desejo”, pensou. Cheirou o tecido, não havia odor. Mas ela não podia deixar no quarto dele uma peça maculada pelo desejo sexual. Se fizesse isso, rebaixaria a si mesma. Vestiu a calcinha de volta, decidida a deixar outra coisa. Mas o quê?
Quando chegou a este ponto da narrativa, Sherazade parou de falar. Durante um bom tempo ela não disse mais nenhuma palavra. De olhos fechados, respirava pelo nariz, em silêncio. Habara também ficou deitado sem falar nada e aguardou que ela continuasse.
— Habara — por fim disse Sherazade, abrindo os olhos. Era a primeira vez
que ela o chamava pelo nome. Habara olhou o rosto dela.
— Habara, você consegue fazer amor mais uma vez? — ela disse.
— Acho que sim — Habara disse.
E os dois fizeram amor mais uma vez. O corpo de Sherazade estava muito diferente de antes. Estava macio e profundamente úmido. A pele tinha mais brilho e elasticidade. “Ela está se lembrando de forma vívida e real de quando estava na casa do colega de classe”, Habara supôs. “Ou melhor, ela voltou no tempo de verdade, e passou a ter dezessete anos novamente. Como se voltasse à vida passada. Sherazade era capaz de fazer isso. O poder da sua arte de contar histórias tinha efeito sobre ela mesma. Assim como um excelente hipnotizador consegue aplicar sua técnica em si próprio através de um espelho.”
O sexo foi mais intenso do que nunca, demorado e ardente. No final ela atingiu o orgasmo de forma bem visível, com fortes convulsões. Parecia que nessa hora até as feições de seu rosto tinham mudado. Habara conseguiu ter uma ideia aproximada de Sherazade com dezessete anos, como se por um instante espreitasse de uma fresta estreita uma paisagem. Ele abraçava agora uma garota problemática de dezessete anos, que por acaso estava presa no corpo de uma dona de casa de trinta e cinco. Habara compreendeu isso nitidamente. Dentro dela, a adolescente estava de olhos fechados, tremendo, e continuava cheirando absorta a camiseta masculina impregnada de suor. Depois do sexo, Sherazade não falou mais nada. Nem verificou o preservativo de Habara, como sempre fazia. Os dois ficaram deitados lado a lado, em silêncio. Ela estava com os olhos bem abertos e fitava o teto. Como a lampreia que, do fundo do lago, observa a superfície iluminada. Habara pensou como seria bom se estivesse em outro mundo, ou em outro tempo, e fosse uma lampreia — sem ser uma pessoa limitada chamada Nobuyuki Habara, e sim uma simples lampreia anônima. Sherazade e ele eram lampreias, estavam colados a uma pedra, cada um com a respectiva ventosa, lado a lado, e observavam o corpo balançar na correnteza, aguardando uma truta gorda e com ar de superioridade.
— No final, o que você deixou no lugar da camiseta dele? — Habara quebrou o silêncio. Ela continuou calada por mais algum tempo. E depois, disse:
— Acabei não deixando nada. Não tinha nada à altura que pudesse deixar no lugar da camiseta com o cheiro dele. Eu simplesmente levei a camiseta para casa. E nessa hora eu me tornei uma autêntica ladra.
Doze dias depois, quando Sherazade foi à casa dele pela quarta vez, a fechadura da porta havia sido trocada por uma nova. Ela brilhava dourada, orgulhosa e robusta, recebendo a luz solar do quase meio-dia. A chave não estava mais sob o capacho. O desaparecimento de uma camiseta do filho do cesto de roupa suja provavelmente levantara a suspeita da mãe. Ela investigara minuciosamente todos os cantos da casa com seus olhos penetrantes e percebera que aconteciam algumas coisas estranhas. Talvez alguém tivesse entrado na casa quando ninguém estava. E logo a fechadura da porta fora trocada. A decisão da mãe era sempre acertada, e suas ações, muito rápidas.
