quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Fabrício Carpinejar: para onde vai o amor?



SE VOCÊ SOUBESSE


O luto é lento. O homem pode disfarçar transando, separando o sexo do arrebatamento, tentando se relacionar à força, saindo com os amigos, aparecendo em festas, mas o luto é lento.
Se você soubesse como é difícil o homem amar, como é raro o homem amar.
O quanto é difícil. O quanto não será fácil acontecer outra vez.
Amor é desde o primeiro encontro, chuta a porta, arrebenta o trinco, esculhamba a vida.
Amor não é convencimento, persuasão, escolha do que é perfeito, do que se encaixa com o nosso temperamento.
Amor não é compatibilidade, afinidades eletivas, prazer da companhia.
É o improvável, é o inesperado, é o desconhecido.
É um mistério absurdamente desafiador, ingrato e perigoso.
Vai além da amizade, do controle, do domínio, do interesse.
Amor é ser incompetente para compreender. É se despedir beijando, é se despedir indicando o contrário.
E muitas vezes se afastar não é se despedir — é apenas sofrer, agora sozinho, a falta de entendimento.
Se você soubesse o quanto é complicado para o homem se abrir para alguém, atingir a cumplicidade e a confidência.
Homem não fala tudo para os amigos, homem fala o que pode. Mas o homem fala tudo para a mulher que ama, fala o que não imaginava falar um dia.
A palavra é a última reserva masculina, a última guarida. Ele somente se confessa na intimidade.
Ao se separar, o homem perde a palavra. Talvez queira compensar com atos e bravatas, porém perde a palavra.
Pode se vingar com o sexo, só que não é ele, não há brilho contumaz em seus olhos, não há a façanha da esperança, não há insegurança que o deixa seguro do que sente.
Se você soubesse a exclusividade do amor masculino. A adoração do amor masculino. A loucura do amor masculino. A insistência secreta do amor masculino.
Se você soubesse que jamais será substituída, trocada, apagada.
Que talvez ele nunca diga isso porque vão brigar antes.
Talvez ele nunca agradeça o que recebeu ou o que ofereceu porque não terá oportunidade ou se calará
diante de sua descrença. Você já não confia nele. Você é feita do extremo, da renúncia, como toda mulher:
ou é ou não é, ou mente ou conta a verdade, ou demonstra ou está fingindo.
Não é assim que funciona para o homem. Homem é confuso, é incoerente, ele é mentira e verdade
junto, brincadeira e seriedade misturadas, não tem como discernir.
Se você soubesse.
Ele acordará bem num dia, mal num outro, vai cercar o coração com a razão, e seguir adiante.
Seguir adiante não é superar, é se acostumar com a dor.
Não confie na aparência feliz, o pássaro que canta pode estar chorando.
O luto demora, pois não existe para ele, que continua casado por dentro.
Se você soubesse o quanto ele te ama.
E melhor ainda se você acreditasse (p. 33). 

Nenhum comentário:

Postar um comentário