Naturalmente, Sherazade ficou desapontada quando descobriu que a fechadura fora trocada, mas ao mesmo tempo sentiu alívio. Era como se alguém tivesse tirado o peso de seus ombros. “Já não preciso mais entrar nessa casa para roubar”, ela pensou. Se a fechadura não tivesse sido trocada, ela certamente continuaria entrando na casa, e suas ações teriam se tornado cada vez mais radicais. E mais cedo ou mais tarde teria acontecido uma tragédia. Alguém da família poderia voltar, de repente, por algum motivo, enquanto ela estava no andar de cima. Se isso acontecesse, não teria escapatória.
Nem margem para justificativa. Certamente esse dia teria chegado. Mas essa situação catastrófica foi evitada. Talvez devesse agradecer à mãe dele — que Sherazade não conhecia —, cujos olhos eram penetrantes como os de um gavião.
Sherazade cheirava a camiseta dele toda noite antes de dormir. E dormia com ela ao seu lado. Quando ia para a escola, embrulhava a peça em um papel e a escondia em um lugar seguro. Depois do jantar, quando ficava sozinha no quarto, ela a desembrulhava, acariciava e sentia seu cheiro. Ficou preocupada com a possibilidade de o odor diminuir e desaparecer com o passar dos dias, mas isso não aconteceu. Aquele perfume permaneceria como uma memória importante que não se apaga.
Ao pensar que não podia (não precisava) mais entrar na casa dele para roubar, aos poucos Sherazade recuperou a razão. Sua consciência passou a trabalhar como antes. Já não divagava distraída na sala de aula com tanta frequência, e a voz dos professores chegava direitinho ao seu ouvido, mesmo que parcialmente. Mas durante a aula ela estava mais concentrada em espreitá-lo do que em ouvir a explicação dos professores. Estava sempre alerta, observando se não havia nada estranho no comportamento dele, se ele não demonstrava algum sinal de nervosismo. Mas parecia não haver nada diferente. Como sempre, ele ria inocente abrindo muito a boca, respondia correta e claramente às perguntas dos professores, e depois da aula se dedicava aos treinos de futebol. Ele gritava e suava muito. Não havia nenhum sinal de que acontecia algo anormal à sua volta. Ela ficou impressionada: ele é uma pessoa assustadoramente normal. Sem nenhum subterfúgio.
“Mas eu sei o que ele esconde”, Sherazade pensou. “Ou alguma coisa que ele esconde. Provavelmente ninguém mais sabe. Só eu (e talvez a mãe dele).” Na terceira vez que entrou na casa dele, encontrou algumas revistas de pornografia cuidadosamente escondidas no fundo do guarda-roupa. Nelas havia muitas fotos de mulheres nuas. Elas estavam com as pernas abertas e mostravam generosamente o órgão sexual. Havia fotos de casais transando. Estavam em posições muito forçadas. Pênis eretos dentro de vaginas. Era a primeira vez na vida que Sherazade via fotos como essas. Sentada diante da escrivaninha dele, ela observou com interesse cada uma das fotos, folheando as páginas das revistas. “Provavelmente ele se masturba vendo fotos como essas”, ela pensou. Mesmo assim não sentiu repugnância. Nem se decepcionou com essa faceta oculta. Ela sabia que era uma coisa natural. O sêmen produzido tinha de ser liberado em algum momento. Assim funcionava o corpo masculino (mais ou menos como as mulheres tinham a menstruação). Nesse sentido, ele também era apenas um homem normal na adolescência. Não era nenhum herói da justiça nem santo. Sherazade até ficou mais tranquila ao conhecer esse seu lado.
— Um pouco depois de parar de ir à casa dele, meu desejo intenso por ele foi diminuindo. Assim como a maré aos poucos recua na praia. Não sei por quê, mas não cheirava mais a camiseta tão avidamente como antes, nem acariciava com tanta frequência, absorta, o lápis e o escudo. A febre baixou como se a doença fosse curada. Acho que não foi algo parecido com uma doença; deve ter sido uma doença de verdade. Ela provocou febre alta e deixou minha cabeça confusa por um tempo. Talvez todas as pessoas passem por uma fase absurda como essa uma vez na vida. Ou talvez tenha sido uma experiência especial que aconteceu só comigo. Você já passou por isso? Habara pensou, mas não se lembrou de nada.
— Acho que nunca passei por uma experiência tão especial como essa — ele
disse. Sherazade pareceu ter ficado um pouco desapontada com a resposta.
— De qualquer modo, depois de me formar no colégio, acabei me esquecendo dele. Com facilidade, o que foi até curioso para mim. Nem lembrava mais direito por que me senti tão atraída por ele quando tinha dezessete anos. A vida é estranha. Às vezes, quando observamos as coisas sob um ângulo um pouco diferente, algo que parecia inacreditavelmente resplandecente e absoluto, algo que me fez pensar em abrir mão de tudo para consegui-lo, passa a ser assustadoramente desbotado. “Afinal, o que os meus olhos estavam vendo?”, a gente se pergunta. Essa é a história do meu “período de ladra”.
“Parece o ‘período azul’ de Picasso”, Habara pensou. Mas ele compreendia bem o que ela queria dizer. Ela olhou o relógio digital da cabeceira. O horário de ir embora se aproximava. Deu uma pausa sugestiva e disse:
— Mas, para falar a verdade, a história não acaba aqui. Cerca de quatro anos depois, por uma pequena e curiosa coincidência, fui reencontrá-lo, quando estava no segundo ano do curso de enfermagem. A mãe dele também tem uma grande participação nessa história, que envolve algo sobrenatural. Não acho que você vá acreditar, mas quer ouvir?
— Muito — disse Habara.
— Então te conto da próxima vez — disse Sherazade. — É uma longa história, e já está na hora de eu voltar para casa para preparar o jantar.
Ela saiu da cama, colocou as roupas de baixo, a meia-calça, a regata, a saia e a blusa. Da cama, Habara observava vagamente essa sequência. “Os movimentos que uma mulher faz ao se vestir talvez sejam mais interessantes do que ao se despir”, pensou.
— Tem algum livro que você queira ler? — perguntou Sherazade, já se despedindo.
— Acho que nenhum em especial — Habara respondeu. “Eu só quero ouvir a continuação da sua história”, pensou, mas não disse. Sentiu que, se expressasse abertamente aquilo, talvez nunca mais fosse ouvi-la.
Nessa noite, Habara foi para a cama cedo e pensou em Sherazade. Talvez ela nunca mais volte aqui. Essa possibilidade o preocupava. Não era algo impossível de acontecer. Entre Sherazade e ele não havia nenhum tipo de acordo pessoal. Era uma relação proporcionada por acaso por alguém, e que poderia ser cortada a qualquer hora só pelo capricho desse alguém. Eles estavam ligados por uma corda fina e frágil, por assim dizer. Provavelmente um dia, ou melhor, com certeza um dia essa relação iria chegar ao fim. A corda seria cortada. Mais cedo ou mais tarde, essa era a única diferença. E, uma vez que Sherazade partisse, Habara já não poderia mais ouvir suas histórias. O fluxo seria interrompido, e as várias narrativas fantásticas, desconhecidas, ainda não contadas, desapareceriam. Ou talvez ele fosse privado de qualquer liberdade e, como consequência, fosse afastado de todas as mulheres, não só de Sherazade. Era grande a chance de isso acontecer. Assim, ele nunca mais poderia penetrar o interior úmido do corpo feminino. Nem sentir seu tremor sutil. Mas o que era mais difícil para Habara não era a falta do sexo em si, mas a possibilidade de não poder mais compartilhar um momento íntimo com as mulheres. Perdê-las, no final das contas, era isso. Um momento especial, que anula a realidade mesmo fazendo parte dela: era o que as mulheres proporcionavam. E Sherazade lhe oferecia isso de forma abundante e inesgotável. A consciência de que ele poderia perder isso um dia, outra vez, provavelmente o deixava mais triste do que qualquer outra coisa.
Habara fechou os olhos e parou de pensar em Sherazade. Pensou nas lampreias. Nas lampreias sem maxilas que se aderem à pedra, escondidas entre as plantas aquáticas, e balançam o corpo devagar. Então tornou-se uma delas e aguardou a truta passar. Porém, por mais que esperasse, não passava nenhuma. Nem as gordas, nem as magras, de nenhum tipo. Até que o sol se pôs, e ele foi envolvido por uma profunda escuridão. (p. 75 a 92).

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